Bancos lucram bilhões, fecham agências e adoecem a categoria: é hora de romper com a conciliação e reorganizar a luta bancária
Enquanto os grandes bancos acumulam lucros históricos, os bancários enfrentam fechamento de agências, demissões, metas abusivas e uma epidemia de saúde mental. Essa contradição escancara o caráter da ofensiva do capital financeiro no Brasil e coloca uma tarefa urgente para a categoria: reorganizar sua luta de forma independente e classista.

Membros do primeiro escalão do governo Lula participam de evento da FEBRABAN. Reprodução/Foto: Maria Isabel Oliveira.
Por Maíra Nery
A ofensiva do capital financeiro contra os bancários atingiu um novo patamar. Sob o discurso da readequação ao mercado, os grandes bancos vêm implementando uma reestruturação produtiva brutal, marcada pelo fechamento em massa de agências, demissões sistemáticas, terceirização e intensificação extrema do trabalho. O resultado é um quadro generalizado de precarização, insegurança e adoecimento.
Em 2024, os cinco maiores bancos do país, Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander, registraram, juntos, lucros superiores a R$140 bilhões. Trata-se de um resultado histórico, obtido não por ganhos reais de produtividade, mas pela intensificação da exploração da força de trabalho bancária e pela ampliação da transferência de renda dos trabalhadores para os acionistas, confirmando o caráter parasitário e concentrador do sistema financeiro nacional.
Essa riqueza obscena contrasta com a realidade cotidiana da categoria. Metas abusivas, jornadas estendidas, assédio moral, pressão psicológica e ameaça permanente de demissão e descomissionamento compõem o cotidiano dos bancários. A lógica é clara: extrair o máximo de trabalho do menor número possível de trabalhadores, reduzindo custos, destruindo direitos e ampliando a margem de lucro, num brutal processo de superexploração.
A face mais visível dessa reestruturação é o fechamento em massa de agências bancárias. Nos últimos dez anos, mais de 7 mil unidades foram encerradas em todo o país. Apenas entre 2019 e 2024, os bancos privados fecharam mais de 3 mil agências, sobretudo em bairros populares, periferias e pequenas cidades, o que acaba aprofundando a exclusão bancária da população mais pobre e concentrando ainda mais o atendimento em poucas unidades, lotadas, sobrecarregando violentamente os trabalhadores remanescentes. Cada agência fechada significa menos funcionários para atender a mesma demanda, resultando em filas intermináveis, pressão crescente e intensificação do ritmo de trabalho, gerando mais adoecimento e mais lucros para os acionistas.
Na prática, os bancos utilizam a tecnologia como instrumento de demissão em massa. O atendimento digital, os caixas eletrônicos, os aplicativos e as plataformas online servem para justificar cortes de pessoal, enxugamento de quadros e aumento da pressão sobre quem permanece. O resultado imediato é a sobrecarga extrema dos funcionários, a imposição de metas cada vez mais inalcançáveis e a naturalização de práticas sistemáticas de assédio moral. A digitalização, sob controle do capital financeiro, transforma-se em arma de classe. O desempenho é monitorado em tempo real, com rankings expondo os trabalhadores à humilhação, metas absurdas e o medo da substituição, que pode ocorrer por algoritmos, por terceirizados ou por outros colegas, funcionam como mecanismo disciplinador permanente.
O fechamento de agências vem acompanhado da ampliação acelerada da terceirização. Funções bancárias tradicionais estão sendo transferidas para call centers, correspondentes bancários, fintechs e empresas terceirizadas, onde predominam salários rebaixados, contratos precários, jornadas extenuantes e quase nenhuma proteção trabalhista, criando uma cadeia de exploração ampliada que fragmenta a categoria, amplia o exército industrial de reserva, fortalece o poder patronal e enfraquece a capacidade de resistência. Trata-se de uma estratégia consciente de destruição da força coletiva dos bancários, típica da ofensiva neoliberal e da financeirização da economia.
