Trabalho infantil é realidade no Carnaval

Por trás da celebração popular, que ocupa um lugar central na identidade cultural brasileira e mobiliza milhões de pessoas todos os anos, persistem desigualdades profundas que não podem ser ignoradas.

13 de Fevereiro de 2026 às 15h00

Reprodução/Foto: Débora Klempous/Criança Livre do Trabalho Infantil.

O Brasil é mundialmente conhecido pela exuberância do Carnaval, demarcado enquanto momento de alegria, cultura e identidade nacional. Contudo, longe dos holofotes, a maior festa do país acontece sob a precarização do trabalho - e, em muitos casos, pela exploração da mão de obra infantil. Durante os circuitos carnavalescos, é um cenário bastante comum encontrar crianças vendendo bebidas, alimentos ou até mesmo auxiliando a puxar as cordas dos blocos. Enquanto aqueles que lucram se divertem com o espetáculo, crianças e adolescentes seguem com trabalho excessivo, impondo-lhes um ritmo antecipado de desgaste do corpo e da vida.

Essas atividades acontecem de forma naturalizada, sob um discurso de que esse tipo de ocupação é a melhor saída para crianças pobres, em sua grande maioria, negras. O discurso "melhor trabalhar do que roubar" surge como forma de ocultar a violência do Estado sobre a infância e mascara a lógica capitalista que lança mão de obra sem qualquer diferenciação entre idade ou sexo. Os filhos e filhas da classe trabalhadora são expostos à precarização, onde se tornam unicamente instrumento funcional do processo produtivo, desprovidos da sua dimensão humana e social, que em um processo de subordinação da vida de crianças e adolescentes às exigências do capital, transforma cada membro das famílias operárias em vendedor da sua força de trabalho. 

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – Trabalho de Crianças e Adolescentes, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esboça-se que a jornada semanal de pessoas em trabalho infantil aumenta conforme a idade, e, para a faixa entre 16 e 17 anos, 49,2% trabalhavam pelo menos 25 horas, enquanto 30,3% trabalhavam 40 horas, podendo chegar a mais. No Carnaval essa lógica se intensifica com a promessa de uma renda imediata.  A informalidade generalizada cresce e permite reduzir custos com jornadas excessivas e a incorporação do trabalho infantil, sem garantia de direitos ou proteção.

Em 2025 mais de 300 trabalhadores foram resgatados de trabalho análogo à escravidão em Salvador e em 2023 houve flagrante de trabalhadores sendo escravizados no festival Lollapalooza em São Paulo. Empresas como a Time 4 Fun e a Ambev se beneficiam da exploração dessas pessoas e, apesar de terem sido notificadas, seguem lucrando nos espaços das festas populares. O investimento anual milionário que Ambev faz nos blocos de carnaval se explica pela exclusividade que a empresa tem na venda de bebidas, garantida pela “parceria” que faz com as prefeituras.

Em consonância, o Estado atua de forma ambígua, sem intervir diretamente nas superestruturas de exploração do trabalho infantil, prevalecendo as ações pontuais, fiscalizações esporádicas, ou uma política repressiva que culpabiliza as famílias pobres por meio da assistência social ao invés de enfrentar as causas do problema.

Sem qualquer consideração pela saúde, lazer e educação das crianças e adolescentes, o trabalho infantil é a reprodução da desigualdade social. É imprescindível romper com a tradição enraizada de estratégia de sobrevivência sustentada às custas da exploração infantil. Quando o brilho do Carnaval passa, a exploração permanece, e para além do momento de celebração, este também é o espaço de conscientização e crítica radical sobre o modelo de sociedade que transforma a vida em mercadoria.

O Carnaval ocupa um lugar central na identidade cultural brasileira e mobiliza milhões de pessoas todos os anos. No entanto, por trás da celebração popular, persistem desigualdades profundas que não podem ser ignoradas. Ambulantes que garantem o funcionamento da festa trabalham, em muitos casos, sob jornadas exaustivas, sem garantias mínimas de direitos ou segurança. Essa realidade atinge de maneira mais dura a juventude e a população negra, evidenciando como a informalidade do trabalho dificulta a organização coletiva e alimenta estruturas contínuas de exploração.