Há alternativa para os bancários do Distrito Federal

Propondo mobilização e reconstrução pela base, movimento de oposição inscreve chapa para as eleições do Sindicato dos Bancários de Brasília.

23 de Janeiro de 2026 às 21h00

Integrantes da Alternativa Bancária DF na assembleia eleitoral. Foto: Jornal O Futuro.

Por Caio Andrade

O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Brasília realizará eleições para a diretoria e o conselho fiscal que estarão à frente da entidade no período de 2026 a 2030. O pleito ocorrerá entre os dias 9 e 13 de março, de forma híbrida. Nesse processo, a base da categoria será chamada a decidir não apenas sobre os nomes de quem vai conduzir o sindicato no próximo quadriênio, mas, principalmente, sobre qual concepção de movimento sindical deve orientar a necessária luta dos bancários contra a exploração.

Há décadas, o Sindicato dos Bancários do DF tem sido dirigido pelo mesmo grupo político, ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Apesar de ter nascido como uma central combativa, expressão das grandes greves operárias entre o fim da década de 1970 e o início da década de 1980, a CUT converteu-se em uma máquina de conciliação, sobretudo a partir de 2003, quando abdicou de qualquer resquício de independência de classe para assumir o papel de mera correia de transmissão do governo Lula no movimento sindical. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (CONTRAF), ligada à CUT, seguiu o mesmo caminho da central, aprofundando o processo de burocratização.

Conforme a avaliação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) sobre a última campanha salarial da categoria, em 2024, “as negociações entre o comando da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, Contraf/CUT, e a Federação Nacional dos Bancos, Fenaban, culminaram em um dos acordos mais rebaixados da última década”. Mas, como destaca a Fração de Bancários do PCBR, “esse cenário não difere das campanhas salariais passadas, nas quais, sem nenhuma mobilização, a categoria perdeu direitos, chegando até mesmo a ter reajustes salariais abaixo da inflação”.

Essa tendência geral é sentida pelos bancários do DF e ajuda a explicar por que, apesar de tantos ataques aos trabalhadores, nenhuma greve foi realizada nos últimos anos. O resultado é uma coleção de derrotas, que inclui achatamento salarial, metas cada vez mais desumanas, demissões em massa, expansão das terceirizações e a institucionalização do assédio moral, com graves impactos sobre a saúde da categoria. Enquanto isso, os maiores bancos que operam no país acumulam lucros anuais que ultrapassam a marca de 100 bilhões de reais.

Nesse contexto, em 2025, nasceu a Alternativa Bancária DF (ABDF): Reconstrução pela Base. O coletivo é fruto da união entre lutadores experientes, que enfrentam a burocracia sindical e os patrões há muitos anos, e jovens militantes que ingressaram recentemente na categoria, mas já demonstram disposição para ocupar a linha de frente na defesa dos interesses dos bancários e da classe trabalhadora como um todo, como ficou evidente na campanha salarial de 2024, entre outros momentos.

O Manifesto da Alternativa resgata o histórico combativo da categoria, citando a jornada de 30 horas semanais como exemplo de conquista arrancada por meio da mobilização. No entanto, conforme aponta o texto, “a cada campanha salarial a CONTRAF-CUT empurra a categoria a amargar maiores derrotas e frustrações”. O balanço da ABDF sobre o último Acordo Coletivo, em 2024, denuncia o papel desmobilizador da maioria das direções sindicais que, em vez de organizarem os trabalhadores para o enfrentamento com os banqueiros, acabaram contribuindo para espalhar o medo entre a categoria.

Diante disso, o coletivo fez um chamado à construção de uma oposição forte, enraizada e capaz de romper com a apatia, defendendo o protagonismo das bases nas decisões, a transparência nas negociações e o fortalecimento da organização sindical nos locais de trabalho. Esses princípios são fundamentais para barrar a retirada de direitos e levar adiante bandeiras como o aumento salarial, o fim das terceirizações e o combate ao assédio moral.

Embora a Alternativa Bancária DF utilize as redes sociais para divulgar suas ideias e propostas, o trabalho desse novo movimento de oposição sindical vai muito além dos meios digitais. Os militantes da ABDF realizam panfletagens nas portas das agências e edifícios administrativos dos bancos, dialogando diretamente com a base sobre os problemas do cotidiano, a necessidade de organização e a importância da luta coletiva.

Os frutos desse trabalho já começaram a aparecer. No dia 16 de dezembro, mesmo após uma convocatória publicada com pouquíssima antecedência pela diretoria do sindicato — cerca de dois dias úteis —, a Alternativa conseguiu mobilizar dezenas de bancários para a assembleia presencial que definiu a composição da comissão eleitoral responsável por coordenar as eleições da diretoria e do conselho fiscal da entidade para o período de 2026 a 2030. Outro grupo, denominado Oposição Bancária, também participou desse esforço.

O bloco formado pela Alternativa Bancária e pela Oposição Bancária apresentou e defendeu sua chapa para a comissão eleitoral, aproveitando a oportunidade para politizar o debate, explicitar as diferenças de concepção sindical em relação ao cutismo, apontar as perdas da categoria no último período e afirmar a necessidade de recuperar o poder de mobilização do sindicato para defender direitos e, por meio da luta, ampliar conquistas. Mais de 70 trabalhadores votaram na chapa da oposição unificada, que conquistou, assim, o direito de ocupar uma vaga na comissão eleitoral.

Mais um passo fundamental na luta para mudar o rumo do Sindicato dos Bancários de Brasília foi dado no dia 22 de janeiro, data em que foi registrada a chapa Alternativa Bancária DF – Reconstrução pela Base, representada, no ato, por Rhuan Maciel, trabalhador do Banco do Brasil. Reunindo mais de quarenta nomes, de diferentes bancos, a chapa aglutina lutadores independentes e militantes de diversas correntes e organizações, todos com o propósito comum de romper com o imobilismo e fazer com que o sindicato seja uma ferramenta a serviço das reais necessidades dos bancários.

A chapa é resultado do encontro entre a resistência histórica da base combativa com a nova geração que, consciente do caráter estratégico do ramo bancário e da importância do sindicato como instrumento de organização dos trabalhadores, se somou à luta da categoria ao longo da última campanha salarial, exercendo um papel de destaque na crítica à postura recuada da maioria das direções sindicais ligadas à Contraf. O esforço dos militantes da ABDF foi decisivo para garantir que a base insatisfeita com a atual diretoria do sindicato tenha uma alternativa classista nas eleições que ocorrerão entre 9 e 13 de março.

O desafio colocado nessa disputa, contudo, não é simples. Trata-se de enfrentar a burocracia da CUT e sua poderosa máquina. Nesse cenário, a unidade da oposição será crucial. Essa unidade se constrói na luta cotidiana, no vínculo orgânico com a base e no diálogo permanente com a categoria — e não por meio de acordos artificiais entre grupos políticos e lideranças auto proclamadas. Esse é o caminho que a Alternativa Bancária vem trilhando até aqui e que deverá seguir construindo para além do próprio processo eleitoral no sindicato, seja qual for o resultado.