EUA enviam porta-aviões para exercícios navais no Brasil e aprofundam submissão militar do país

A defesa nacional exige a ruptura com a lógica de subordinação imperialista e a construção de um projeto estratégico próprio.

16 de Abril de 2026 às 21h00

Reprodução/Foto: John Philip Wagner/United States Navy/Wikimedia Commons.

Por João Oliveira

A presença de um porta-aviões dos Estados Unidos em águas brasileiras para a realização de exercícios navais conjuntos com a Marinha do Brasil expõe, mais uma vez, a ausência de uma política real de defesa nacional no país. Em meio a uma conjuntura internacional marcada pelo acirramento das disputas interimperialistas e pela reorganização militar das grandes potências, o governo brasileiro opta por aprofundar sua integração subordinada à estratégia militar do imperialismo estadunidense.

Os exercícios militares, apresentados oficialmente como cooperação técnica e intercâmbio operacional, representam, na prática, a consolidação da doutrina de dependência estratégica das Forças Armadas brasileiras em relação ao aparato militar estadunidense.

Subordinação militar e ausência de soberania

Historicamente, as Forças Armadas brasileiras foram estruturadas sob forte influência dos EUA, especialmente após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria. Essa relação nunca foi plenamente superada. Ao contrário, consolidou-se uma cultura institucional baseada na importação de doutrina, treinamento e alinhamento político-militar aos interesses estratégicos de Washington.

A realização de exercícios com um porta-aviões - símbolo máximo do poder militar imperialista - não representa o fortalecimento da defesa nacional. Representa o contrário: a reafirmação do papel do Brasil como área de influência militar estrangeira.

Enquanto potências centrais da cadeia imperialista reorganizam seus complexos industriais de defesa e afirmam sua autonomia estratégica, o Brasil permanece sem projeto próprio de defesa, sem indústria militar soberana plenamente integrada e sem uma doutrina voltada à proteção independente de seu território, seus recursos naturais e sua população.

Forças Armadas e dominação de classe

Do ponto de vista político, a questão militar brasileira permanece atravessada por um problema estrutural: as Forças Armadas atuam historicamente como instrumento de dominação de classe interna e de garantia da ordem social capitalista dependente, e não como um instrumento de soberania popular.

A lógica predominante não é a defesa nacional, mas a manutenção da estabilidade necessária ao modelo econômico subordinado ao capital internacional. A cooperação militar com os EUA reforça essa função: formar quadros militares alinhados à geopolítica imperialista e afastados de qualquer concepção de defesa baseada nos interesses do povo trabalhador brasileiro.

Um Ministro da Defesa alinhado aos militares

Nesse cenário, causa indignação que o Ministério da Defesa esteja sob o comando de José Múcio Monteiro, figura identificada com a tutela militar sobre a política nacional e marcada por posições conciliadoras com setores golpistas das Forças Armadas.

Em um momento histórico de tensões globais, expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), guerras regionais e disputa aberta por recursos estratégicos, o Brasil deveria discutir soberania, autonomia tecnológica e defesa popular. Em vez disso, mantém uma condução política que legitima a presença militar estrangeira em território nacional.

O avanço do imperialismo no território brasileiro

A presença de meios militares estadunidenses em exercícios no país não pode ser analisada como um evento isolado. Trata-se de parte de uma estratégia mais ampla de controle geopolítico da América Latina, região central na disputa por alimentos, energia, biodiversidade e minerais estratégicos.

A cooperação militar desigual abre espaço para o compartilhamento assimétrico de informações estratégicas, a padronização doutrinária subordinada, a dependência tecnológica e operacional e a influência política direta sobre a estrutura militar brasileira.

Sob o discurso da “parceria”, consolida-se a perda progressiva de autonomia.

A urgência de uma formação anti-imperialista

Diante desse quadro, torna-se urgente recolocar no centro do debate nacional a questão militar sob uma perspectiva crítica e anti-imperialista. A soberania não se constrói com exercícios conduzidos por potências estrangeiras, mas com independência política, científica e militar.

Entre as tarefas políticas imediatas colocadas para os setores comprometidos com o povo trabalhador brasileiro estão a denúncia e negação da presença militar dos EUA no Brasil, o impulsionamento do debate público sobre defesa nacional sob uma perspectiva marxista, a luta pela expulsão de todas as bases militares vinculadas aos países do centro do capitalismo - especialmente o bloco EUA-União Europeia - do território brasileiro, a proibição de treinamentos militares estrangeiros em zonas estratégicas nacionais e a construção de uma doutrina de defesa nacional baseada na soberania popular, no controle democrático das Forças Armadas e na independência nacional.

Soberania não se terceiriza

A história demonstra que países dependentes militarmente jamais alcançam a soberania plena. A defesa nacional exige a ruptura com a lógica de subordinação imperialista e a construção de um projeto estratégico próprio.

Mais do que um exercício naval, o envio de um porta-aviões estadunidense às águas brasileiras revela o tamanho do desafio político colocado ao país: decidir se continuará sendo área de influência militar estrangeira ou se avançará rumo a uma verdadeira independência nacional.