Greve dos petroleiros: conquistas reais?
O desfecho da greve de dezembro de 2025 da Petrobrás aponta falência do sindicalismo institucional.

Trabalhadores defendem distribuição justa dos lucros da Petrobrás. Reprodução/Foto: FUP.
Por Eva
No último dia 15 de dezembro de 2025 a Petrobras se deparou com uma mobilização paredista que há muito tempo não se via. Os entraves nas negociações do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) do biênio 2025 - 2027, que se arrastaram desde agosto de 2025 sem um consenso entre as partes, chegou ao seu ponto mais agudo em dezembro, com a companhia acusada pelos trabalhadores de sua intransigência nas negociações.
A mobilização da categoria é bem conhecida historicamente e isso garantiu conquistas importantes ao longo dos anos; e com as dificuldades para firmar um acordo justo os trabalhadores se organizaram para uma nova greve em dezembro de 2025. As principais demandas da categoria no ACT se concentraram em três eixos:
● Ganho real de aumento salarial, estimado em 10,34%, resultado do cálculo de perdas compensadas desde 2016; ampliação de direitos que envolvem benefícios alimentares e educacionais, horas extras, auxílio doença, assistência alimentar, entre outros;
● Fim dos Planos de Equacionamentos de Déficits da PETROS (PeDs), o fundo de pensão dos trabalhadores da Petrobras. Um documento de 2024 elaborado à pedido das representações sindicais mostra os déficits associados a um dos planos da PETROS, que penaliza os aposentados e pensionistas;
● Defesa da soberania e da companhia como patrimônio nacional, com críticas à gestão da presidenta Magda Chambriard quanto ao repasse de dividendos a acionistas, 45% deles estrangeiros, enquanto a categoria recebe trocados na forma de Participação nos Lucros e Rendimentos (PLR);
Dadas as negociações sem consenso após três propostas, tanto a Federação Única dos Petroleiros (FUP) quanto a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) entraram em acordo quanto à convocação para uma greve geral nas unidades, buscando pressionar a empresa a abrir as portas para nova rodada de negociações.
Iniciar um movimento grevista às vésperas das festas de fim de ano é desafiador, mas o movimento adquiriu força de todos os sindicatos e das empresas subsidiárias da Petrobras (Transpetro, TBG, PBIO e TermoBahia) - fenômeno deu grande reforço e fôlego às pautas reivindicadas. Até então todas as organizações de trabalhadores estavam em sintonia.
Mas o ponto de virada aconteceu no dia 22 de dezembro. Enquanto a FNP considerava insuficiente os pontos apresentados pela empresa, a FUP considerou a aceitação da proposta e direcionou as suas bases para o encerramento da greve. A companhia redigiu uma carta compromisso para formação de um Grupo de Trabalho para as questões dos equacionamentos, concedeu ajustes em benefícios, mas manteve um aumento salarial real insignificante.
Sem dúvida uma dissonância muito "estranha" - tanto que a FNP não aceitou de imediato o ACT e manteve o estado de greve nas suas filiações. E mesmo entre bases da FUP o consenso não foi geral, pois quatro inicialmente divergiram da recomendação do conselho deliberativo e continuaram com o movimento paredista. Em resposta a companhia se utilizou de recursos jurídicos perante o TST como dissídio coletivo, mas o indicativo de fim da greve veio antes dessa manobra. O que de fato havia acontecido para que a greve, que estava fortalecida e que tinha tudo para ser grande, perdesse força tão rápido?
Também é "interessante" observar as publicações na mídia hegemônica sobre o movimento. Não há veículos que se aventuraram em analisar as divergências dos rumos da greve (talvez apenas a Agência Brasil, e ainda assim timidamente). Em quase todos os outros o que se viu foi destaque para as perdas de 200 milhões de reais por dia com a greve - como se os lucros trimestrais da Petrobras não fossem bilionários conforme a própria empresa divulgou no último relatório de novembro de 2025.
A dissuasão do estado grevista pela FUP representa um grande revés para toda a categoria, pois se reduz a barganhar questões econômicas. Os dividendos são bilionários para os acionistas, e nada é proposto para mudar esse cenário. Além disso, a vinculação da FUP à Central única dos Trabalhadores (CUT) significa invariavelmente ceder às pressões do governo federal, que mantém sua lógica neoliberal em todas as esferas de administração. Essa postura da FUP e da CUT escancara o caráter entreguista da dissuasão, levando os trabalhadores a aceitarem um ACT flagrantemente inferior. Com esta desmobilização articulada outros organismos fatalmente recuaram na luta.
Não foi diferente antes e não é diferente agora: é resultado de um processo que vem desde a década de 1990, e em especial nos governos Lula e Dilma entre 2003 e 2016; a CUT se alinhou a uma postura mais corporativista e institucional e afastou-se das pautas dos trabalhadores. O que tinha tudo para ser um movimento com possibilidades reais de melhorias mais uma vez capitulou perante a conciliação ilusória de classes. O sindicalismo brasileiro foi cooptado pela institucionalidade e reduzido a burocracias, e seu caráter mais orgânico foi comprometido. É claro que a CUT e suas filiadas exercem papel importante na sociedade, mas se limitam a pautas de defesa, e não de proposição. Não oferecem o horizonte revolucionário necessário na organização do proletariado, relegando a ação sindical a uma contribuição monetária, muitas vezes descontada do pró labore do trabalhador sem retorno real. Não é absurdo pensar que muitos trabalhadores desistem da filiação sindical por não se sentirem representados legitimamente.
É necessário resgatar e transformar o movimento sindical brasileiro mesmo entre categorias historicamente mobilizadas, como a dos petroleiros. A luta defensiva pelos direitos é mandatória, mas não é suficiente para conter o avanço da precarização das condições de trabalho e da exploração; também não é suficiente para pautar mudanças concretas na gestão de um patrimônio ainda benquisto como a Petrobras. Até quando aceitaremos um sindicalismo institucional, que nada faz pelo bem público negociado por trocados insignificantes para o trabalhador? Quando de fato aceitaremos que nada de valor se produz sem nós?
Não temos a resposta imediata, mas o PCBR tem uma proposta de caminho. E por isso estamos aqui: trabalhando continuamente a nossa capilaridade para a conscientização e mobilização da classe trabalhadora. Queremos mais, e queremos melhor, para todos. Sem exceção.