Exploração brutal nas cozinhas do SESC exige resposta organizada dos trabalhadores
A partir de denúncias anônimas de funcionários das cozinhas, nossa reportagem destaca o assédio moral constante e más condições de trabalho.

Trabalhadores realizando atividades de higienização na cozinha. Reprodução/Foto: SESC SP.
O SESC é uma instituição destacada no estado de São Paulo. Oferece alimentação, lazer e cultura a preços mais baixos que a média do mercado em um país onde esses serviços são frequentemente inacessíveis à maioria da população. Por isso, a marca goza de grande prestígio junto ao público geral. A realidade dos auxiliares de serviços de alimentação, no entanto, é muito diferente. Responsáveis por limpar todo o ambiente, servir almoço e lavar louça - ou seja, por manter o serviço de alimentação em funcionamento -, esses trabalhadores sofrem com abusos e exploração.
Trabalhador do SESC, envie sua denúncia!
A partir das denúncias feitas por funcionários do setor alimentício do SESC, o jornal O Futuro publica esta matéria. Por receio de retaliações, os denunciantes pediram para permanecer anônimos. Divulgamos aqui a preocupante situação e convocamos todo funcionário do SESC a enviar suas denúncias por meio de um formulário construído pelos próprios trabalhadores.
Isolamento e controle
Há nas cozinhas do SESC grande isolamento do resto dos funcionários da instituição. O movimento da categoria dentro dos prédios é controlado e vistoriado constantemente, assim como o acesso ao RH. Qualquer deslocamento é questionado e o trabalhador é intimidado. Esse isolamento gera dificuldade de progressão de carreira, uma vez que esses funcionários praticamente só têm contato com supervisores diretos e cozinheiros.
Os funcionários da cozinha relataram a diferença gritante de tratamento em relação aos demais setores. A máxima do SESC para com seus empregados, de que sejam "multiplicadores sociais" do que aprendem na instituição, torna-se impraticável: no dia a dia, estão sujeitos apenas a agressividade, desrespeito e exploração laboral.
A falta de funcionários é um problema recorrente. Os auxiliares de cozinha, em regime CLT, não recebem por horas extras, mas têm banco de horas. Acumulam-se muitas horas, há dificuldade constante de tirar folgas de dia inteiro, sem contar o desvio e acúmulo de funções, além de problemas físicos e psicológicos.
A jornada é de 40 horas semanais em escala 5x2. Entretanto, a administração diminui as horas trabalhadas em dias úteis para garantir a presença nos fins de semana, impossibilitando que os funcionários desfrutem de sábados e domingos com suas famílias. O banco de horas é descontado com pequenas alterações nos horários de entrada e saída, corroendo as horas acumuladas.
Devido à falta de funcionários, é comum que os auxiliares realizem duas, três e até quatro funções simultaneamente por horas seguidas. Esse abuso gera desgaste físico e diversos funcionários tiveram de realizar cirurgias ortopédicas, estão afastados ou trabalham com laudo. Acidentes como queimaduras também ocorrem, pois, mesmo havendo protocolos de EPI, a quantidade de tarefas acumuladas reduz a eficácia da proteção. Auxiliares com experiência prévia em cozinhas industriais são frequentemente obrigados a "dar uma força" na cozinha, suprindo a falta de cozinheiros e ajudantes, sem qualquer alteração funcional ou salarial.
Diferentemente dos outros setores, os funcionários da cozinha não têm intervalo regularizado, mesmo trabalhando em pé durante todo o expediente. A pausa para café precisa ser solicitada ao supervisor, que analisa o fluxo antes de liberar, e com poder de veto. Idas ao banheiro também dependem de autorização no altar do bom funcionamento da cozinha. A relação com os nutricionistas é descrita como distante. Responsáveis pelo cardápio e pela fiscalização sanitária criticam com desrespeito e não fornecem orientações adequadas para o trabalho.
A situação é mais grave nas unidades que servem almoço, devido à carga de trabalho mais pesada. São recorrentes lesões nos ombros e pulsos dos trabalhadores causadas pelo movimento repetitivo de servir as guarnições, exigindo de trabalhadores cirurgias ortopédicas por esforço repetitivo, trabalho com laudo ou o desligamento e o desemprego.
Carta aberta e paralisação na Pompeia
Recentemente, o Coletivo de Trabalhadoras e Trabalhadores do SESC publicou uma carta aberta que circulou entre os funcionários. Reproduzimos alguns trechos:
"Enquanto o SESC promove bem-estar para milhares de comerciários, seus próprios trabalhadores da alimentação vivem um pesadelo diário. Nós, que servimos refeições e garantimos o funcionamento das unidades, somos os mais explorados e esquecidos desta instituição."
"Trabalhamos sob escalas desumanas: folga aos domingos apenas no sétimo, quando a lei determina pelo menos uma folga dominical mensal. Passamos semanas sem ver nossa família reunida, sem participar de momentos importantes, sem descansar adequadamente. O cansaço acumula, o corpo adoece, a mente não aguenta mais."
