Palantir publica manifesto apontando escalada bélica mundial baseada em IA
É preciso apontarmos os responsáveis, e mais que isso, precisamos de planos e dar condições para nós trabalhadores superarmos essa condição.

Encontro de Fernando Haddad, Ministro da Fazenda, com Jensen Huang, CEO da NVIDIA. Reprodução/Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda.
Por Edson Cizeski
No dia 18 de abril a Palantir Technologies, empresa estadunidense de Inteligência Artificial, espionagem e tecnologia militar, publicou na rede social X um manifesto de vinte e dois pontos apresentado como resumo do livro “The Technological Republic”, escrito por Alex Karp, atual CEO da empresa. O conteúdo do manifesto é um programa geopolítico de caráter ultra reacionário, fascistoide, que aponta para um horizonte de uma nova Guerra Fria e escalada bélica mundial baseada em dados e tecnologia digital.
Como denunciado anteriormente pela nossa redação e bastante fundamentado na tese de doutorado “Soberania Fatiada: Controle das Infraestruturas e Subordinação da Autoridade Pública no Mundo Digital”, de João Francisco Cassino (2025) com orientação do Prof. Dr. Sérgio Amadeu da Silveira, serviços públicos essenciais brasileiros possuem laços diretos com a empresa de vigilância e espionagem de mais influência no segundo mandato de Donald Trump - através da Nuvem de Governo “soberana”, operacionalizada pelo Serpro (Empresa Nacional de Inteligência em Governo Digital e Tecnologia da Informação), que permite a contratação sem licitação de produtos de grandes big techs estrangeiras, sendo a Palantir talvez apenas a mais perigosa (a primeira vista) dentre elas; assim como está submetida legalmente ao Cloud Act americano que, resumidamente, permite com que o governo dos EUA decida, quando quiser, bloquear nosso acesso aos centros de dados com hardware e software de propriedade privada estadunidense.
Há indícios desde março de 2024 da intervenção da empresa fundada por Peter Thiel no Brasil. O caso notório é do Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (Pnate) que cedeu a gestão e análise de dados para a Palantir, como exposto em artigo da Carta Capital, o Relatório de Gestão do FNDE do primeiro semestre 2025 (removido da página do Fundo) confirmava o uso do software Palantir Foundry e da Artificial Intelligence Platform (AIP). Outra publicação de 2024 ainda disponível menciona os produtos contratados.
Dessa maneira, o Governo Federal assume que a tecnologia necessária para gerir um programa de trasporte escolar infantil perpassa produtos provenientes de uma empresa de “mineração de dados”, alvo de diversas ações judiciais nos Estados Unidos por seus serviços de espionagem prestados a clientes como o Pentágono, a CIA e os serviços secretos MI6 (Reino Unido) e Mossad (Israel). Sem contar o apoio direto da Palantir às operações do Exército israelense na Faixa de Gaza e ao rastreamento de imigrantes para deportação pela Agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE).
Sobre os pontos do manifesto
O manifesto inicia-se em tom moral, assumindo que o Vale do Silício (região da baía de São Francisco onde estão situadas várias empresas de alta tecnologia) possui uma “dívida moral” com a elite americana, por conta disso seus engenheiros de ponta teriam “obrigação de participar da defesa da nação”, exigindo complacência dos funcionários que já começaram a entender as intenções reais dos fundadores da companhia. Criada após os atentados do 11 de setembro para supostamente detectar e impedir novas ameaças de segurança, a empresa no último período esteve a frente das tecnologias por trás das chacinas conduzidas pelo ICE e do bombardeio americano que assassinou 120 crianças no Irã. Esse cenário gera pressões externas aos trabalhadores que começam a expressar seu descontentamento e cenário de crise interna, como exposto por relatório recente da Wired.
No ponto quatro, é defendido que “[...] a capacidade das sociedades livres e democráticas para prevalecer exige algo mais do que um apelo moral. Exige poder duro, e o poder duro neste século se baseará no software.”, já no ponto treze argumentam que “Nenhum outro país na história do mundo promoveu os valores progressistas mais do que este [...]” e retomam as obrigações morais das big techs alegando no ponto dezessete que “O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate aos crimes violentos [...]”. Ou seja, há uma busca ativa por um ideal de governo mais autoritário e vigilante, voltando suas novas armas internamente e criando, assim, novos mercados para sistemas que resultam tão somente em opressão popular mediante as determinações preconceituosas algorítmicas. Ao mesmo tempo, justificam toda e qualquer violência resgatando o mais infundado american dream.
Utilizando-se de artimanhas ao criar um inimigo hipotético, a Palantir segue defendendo seu interesse de maximizar seus lucros frente a criação de armas baseadas em IA, nítido no ponto 5: “A questão não é se armas de IA serão fabricadas, mas quem as fabricará e com que propósito. Nossos adversários não vão parar para se envolver em debates teatrais sobre as vantagens de desenvolver tecnologias com aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles seguirão em frente.”; exigindo, inclusive, que “O serviço nacional deveria ser um dever universal” - para que termos preocupações sociais e garantia de emprego se podemos disparar tropas inexperientes para enfrentar drones assassinos e mísseis teleguiados por decisões robóticas?
