Paraguai assina acordo militar com EUA e expõe o avanço imperialista na América Latina e no Caribe
O Paraguai deu um passo decisivo rumo ao aprofundamento da dependência política e militar em relação aos EUA ao assinar um acordo que permite a presença direta de militares estadunidenses em seu território

Reprodução/Foto: Jim Watson/AFP
Por João Oliveira
O governo do Paraguai deu um passo decisivo rumo ao aprofundamento da dependência política e militar em relação aos Estados Unidos ao aprovar e assinar um acordo que permite a presença direta de militares estadunidenses em seu território, que faz fronteira com o Brasil. O pacto, conhecido como Status of Forces Agreement (SOFA), foi ratificado pelo Congresso paraguaio em março de 2026 e representa um marco da retomada da influência estratégica de Washington na América Latina e no Caribe.
Mais do que um acordo técnico de cooperação militar, o tratado expressa uma reorganização da estratégia imperialista estadunidense na região, num momento de agravamento das contradições do capitalismo mundial e da disputa entre grandes potências pela hegemonia econômica, política e militar.
O que prevê o acordo Paraguai–EUA
O tratado estabelece um marco jurídico permanente para a atuação das forças militares e civis dos Estados Unidos dentro do Paraguai. Entre os principais pontos estão a autorização para presença de tropas estadunidenses, a realização de treinamentos militares conjuntos e exercícios multinacionais, a cooperação logística e transferência de equipamentos militares, a facilitação da entrada de tecnologia bélica norte-americana e a concessão de imunidade jurídica semelhante à diplomática aos militares dos EUA.
Na prática, o acordo cria as condições legais para operações militares estrangeiras sem plena submissão ao sistema judicial paraguaio, limitando a soberania nacional e ampliando a capacidade de projeção militar dos Estados Unidos na região da Tríplice Fronteira.
América Latina e Caribe sob ofensiva imperialista
O SOFA não é um acordo isolado. Ele deve ser compreendido dentro da dinâmica do capitalismo em sua etapa monopolista - o imperialismo - marcada pela exportação de capitais, disputa por mercados, controle de recursos estratégicos e militarização crescente das relações internacionais.
Diante da crise estrutural do capitalismo e do declínio relativo de sua hegemonia global, os Estados Unidos intensificam esforços para reafirmar o controle histórico sobre a América Latina e o Caribe, região considerada estratégica desde a Doutrina Monroe.
Nos primeiros meses de 2026, essa ofensiva se expressou em múltiplas frentes, como o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em operação internacional articulada por interesses imperialistas, o endurecimento do bloqueio econômico contra Cuba, o fortalecimento de acordos militares bilaterais e a ampliação da cooperação securitária sob o pretexto de combate ao crime organizado.
A militarização regional acompanha a intensificação da disputa interimperialista entre Estados Unidos e China, que expandem investimentos, acordos tecnológicos e influência política no continente. A América Latina e o Caribe voltam, assim, ao centro das rivalidades globais, não como sujeitos soberanos, mas como território estratégico na competição entre capitais monopolistas.
Paraguai, Taiwan e a disputa geopolítica global
O papel do Paraguai ganha relevância adicional por ser o único país da América Latina que mantém relações diplomáticas oficiais com Taiwan. Essa posição o transforma em peça estratégica na disputa entre Estados Unidos e China.
Ao fortalecer laços militares com Washington, o governo paraguaio reforça simultaneamente o eixo político Paraguai–EUA–Taiwan, funcionando como ponto de contenção à expansão chinesa na região. O SOFA pode, portanto, contribuir para consolidar uma aliança político-militar alinhada aos interesses estadunidenses no Indo-Pacífico e na América Latina e Caribe.
Assim, o território paraguaio deixa de ser apenas um espaço nacional e passa a integrar uma arquitetura geopolítica global voltada à contenção de rivais econômicos e estratégicos dos Estados Unidos.
Soberania, dependência histórica e impactos para a classe trabalhadora
A assinatura do acordo reproduz padrões históricos de inserção subordinada da América Latina e do Caribe à política externa estadunidense. Desde o século XX, golpes militares, bases estrangeiras, programas de treinamento e intervenções diretas foram utilizados para garantir governos alinhados aos interesses do capital internacional.
Esses processos tiveram consequências recorrentes, como a repressão a movimentos populares e sindicatos, a militarização interna sob o discurso da segurança, o aprofundamento da dependência tecnológica e econômica, a realização de privatizações e abertura forçada de mercados nacionais e a transferência de riqueza para o capital estrangeiro.
Os riscos concretos do SOFA incluem a utilização do território paraguaio como plataforma militar em conflitos internacionais, o aumento da vigilância e repressão interna, a pressão política sobre países vizinhos e a possibilidade de envolvimento indireto em guerras interimperialistas.
Historicamente, nesses conflitos, a classe trabalhadora é convertida em força sacrificável, seja como soldados enviados à guerra, seja através do aumento da exploração econômica para financiar gastos militares e garantir os lucros da burguesia internacional.
O “modelo paraguaio”, a extrema-direita e a conciliação brasileira
O acordo também reacende o debate político no Brasil. Setores da extrema-direita defendem abertamente o alinhamento automático ao imperialismo estadunidense, tomando experiências semelhantes como modelo estratégico regional.
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), avançaram propostas de integração militar ampliada com os Estados Unidos, incluindo cooperação estratégica e abertura de estruturas nacionais a interesses estrangeiros.
Entretanto, a submissão não se limita à extrema-direita. O governo Lula-Alckmin mantém uma política de conciliação que preserva vínculos estruturais tanto com o bloco EUA-UE-Israel quanto com o bloco China-Rússia, sem romper com a lógica capitalista que sustenta as disputas globais.
Exemplos dessa postura incluem os treinamentos militares conjuntos dos EUA na Caatinga brasileira, a manutenção da utilização da Base de Alcântara por interesses estrangeiros, a ausência de solidariedade ativa a Cuba diante do bloqueio econômico e a atuação diplomática limitada a resoluções institucionais da Organização das Nações Unidas (ONU), incapazes de conter agressões imperialistas como o genocídio em Gaza.
A social-democracia brasileira, ao buscar equilibrar interesses concorrentes sem romper com o capitalismo dependente, acaba administrando - e não enfrentando - o avanço imperialista na América Latina e no Caribe.
América Latina e Caribe diante de uma encruzilhada histórica
A assinatura do SOFA pelo Paraguai evidencia que o continente permanece inserido na disputa global entre potências imperialistas. A questão colocada não é simplesmente se haverá maior ou menor soberania formal, mas se a América Latina e o Caribe continuarão alternando formas mais diretas ou indiretas de integração subordinada ao imperialismo ou se conseguirão romper as cadeias do capital e reorganizar-se como um conjunto de sociedades socialistas capazes de exercer a verdadeira autodeterminação histórica.