Vivendo a antessala da guerra: como explicar as disputas interimperialistas hoje?
Para o marxismo-leninismo, os conflitos contemporâneos não são qualquer mistério, mas desenvolvimentos das próprias contradições internas do próprio capitalismo.

Trump, em reunião realizada em 9 de janeiro, reuniu os principais executivos dos monopólios petrolíferos dos EUA na Casa Branca para discutir a partilha da exploração do petróleo venezuelano. Reprodução/Foto: AFP.
Por Gabriel Lazzari
A situação internacional apresenta diversos desafios para a análise e múltiplas respostas são dadas pelos mais diversos tipos de analistas. Explicamos por meio dos conflitos geopolíticos? Das relações internacionais? Dos choques civilizacionais ou de culturas? Como podemos dar conta de explicar correta e cientificamente as disputas que vemos hoje? Ou mesmo qualificá-las?
Ora, para o marxismo-leninismo, os conflitos contemporâneos não são qualquer mistério, mas desenvolvimentos das próprias contradições internas do próprio capitalismo. Não é necessário, para isso, a “criação” de novas teorias, mas buscar, nas próprias situações que analisamos, os movimentos que nos levam a esse cenário contemporâneo.
Está mais do que claro que as visões que o grande capital imperialista – e seus ideólogos, sua imprensa etc. – apresentam não poderiam ser mais falsas. O presidente dos EUA, Donald Trump, é hoje um dos principais impulsionadores desta visão de mundo: o mundo se dividiria em “democracias” e “ditaduras” e seria papel particularmente dos EUA “levar a democracia” para os países ditatoriais. Essa visão não é apenas caricata, mas expressa conteúdos de classe bastante particulares, ou seja, interesses objetivos dos capitais monopolistas estadunidenses. Por um lado, Lênin, em seu A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky (1918), já nos esclarece que “A não ser para zombar do senso comum e da história, é claro que não se pode falar de ‘democracia pura’ enquanto existirem classes diferentes, pode-se falar apenas de democracia de classe”. O mesmo, é claro, pode-se dizer das “ditaduras”: todo Estado, para Engels, é não mais do que a ditadura de uma classe sobre a outra. Quando o imperialismo estadunidense coloca dois elementos que não são opostos, mas interligados, em oposição não está senão apresentando uma visão falsa da realidade. Toda democracia de uma classe, se há Estado, é também uma ditadura dessa mesma classe (sobre as outras). A falsificação da realidade está em separar esses dois aspectos, escondendo as relações sociais que estão por trás disso.
Essas posições são “fáceis” de ser confrontadas a partir de um mínimo senso comum “de esquerda”. Não é difícil demonstrar que há uma ação negativa dos EUA e que essa ação negativa se expressa não apenas economicamente, mas militarmente. É claro que, para um marxista-leninista, essa constatação óbvia não é suficiente. Ela capta no momento mais “agudo” das contradições interimperialistas – o conflito bélico – seu elemento mais notável, mais visível. Mas ainda assim, essa visão do “senso comum antiamericano” não explica os fundamentos nem mesmo da posição de um Donald Trump. O imperialismo estadunidense não ataca o Irã ou promove uma ingerência direta na Venezuela porque “gosta de guerra”. As causas estão na própria conformação do capitalismo contemporâneo, isso é, do capitalismo imperialista.
Quando Lênin escreveu, em 1916, Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, ele buscava se inserir no e qualificar o debate de sua época sobre o que significavam as mudanças no capitalismo em nível global. Seguindo rigorosamente os fundamentos de Marx e Engels, pôde analisar a principal mudança que se realizou entre o chamado “capitalismo concorrencial” do século XIX (que entrara em crise em 1873): o surgimento dos grandes monopólios. A queda tendencial da taxa de lucro e a falência de inúmeras empresas com a crise levou a uma concentração de capitais nunca antes vista na história da humanidade. Isso se deu porque, conforme as empresas quebravam, a sua massa falida – e também seus trabalhadores – eram incorporados às que não haviam quebrado. Isso levou a uma concentração e centralização de capitais e ao surgimento de grandes monopólios internacionais.
A isso se soma a tendência, já descrita por Marx em O Capital, para uma fusão cada vez maior de distintos setores da produção e circulação de mercadorias. Essa monopolização acontece também por causa da fusão cada vez maior entre o capital industrial e o capital bancário, seja por meio dos vínculos por meio do crédito (uma empresa toma emprestado regularmente dinheiro a um banco e os fluxos de valor produzidos vão daquela a este), seja por meio da própria divisão do capital concentrado em ações. Esses dois “lados” do processo operam simultaneamente: o surgimento de um capital financeiro (entendido como fusão entre o capital bancário e o industrial) e a monopolização da produção. O excedente de capital deve “escoar” e valorizar-se novamente, se não quiserem os capitalistas que seus investimentos percam função e, portanto, tornem-se entesouramento, e não propriamente capital. É aí, então, que se generaliza a exportação de capital, das grandes potências para os países dependentes. Lênin observa, assim, que “o que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital.”
O imperialismo é, então, não um “fenômeno” particular de algumas economias, Estados ou governantes, mas uma nova fase do capitalismo – a fase em que nos encontramos nos dias de hoje. Ele é, em resumo, o capitalismo monopolista. Os monopólios são a base produtiva sobre a qual se assentam as relações de produção e circulação contemporâneas do capitalismo.
O que Lênin observa – e combate as visões pequeno-burguesas a seu tempo – é que, ao mesmo tempo em que os monopólios se constituem, se intensifica a concorrência entre eles; em detrimento da “paz ultraimperialista” que Karl Kautsky apresentava como uma conclusão de sua análise. Monopolização e concorrência são contradições do próprio sistema capitalista-imperialista e, quando essas contradições se intensificam, podem levar a mudanças de qualidade – e aí é que se situam os conflitos armados, bélicos, as guerras. O caráter reacionário “transborda” do próprio capital monopolista e das contradições interimperialistas para conflitos armados.
Compreender quais são, então, os capitais monopolistas em disputa é o que explica os conflitos bélicos, as invasões, os bombardeios, porque não são as guerras que condicionam as disputas, mas o inverso. A guerra é, para o marxismo-leninismo, a política por outros meios. E a política e a economia não são campos “separados” de análise, mas representam um todo, o próprio modo de produção capitalista.
As tarefas do proletariado revolucionário, nessa quadra histórica, não diferem em substância das tarefas colocadas para Lênin e os bolcheviques: se entendermos o imperialismo (ou seja, o capitalismo monopolista), teremos clareza para colocar a classe trabalhadora em um papel de completa independência dos interesses objetivos de qualquer potência em disputa. Não será por meio de um “pacifismo abstrato” que poderemos enfrentar a ameaça de uma guerra mundial generalizada, que parece cada vez mais próxima no horizonte, mas lutando resolutamente contra o capitalismo e tomando o poder de Estado, retirando da cadeia imperialista e, consequentemente, das disputas interimperialistas, os países, como os proletários russos, liderados pelos bolcheviques, puderam fazer na Revolução Socialista de Outubro de 1917.