A pretensão megalomaníaca costumeira da elite no comando das big techs continua ao expor que “A era atômica está chegando ao fim. [...] está prestes a começar uma nova era de dissuasão baseada em IA.”. O cinismo presente nas posições da empresa segue alegando que os EUA foi o responsável por um período de quase um século de “paz”. Certamente, os autores não poderiam esquecer do envolvimento militar imperialista americano nas guerras da Síria, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Iêmen, Somália, Irã e Palestina (para mencionar algumas). Descontentes com o cenário de “paz” atual, os dirigentes da Palantir esperam que nos encaminhemos para um mundo de conflitos inter-imperialistas guiados por grandes centros de dados e tecnologias preditivas, que passam a ser incontestavelmente parte do arsenal estadunidense - mesmo em solo brasileiro, como é o caso dos data centers a serem instalados no país devido ao rebaixado Plano Nacional de Datacenters de Haddad.
Para não deixar qualquer dúvida sobre seu viés fascista, o manifesto defende abertamente a retomada militar desenfreada da Alemanha e Japão, “a neutralização [...] após a guerra deve ser revertida. O desarmamento da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e altamente teatral com o pacifismo japonês, se mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia”. Não há qualquer pretensão de ocultar o higienismo nas falas apresentadas, visto que para a Palantir “certas culturas e, de fato, subculturas… produziram maravilhas. Outras se mostraram medíocres e, pior ainda, regressivas e prejudiciais”.
Diante desse cenário de crise da hegemonia global estadunidense e acirramento na sociedade burguesa, especificamente a elite das big techs, do militarismo é preciso termos respostas para a classe trabalhadora brasileira de que rumo devemos tomar. O programa do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) não podia ser mais claro: “[...] erguemos a bandeira da transformação da guerra capitalista entre os povos em guerra civil revolucionária do proletariado de cada país contra sua própria burguesia, no rumo de uma revolução proletária internacional que possa, enterrando o modo de produção capitalista em seu estágio imperialista, realizar um mundo de paz e solidariedade entre os trabalhadores e as trabalhadoras de todo o mundo.”.
No horizonte mais imediato é preciso combatermos o estado de vigilância constante instaurado pelo imperialismo, entendo que é necessário a “Desmilitarização do aparato de segurança pública, o fim da polícia militar e a completa reestruturação de todo o contingente armado sob controle do Estado, assegurando a mais ampla participação popular na segurança pública”.
E para qual caminho a categoria de trabalhadores da tecnologia da informação se organizará?
Enquanto o silêncio e despolitização torna-se norma para os sindicatos dos trabalhadores da tecnologia da informação, tanto os vinculados à Federação Nacional dos Empregados em Empresas e Órgãos Públicos e Privados de Processamento de Dados (FENADADOS/CUT) ou Federação Nacional dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação (FENATI/CSB), as big techs avançam na sua influência no nosso país, criando dependências estruturais que não poderão ser superadas de maneira leviana. Se não houver debate político qualitativo nem dentre os (poucos) trabalhadores da área que possuem condições de se sindicalizar, muito menos teremos no futuro próximo condições de reverter esse cenário de colonialismo digital com apoio das massas populares.
Para a Palantir, os servidores públicos são um “problema” relevante, apontando que “[...] qualquer empresa que remunera seus empregados da mesma forma que o governo federal remunera os funcionários públicos terá dificuldades para sobreviver.”, mesmo assim não há qualquer expectativa de cobrança por parte das entidades sindicais sobre as relações escusas da empresa de vigilância com as empresas (e órgãos) públicos brasileiros.
Em blog da Fenadados, a Secretaria de Tecnologia da federação, Marcia Honda, tenta de maneira superficial e tímida apontar problemas relacionados a política nacional de IA, uma dentre as várias ações rebaixadas no cenário da TI por parte do Governo Federal, apontando que “arrisca aprofundar nossa condição de colônia” e “dano de uma IA sem soberania nacional é imensurável”. Não há sequer a tentativa de apontar quais as alternativas e medidas concretas que deveríamos tomar frente ao avanço das IAs no serviço público brasileiro, assim como a crítica ao consumo desenfreado dos nossos recursos naturais e energéticos por parte dos data centers é meramente citado como um problema devido a “expulsar comunidades de seus locais de resistência”, e não por agravar ainda mais as condições climáticas do país que podem levar a um completo declínio das condições de vida do nosso povo.
Precisamos ser intransigentes: não há risco de aprofundarmos nossa condição de colônia, somos uma colônia digital das potências estrangeiras e atuais lideranças políticas são coniventes com esta posição de subserviência; é preciso defendermos o nosso bem imaterial ecológico, nossos recursos naturais, frente aos interesses privados estrangeiros que querem consumir de maneira desenfreada e antiquada esses recursos. Utilizar-se de jargões como “soberania nacional” e “soberania digital” em cada discurso ou fala não irá mudar essa nossa posição do dia para a noite. É preciso apontarmos os responsáveis, e mais que isso, precisamos de planos e dar condições para nós trabalhadores superarmos essa condição.
Retomando o programa do PCBR, “[...] Nos períodos de crise, se acirra na sociedade burguesa o militarismo, seja porque a indústria bélica se torna uma tábua de salvação, seja para destruir capitais e aniquilar a superpopulação relativa em massa”. Não podemos ter a ilusão de que essas condições irão mudar sem nossa organização e enfrentamento ativo. Precisamos ir para ofensiva exigindo o fim dos contratos leoninos com as corporações estrangeiras, investimento em pesquisa e educação, novos concursos públicos, fim da terceirização e da precarização, criação de um projeto de país que aproveite suas terras raras e torne-se verdadeira potência soberana no meio da tecnologia e informação, com soluções nacionais de softwares de ponta, redes sociais, semicondutores e IA. Rumando para uma sociedade socialista-comunista com autossuficiência tecnológica no controle do povo e o fim do Estado de vigilância e espionagem.