"Vivemos sob vigilância constante: cada movimento é monitorado, cada minuto é cronometrado, cada decisão é questionada. Não temos liberdade para trabalhar, apenas a pressão de sermos vigiados como se fôssemos criminosos."
"Sofremos assédio moral todos os dias: gritos, humilhações, desrespeito, pressão psicológica. Nossos superiores nos tratam como descartáveis. Muitos colegas já adoeceram, desenvolveram depressão, tiveram crises de ansiedade. Outros desistiram e pediram demissão, não porque queriam, mas porque não suportavam mais o sofrimento."
A carta foi elaborada depois que um funcionário recém-desligado da instituição enviou um e-mail que circulou para todos os empregados do SESC, relatando a situação da categoria. Em resposta, os funcionários da unidade Pompeia paralisaram e exigiram reunião com a administração. Segundo as fontes anônimas, a posição da chefia foi de reafirmar as atitudes da empresa, convidando os funcionários insatisfeitos à buscarem outro emprego.
Uma carta aberta dirigida aos coordenadores, gerência e diretoras do SESC Pompeia na época detalha a situação no local:
"Por favor, olhem para os funcionários da alimentação. Estamos extremamente exaustos, inclusive uma pessoa está quase tendo burnout. Antes fazíamos hora extra para folgar um final de semana sim e outro não, e isso nos foi tirado, mas as horas extras continuam sendo realizadas. Pra quê? Já que não folgamos mais, tirem o excesso de horas."
"O quadro está com menos 15 pessoas, e os que vão trabalhar precisam fazer o trabalho de quatro pessoas. Isso é desumano para uma instituição que prega qualidade de vida, mas por dentro está podre, funcionários adoecendo."
"A gota d'água é que a última reunião realizada pela coordenadora foi com tom agressivo e ríspido, dizendo que se trouxer atestado nem o domingo que temos a cada duas semanas teríamos, sendo que atestado é apenas consequência de estarmos no limite. Não somos máquinas."
"Antes fazíamos uma pausa de dez minutos para um café em uma sala, e o café mudou para a sala das nutricionistas para nos intimidar ainda mais. Lamentável."
"Restaurante, container, bar café, choperia, bar do fundo, para atender deck lotado, teatro lotado, comedoria lotada com menos 15 funcionários? Só pra fazer bonito para o público e diretores? Hipocrisia! Ninguém tem atestado médico por que quer!"
Nesse contexto, os funcionários e frequentadores do SESC receberam estarrecidos a notícia de que um funcionário da unidade Pompeia havia se suicidado dentro da unidade, que cancelou suas atividades por dois dias alegando motivos técnicos. O motivo verdadeiro só veio à tona por meio dos funcionários e da mídia. A tragédia gerou uma carta do Coletivo de Trabalhadoras e Trabalhadores do SESC, denunciando a exploração e assédio moral, assim como a sobrecarga, as quais os funcionários como um todo estão submetidos. Os trabalhadores denunciantes leram estarrecidos o que o Diretor Regional Luiz Galina declarou à Carta Capital e à Veja:
“Questionado sobre as ferramentas disponíveis para que os funcionários possam denunciar possíveis casos de abuso e assédio, o diretor afirmou que há uma ouvidoria interna para os casos, e que as tratativas prezam pelo sigilo das vítimas e relatos. Garantiu, ainda, que quando os casos são comprovados, os funcionários são desligados do quadro”.
Os trabalhadores afirmam que os quadros altos da administração muito raramente são demitidos, sendo a prática comum trocar o administrador da unidade em que o problema está ocorrendo ou promovê-lo.
Os casos recorrentes de assédio moral nas cozinhas do SESC põem em cheque a afirmação do diretor de que “cargos gerenciais, de coordenação e supervisão também são treinados para acolher as demandas de saúde dos funcionários”. Das denúncias que recebemos, essa afirmação não condiz com a realidade. “Estas são as últimas pessoas às quais podemos recorrer”, afirmou um funcionário.
Os trabalhadores com os quais temos contato consideraram as declarações do diretor tanto na Carta Capital quanto na Veja um desrespeito em relação à morte do funcionário e à exploração que todos sofrem. Além disso, os comentários em posts no Instagram feitos por ex-funcionários revelam o duro cenário de exploração e assédio moral que já ocorre há anos.
Além disso, exige-se maior capacidade de atuação no Coletivo de Trabalhadoras e Trabalhadores do SESC, hoje sem abertura ampla para participação de todos os empregados. Os trabalhadores apontam a necessidade de reverter esse quadro, permitindo maior atuação e mobilização direta nas unidades. Dessa forma, os funcionários poderão se fortalecer coletivamente, reduzindo a dependência de relações bilaterais entre representantes do coletivo e a direção.
Reproduzimos o formulário de denúncias e asseguramos total anonimato àqueles e àquelas que desejarem expor suas condições de trabalho: envie sua denúncia clicando aqui.