Manifestantes denunciam obra em propriedade privada e são alvo de operação da Polícia Civil e ataques da imprensa
Grupo de ativistas e comerciantes de Itaboraí (RJ) enfrentam ameaças, busca e apreensão e matérias tendenciosas após denunciar supostos desvios e irregularidades na gestão municipal; em nova manifestação, pai do prefeito é acusado de intolerância religiosa e racial.

Núcleo do SEPE de Itaboraí se manifestando na passarela. Reprodução/Foto: Júlio Dellosantos.
Por GASC
O que era para ser mais um dia de fiscalização popular no Distrito de Cabuçu, em Itaboraí (RJ), transformou-se no estopim de um conflito que expõe as tensões entre a administração municipal e setores organizados da sociedade civil. No final de 2025, um grupo de denunciantes flagrou maquinário e funcionários da prefeitura realizando obras dentro de uma fazenda particular — propriedade que, segundo relatos de moradores, pertenceria a familiares do prefeito Delaroli (PL). A cena incomum levantou suspeitas de desvio de função e uso da máquina pública em benefício privado.
A denúncia, feita por ativistas locais nas redes sociais, viralizou rapidamente. Mas a repercussão veio acompanhada de ameaças. Segundo testemunhas, os manifestantes foram intimidados ainda no local por pessoas ligadas à família do prefeito. O caso, no entanto, não gerou investigação imediata — ao contrário: semanas depois, em novembro, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão nas residências de cinco dos denunciantes. A acusação: formação de quadrilha e disseminação de falsas acusações.
Para os moradores e lideranças comunitárias, a operação representa uma clara tentativa de silenciar a oposição. "Eles usam a máquina pública para desmoralizar quem denuncia. É uma resposta autoritária a quem apenas exige transparência", afirmou um dos investigados, que preferiu não se identificar.
No mesmo período, o Jornal O Dia publicou uma reportagem assinada pelo jornalista Fabiano Medina, na qual os ativistas foram retratados de forma pejorativa, com termos que sugeriam a existência de uma célula de desestabilização na cidade. A abordagem foi amplamente criticada por leitores e entidades de classe, que apontaram parcialidade e ausência de contraditório.
Obra no centro e nova manifestação

José Delaroli argumentando contra os manifestantes cercado pela sua guarda “particular” municipal. Reprodução/Foto: Júlio Dellosantos.
A insatisfação popular, no entanto, não arrefeceu. No último dia 9 de fevereiro, comerciantes locais, moradores, movimentos sociais como o Movimento Arboriza Itaboraí, organizaram uma manifestação pacífica no centro da cidade. O objetivo era cobrar diálogo sobre as obras em andamento na região central, classificadas pelos críticos como "cosméticas" e prejudiciais ao comércio local. Segundo os manifestantes, dezenas de famílias foram desalojadas de seus pontos de trabalho sem qualquer planejamento ou realocação.
Durante o ato, o pai do prefeito Delaroli, José Delaroli, compareceu ao local e, segundo relatos, agiu de forma agressiva para dispersar os presentes. Testemunhas afirmam que, além da truculência, ele proferiu falas de cunho racista e de intolerância religiosa contra um dos manifestantes. "Éramos poucas pessoas, mas ele veio com ódio, atacando nossa fé e nossa cor. Foi humilhante", desabafou a vítima, que preferiu não se identificar. Indignado, o manifestante afirmou que irá procurar a delegacia para registrar um boletim de ocorrência contra José Delaroli por injúria racial e intolerância religiosa, crimes inafiançáveis.
No mesmo dia, em uma nova matéria do Jornal O Dia, novamente assinada por Fabiano Medina, trouxe uma versão dos fatos que invertia os papéis: José Delaroli era apresentado como vítima, enquanto os manifestantes eram novamente retratados como agitadores. A reportagem omitiu completamente as acusações de racismo e intolerância religiosa, gerando ainda mais revolta entre os movimentos sociais.
Democracia burguesa sob pressão
A sequência de episódios acendeu um alerta entre defensores dos direitos humanos e da liberdade de expressão. Para lideranças locais, o que está em jogo é o direito legítimo da população de se manifestar contra aquilo que considera abuso de poder e má gestão.
"O que vemos é o uso político das instituições para proteger interesses privados. A população denuncia, e a resposta são ameaças, operações policiais seletivas e uma imprensa que age como porta-voz do poder instituído. Agora, somam-se a isso ataques racistas e religiosos, que não podem ser tolerados", criticou um representante do Sindicato dos Professores Estaduais, que apoiou a fixação de faixas em passarelas da cidade denunciando os problemas estruturais da gestão.
Enquanto isso, Itaboraí segue com suas obras inacabadas, serviços públicos sucateados e uma população cada vez mais desconfiada de que a máquina pública está a serviço de poucos. A pergunta que ecoa nas ruas é: até quando o grito por justiça será tratado como crime.