Quem tem medo de uma UBES independente?
Sob a atual gestão, a UBES abandona uma política independente em favor dos interesses do governo social-liberal que ataca a educação com suas políticas de corte de gastos.

Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSB) e Márcio França (PSB) no Congresso da UJS (União da Juventude Socialista) em 16 de julho de 2022, em São Paulo. Reprodução/Foto: Redes sociais / Twitter.
Por João Lucas Leite
Depois de encerrado o 46° Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), as cartas do jogo político que já estavam postas na mesa mostraram não ser apenas um blefe, mas um indicativo real das verdadeiras intenções do campo democrático-popular que hoje dirige a entidade. Ocorrido nos dias 16 a 19 de abril, o CONUBES pôde deixar claro as bandeiras, prioridades e as propostas para o futuro da educação e da classe trabalhadora de cada uma das organizações que disputam a direção da maior entidade secundarista do nosso país, tanto no lançamento das Teses de cada uma das juventudes quanto nos acordos de cúpula prévios ao congresso.
A atual direção majoritária da entidade — que utiliza de fraudes nos processos eleitorais, da sua máquina burocrática e apoio dos governos que compõem a base do atual governo federal para manter sua hegemonia —, torna o congresso, que deveria ser democrático, em um jogo de cartas dadas e acordos políticos de cúpula para a manutenção de sua hegemonia. É tarefa fundamental dos comunistas participar da construção da UBES, negando e denunciando os métodos fraudulentos e a política pequeno-burguesa, para nesse processo disputar a consciência dos estudantes secundaristas, pautando uma política revolucionária, de classe e independente no movimento estudantil, combatendo o marasmo na qual a entidade está afundada.
A atual direção da UBES é parte de um campo político que é base do atual governo de conciliação de classes Lula-Alckmin, ignorando os ataques feitos por esse governo à educação e aos direitos do povo. Os estudantes brasileiros que enfrentam diariamente uma merenda e estrutura escolar precárias, falta de professores, péssimos materiais didáticos e salas não-climatizadas, que lutam constantemente pela sua educação e deveriam ter suas lutas representadas por essa entidade vêem, na prática, uma UBES que se comporta quase como uma extensão do Ministério da Educação (MEC) de um governo que se vende como “popular”, mas que na verdade faz uma gestão neoliberal-progressista do capitalismo dependente brasileiro.
Continuando a política de ataques à educação feitas por governos anteriores como o Novo Ensino Médio e a austeridade fiscal, o atual governo federal se comporta como um legítimo representante daqueles que querem transformar a educação em mercadoria. Sob a atual gestão, a UBES abandona uma política independente em favor dos interesses do governo social-liberal que ataca a educação com suas políticas de corte de gastos. Eles dizem representar uma política de “esquerda” e “popular”, mas mantém a UBES submissa ao MEC e aos empresários da educação. Aos oportunistas, cabe perguntar: afinal, quem tem medo de uma UBES independente?
A publicação das Teses do “Movimento Tudo Nosso!” — muleta utilizada pela União da Juventude Socialista (UJS), cabeça atual direção da entidade —, no dia 29 de março, escancaram, mais uma vez, o caráter de classe dos setores oportunistas que aparelham a UBES. O oportunismo, lido pelo senso comum como uma atitude moral obtenção de privilégios, vantagens e interesses pessoais, aparece aqui como uma caracterização política que significa sacrificar interesses fundamentais para obter vantagens temporárias e parciais, jogando na fogueira a luta política dos estudantes em favor de políticas públicas de contenção imediata de problemas históricos, que a longo prazo favorecem a burguesia, desarmando nossa organização e força política e armando uma resposta do capital contra essas conquistas momentâneas. As teses apresentadas pela UJS, marcadas pelo governismo (a defesa cega do atual governo), representação melhor do oportunismo nos tempos atuais, evidenciam como essa política os tornam não apenas falsos aliados, mas, em última instância, representantes dos interesses do nosso inimigo de classe no seio do movimento estudantil.
O documento que reserva sua maior parte a exaltação das “conquistas da UBES” para propagandear o “sucesso” da atual gestão, como a luta contra os cortes na educação e por ar-condicionado nas escolas — que foram encabeçadas no geral não pela entidade, mas por estudantes e grêmios independentes, que em sua maioria não tiveram suporte algum da UBES — deixa um pequeno espaço para falar sobre as bandeiras e propostas do “movimento”. É nesse momento que o silêncio é revelador. Não há menção ao Arcabouço Fiscal, política do atual governo que substituiu o Teto de Gastos do Temer, que continua impedindo o investimento em educação, saúde, segurança e todas as áreas fundamentais para a vida do povo trabalhador brasileiro ou sobre as privatizações mantidas e não enfrentadas pelo atual governo.
