Há alternativa para os bancários do Distrito Federal
Propondo mobilização e reconstrução pela base, movimento de oposição inscreve chapa para as eleições do Sindicato dos Bancários de Brasília.

Integrantes da Alternativa Bancária DF na assembleia eleitoral. Foto: Jornal O Futuro.
Por Caio Andrade
O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Brasília realizará eleições para a diretoria e o conselho fiscal que estarão à frente da entidade no período de 2026 a 2030. O pleito ocorrerá entre os dias 9 e 13 de março, de forma híbrida. Nesse processo, a base da categoria será chamada a decidir não apenas sobre os nomes de quem vai conduzir o sindicato no próximo quadriênio, mas, principalmente, sobre qual concepção de movimento sindical deve orientar a necessária luta dos bancários contra a exploração.
Há décadas, o Sindicato dos Bancários do DF tem sido dirigido pelo mesmo grupo político, ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Apesar de ter nascido como uma central combativa, expressão das grandes greves operárias entre o fim da década de 1970 e o início da década de 1980, a CUT converteu-se em uma máquina de conciliação, sobretudo a partir de 2003, quando abdicou de qualquer resquício de independência de classe para assumir o papel de mera correia de transmissão do governo Lula no movimento sindical. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (CONTRAF), ligada à CUT, seguiu o mesmo caminho da central, aprofundando o processo de burocratização.
Conforme a avaliação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) sobre a última campanha salarial da categoria, em 2024, “as negociações entre o comando da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, Contraf/CUT, e a Federação Nacional dos Bancos, Fenaban, culminaram em um dos acordos mais rebaixados da última década”. Mas, como destaca a Fração de Bancários do PCBR, “esse cenário não difere das campanhas salariais passadas, nas quais, sem nenhuma mobilização, a categoria perdeu direitos, chegando até mesmo a ter reajustes salariais abaixo da inflação”.
Essa tendência geral é sentida pelos bancários do DF e ajuda a explicar por que, apesar de tantos ataques aos trabalhadores, nenhuma greve foi realizada nos últimos anos. O resultado é uma coleção de derrotas, que inclui achatamento salarial, metas cada vez mais desumanas, demissões em massa, expansão das terceirizações e a institucionalização do assédio moral, com graves impactos sobre a saúde da categoria. Enquanto isso, os maiores bancos que operam no país acumulam lucros anuais que ultrapassam a marca de 100 bilhões de reais.
Nesse contexto, em 2025, nasceu a Alternativa Bancária DF (ABDF): Reconstrução pela Base. O coletivo é fruto da união entre lutadores experientes, que enfrentam a burocracia sindical e os patrões há muitos anos, e jovens militantes que ingressaram recentemente na categoria, mas já demonstram disposição para ocupar a linha de frente na defesa dos interesses dos bancários e da classe trabalhadora como um todo, como ficou evidente na campanha salarial de 2024, entre outros momentos.
O Manifesto da Alternativa resgata o histórico combativo da categoria, citando a jornada de 30 horas semanais como exemplo de conquista arrancada por meio da mobilização. No entanto, conforme aponta o texto, “a cada campanha salarial a CONTRAF-CUT empurra a categoria a amargar maiores derrotas e frustrações”. O balanço da ABDF sobre o último Acordo Coletivo, em 2024, denuncia o papel desmobilizador da maioria das direções sindicais que, em vez de organizarem os trabalhadores para o enfrentamento com os banqueiros, acabaram contribuindo para espalhar o medo entre a categoria.
Diante disso, o coletivo fez um chamado à construção de uma oposição forte, enraizada e capaz de romper com a apatia, defendendo o protagonismo das bases nas decisões, a transparência nas negociações e o fortalecimento da organização sindical nos locais de trabalho. Esses princípios são fundamentais para barrar a retirada de direitos e levar adiante bandeiras como o aumento salarial, o fim das terceirizações e o combate ao assédio moral.
Embora a Alternativa Bancária DF utilize as redes sociais para divulgar suas ideias e propostas, o trabalho desse novo movimento de oposição sindical vai muito além dos meios digitais. Os militantes da ABDF realizam panfletagens nas portas das agências e edifícios administrativos dos bancos, dialogando diretamente com a base sobre os problemas do cotidiano, a necessidade de organização e a importância da luta coletiva.
Os frutos desse trabalho já começaram a aparecer. No dia 16 de dezembro, mesmo após uma convocatória publicada com pouquíssima antecedência pela diretoria do sindicato — cerca de dois dias úteis —, a Alternativa conseguiu mobilizar dezenas de bancários para a assembleia presencial que definiu a composição da comissão eleitoral responsável por coordenar as eleições da diretoria e do conselho fiscal da entidade para o período de 2026 a 2030. Outro grupo, denominado Oposição Bancária, também participou desse esforço.
O bloco formado pela Alternativa Bancária e pela Oposição Bancária apresentou e defendeu sua chapa para a comissão eleitoral, aproveitando a oportunidade para politizar o debate, explicitar as diferenças de concepção sindical em relação ao cutismo, apontar as perdas da categoria no último período e afirmar a necessidade de recuperar o poder de mobilização do sindicato para defender direitos e, por meio da luta, ampliar conquistas. Mais de 70 trabalhadores votaram na chapa da oposição unificada, que conquistou, assim, o direito de ocupar uma vaga na comissão eleitoral.
Mais um passo fundamental na luta para mudar o rumo do Sindicato dos Bancários de Brasília foi dado no dia 22 de janeiro, data em que foi registrada a chapa Alternativa Bancária DF – Reconstrução pela Base, representada, no ato, por Rhuan Maciel, trabalhador do Banco do Brasil. Reunindo mais de quarenta nomes, de diferentes bancos, a chapa aglutina lutadores independentes e militantes de diversas correntes e organizações, todos com o propósito comum de romper com o imobilismo e fazer com que o sindicato seja uma ferramenta a serviço das reais necessidades dos bancários.
A chapa é resultado do encontro entre a resistência histórica da base combativa com a nova geração que, consciente do caráter estratégico do ramo bancário e da importância do sindicato como instrumento de organização dos trabalhadores, se somou à luta da categoria ao longo da última campanha salarial, exercendo um papel de destaque na crítica à postura recuada da maioria das direções sindicais ligadas à Contraf. O esforço dos militantes da ABDF foi decisivo para garantir que a base insatisfeita com a atual diretoria do sindicato tenha uma alternativa classista nas eleições que ocorrerão entre 9 e 13 de março.
O desafio colocado nessa disputa, contudo, não é simples. Trata-se de enfrentar a burocracia da CUT e sua poderosa máquina. Nesse cenário, a unidade da oposição será crucial. Essa unidade se constrói na luta cotidiana, no vínculo orgânico com a base e no diálogo permanente com a categoria — e não por meio de acordos artificiais entre grupos políticos e lideranças auto proclamadas. Esse é o caminho que a Alternativa Bancária vem trilhando até aqui e que deverá seguir construindo para além do próprio processo eleitoral no sindicato, seja qual for o resultado.