O impacto dessa ofensiva sobre a saúde dos trabalhadores é devastador e produziu uma verdadeira epidemia de adoecimento mental. Dados da Previdência Social e dos sindicatos indicam que os afastamentos por transtornos mentais (depressão, pânico, burnout, ansiedade) na categoria cresceram 168% em dez anos e cerca de 25% dos bancários se afastaram por transtornos mentais em 2025.
No entanto, essa ofensiva patronal só avança com tamanha profundidade porque encontra uma política de conciliação no interior do movimento sindical. As direções majoritárias, hegemonizadas pela CUT, vem substituindo a mobilização pela “negociação” permanente, transformando as campanhas salariais em rituais burocráticos e greves em atos simbólicos incapazes de pressionar os bancos. Ao aceitar os limites impostos pelo capital e pelo Estado, esse sindicalismo transforma o sindicato em gestor do conflito e não em instrumento de luta.
É como resposta a esse esgotamento que avança, em diversas regiões do país, a reorganização da oposição bancária classista, impulsionada por militantes combativos da categoria e com papel destacado do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Essa oposição não surge apenas com chapas eleitorais, mas como expressão política da experiência concreta da categoria e da necessidade de romper com décadas de conciliação que desarmaram os trabalhadores diante da ofensiva do capital financeiro.
Essa oposição defende a unificação dos bancários, combatendo a fragmentação imposta pelos bancos por meio da terceirização, diferenciação salarial e destruição de direitos. Trabalhadores que exercem as mesmas funções recebem salários distintos e possuem direitos diferentes, de acordo com o momento em que foram contratados. Essa lógica divide a categoria, enfraquece a solidariedade e reduz o custo do trabalho. A oposição bancária afirma que não há saída possível sem a defesa da isonomia salarial e da unificação de direitos, como condição básica para reconstruir a solidariedade de classe.
No centro dessa luta está também o enfrentamento ao adoecimento e às condições de trabalho. A epidemia de transtornos mentais na categoria não é resultado de fragilidades individuais, mas consequência direta de um modelo de gestão. Combater essa lógica exige organização coletiva, ruptura com a naturalização do sofrimento e enfrentamento direto às metas inalcançáveis impostas pelos bancos.
Outro elemento central dessa posição política é a crítica à lógica de carreira imposta pelos bancos. A ausência de critérios transparentes, o uso dos cargos comissionados como mecanismo de coerção e a instabilidade permanente transformam promoções em moeda de troca e instrumento de controle. Da mesma forma, a centralidade da renda variável, como PLR, PDG e gratificações, serve para mascarar salários rebaixados e retirar direitos históricos, aprofundando a competição individual e enfraquecendo a organização coletiva. Enfrentar essa lógica significa defender salário como direito e não como prêmio condicionado à submissão.
Ao sustentar essas posições, a oposição bancária classista reafirma que a luta da categoria não pode ser reduzida a uma soma de reivindicações econômicas isoladas. Os bancários não são um setor apartado da sociedade, mas parte orgânica da classe trabalhadora brasileira, inseridos em uma engrenagem de exploração que atravessa toda a economia. Sua luta está intrinsecamente ligada às demais lutas contra a precarização, a destruição de direitos e contra o próprio capitalismo.
A ofensiva do capital financeiro não será detida por mesas de negociação, acordos frágeis ou discursos moderados. Ela só poderá ser enfrentada por uma reorganização profunda da categoria, capaz de romper com o sindicalismo de conciliação e reconstruir uma alternativa classista e combativa em âmbito nacional.
Diante de lucros bilionários, fechamento em massa de agências, destruição de empregos e adoecimento generalizado, impõe-se uma escolha histórica aos bancários: ou reorganizam sua luta pela base, ou continuarão pagando, com sua saúde, seus direitos e suas vidas, a conta da acumulação capitalista.
A reconstrução da oposição classista e o trabalho político do PCBR apontam um caminho concreto. Cabe agora ampliar, consolidar e nacionalizar essa resistência, transformando-a numa força organizada capaz de enfrentar o poder do capital financeiro no Brasil e recolocar a categoria na linha de frente das lutas da classe trabalhadora.