Tampouco há alguma palavra-de-ordem contra o Novo Ensino Médio, pelo contrário, dizem que o atual governo revogou a política que ainda segue vigente prejudicando o estudo da juventude trabalhadora. Nenhuma palavra sobre o aparelhamento dos grêmios estudantis por parte do estado burguês, através das Secretárias de Educação que em vários estados organizam os grêmios e suas eleições nas escolas, papel que deveria ser da UBES. Pelo contrário: as bandeiras e reivindicações da UJS, que são seguidas pelas demais organizações que compõem a majoritária: as Juventudes do PT (JPT), a Juventude Pátria Livre (JPL), Juventude Sem Medo (JSM), Juventude Socialista Brasileira (JSB), Levante, etc; são levantadas seguindo a “lógica do possível”, que na verdade é a lógica do derrotismo.
Um discurso que não dialoga com os problemas fundamentais dos estudantes e do povo trabalhador brasileiro, suas soluções e a necessidade de reorganizar a sociedade sobre o modo de produção socialista, mas sim que propõe políticas de contenção das mazelas produzidas pelo capitalismo dependente, sem tocar na raiz do problema. A lógica de que não dá pra “pedir demais”, que com a extrema-direita era pior e por isso devemos nos contentar com migalhas, o discurso de que não há como lutar e conseguir melhorias e que a única opção é se submeter ao atual governo e essa gestão social-liberal do sistema burguês.
As conquistas, quando não conquistadas pela luta independente e combativa dos secundaristas brasileiros, foram conseguidas a partir de articulações de cúpula pelo atual governo (como o Programa Pé de Meia, que apesar de suas limitações serve como um analgésico para o problema histórico da evasão escolar), sem organizar, movimentar e politizar os milhões de estudantes desse país. No lugar de fortalecer os grêmios estudantis e a organização e luta independente dos estudantes, a UBES faz política de cúpula com os ministros e secretários de Estado, abandonando cada vez mais o chão de escola. A quem interessa enfraquecer a organização independente dos estudantes?
Interessa somente a quem lucra com o sofrimento da maioria pobre e trabalhadora da sociedade, aqueles que historicamente lucraram com a escravidão negra e hoje lucram com a escravidão assalariada: a burguesia brasileira, o imperialismo e todos os seus representantes. Quando o movimento estudantil não está organizado de forma independente para combater os ataques (que são feitos de forma organizada pela burguesia e os oligopólios educacionais que buscam privatizar a educação pública), somos alvo de uma chuva de ataques.
Por outro lado, quando estamos organizados somos capazes de responder a altura e pautar a construção de uma escola de qualidade, para qual a UJS diz, em outras palavras, estar conduzindo a UBES com o seu movimento, tendo “travado o desafio de lutar a cada dia pela escola dos nossos sonhos, que acolha, que inclua, que ensina ciência, arte e cultura e todos saberes para que nas pessoas possam se emancipar.” (Teses do “Movimento Tudo Nosso!”)
Dizemos aos oportunistas que não há escola dos sonhos que ensine ciência, arte e cultura dentro do Novo Teto de Gastos e do Novo Ensino Médio, que os capachos do governo federal se omitem de criticar para continuarem bajulando o governo em troca de migalhas. Não há como conquistar uma Escola Popular, com ar condicionado em todas as salas, laboratórios, ensino de qualidade de todas as áreas do conhecimento humano, assistência estudantil, democracia, participação na gestão educacional e emancipadora dentro do capitalismo e da lógica do corte de gastos. A luta por uma Escola Popular passa, inevitavelmente, pela luta revolucionária da classe trabalhadora em defesa do socialismo, luta essa que exige sua organização e sua posição independente na política.
Enquanto os estudantes não se apresentarem na luta de classes como força aliada do movimento dos trabalhadores a partir de suas entidades, qualquer palavra de ordem em defesa da educação é vazia — como são as dos nossos companheiros da majoritária. Por isso, é urgente reorganizar o movimento estudantil em torno de uma UBES que represente, de fato, os interesses dos estudantes — e não os dos governos ou do capital. Uma entidade que combata as privatizações, a austeridade fiscal, os ataques da burguesia brasileira e do imperialismo. Manter a política governista da majoritária na condução da entidade é manter a UBES no marasmo, favorecendo somente a posição dos nossos inimigos, que avançam cada vez mais numa ofensiva carniceira contra nossos direitos.
Quem teme uma UBES independente e combativa são os que lucram com o sucateamento, precarização e privatização da educação, que se favorecem com a posição que a entidade toma hoje sob direção do oportunismo. É hora de dar a eles medo, romper com o marasmo e retomar a UBES para a luta! Combater o oportunismo e construir uma política de classe independente não é apenas uma tarefa urgente — é a única forma de garantir que O Futuro É Nosso!