Fazenda Santa Fé: disputa por área pública expõe avanço do latifúndio no Noroeste do Paraná

Cerca de 250 famílias ligadas à Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) e ao Movimento Terra e Alimento (MTA) ocuparam, em dezembro de 2025, a Fazenda Santa Fé, em Xambrê (PR), para denunciar o que consideram um desvio da função social de uma área originalmente destinada a atividades religiosas e assistenciais.

12 de Junho de 2026 às 15h00

Assembleia da FNL/MTA em Xambrê, no Noroeste do Paraná. Foto: Jornal O Futuro.

Por Michel Gomes

Cerca de 250 famílias organizadas pela FNL e pelo MTA ocuparam, no dia 27 de dezembro de 2025, a Fazenda Santa Fé, em Xambrê (PR), para denunciar o desvio de finalidade de uma área de origem pública que hoje serve ao lucro privado. A ação visava reverter o processo de acumulação por espoliação em uma terra que, originalmente, deveria cumprir uma função social e de acolhimento.

Essa denúncia baseia-se em uma transformação gradual que desfigurou o uso da área ao longo das últimas décadas. A trajetória da Fazenda Santa Fé revela como o Estado cedeu terra pública para uma associação que, com o tempo, assumiu a lógica de um empreendimento privado voltado ao lucro.

No início, na década de 50, o Estado destinou a área via concessão ao reverendo estadunidense George Hartley Pidcoke e aos missionários Maurício e Verna Sand. O propósito era construir um espaço de acolhimento, formação e preservação ambiental nos 942 hectares da fazenda. Durante esse período, a presença missionária dava um certo sentido à ocupação, pois havia atividade religiosa, assistência social e uma perspectiva de uso comum da terra. A capela construída no local, onde hoje estão enterrados os missionários, simboliza esse momento inicial, em que a terra cumpria uma função social concreta.

A ruptura dessa lógica, no entanto, começa a se desdobrar a partir de 1975, com a histórica geada negra que devastou a produção agrícola na região do Paraná. Diante do ocorrido, alguns dos missionários retornam aos Estados Unidos. A terra permanece, mas o projeto que lhe dava sentido começa a se esvaziar. Sem a presença direta dos idealizadores, a gestão passa para administradores locais. É nesse ponto que se inicia um processo gradual de transformação, aquilo que era uma terra vinculada a um projeto coletivo começa, aos poucos, a ser tratada como propriedade privada. Relatos indicam que, nesse período, herdeiros e filhos adotivos ligados ao reverendo foram afastados da associação. Ao mesmo tempo, consolida-se uma lógica de sucessão interna entre administradores, de pai para filho, como se a terra pudesse ser transmitida, mesmo estando vinculada a uma associação e tendo origem pública.

Ao longo dos anos, as atividades religiosas se tornam cada vez mais raras, até praticamente desaparecerem. A igreja construída ali permanece de pé, mas sem pastor. Donizete Evangelista, acampado há três anos na região e responsável pelas celebrações religiosas no acampamento Nelson Mandela, afirma que a igreja da fazenda, ligada à denominação Betânia, está abandonada: “Nunca vi movimentação ali. Nem as igrejas da Betânia da região fazem cultos lá. Já consegui a chave uma vez, mas depois nunca mais. Hoje não tem missa, não tem nada.”. Segundo ele, além do abandono, há episódios de tensão com famílias da área: “Teve caso de criança que entrou pra pegar manga e foi agredida. A liderança do acampamento teve que intervir.”

Aos poucos, os administradores vendem ou cedem pedaços de terras para usucapião há terceiros sem fim de reforma agrária. O projeto social deixa de existir na prática, em seu lugar, cresce uma atividade econômica cada vez mais estruturada: a pecuária. Não se trata de uma mudança imediata, mas de uma substituição progressiva. Primeiro salientam ser uma atividade complementar para ajudar nas atividades sociais realizadas pela associação, depois acaba se tornando predominante, até que, por fim, se torna a única razão de existência da área e associação.

Identificação da associação de caráter religioso Colaboradores do Brasil. Foto: Jornal O Futuro.

Hoje, a fazenda abriga mais de 2 mil cabeças de gado de corte. A terra que já foi pensada como espaço de acolhimento e preservação está plenamente integrada à lógica do agronegócio. A função social desaparece, e, em seu lugar, finalmente se consolida a lógica do lucro. Esse processo gradual é justamente o que caracteriza a força do latifúndio no Brasil, ele não precisa tomar tudo de uma vez, avança aos poucos, ocupando espaços, ressignificando usos, apagando memórias e se apresentando como algo natural.

A estrutura jurídica acompanha esse movimento. Sob a gestão da Associação Colaboradores do Brasil (Colab), a área passa a ser defendida como propriedade regularizada, inclusive com alegações de usucapião e aquisição junto ao Incra. Além de ter sido desviada de sua função social original, a associação goza de imunidades fiscais, arrendando pasto para frigoríficos e realizando no imóvel três desmembramentos recentes, totalizando quase 500 hectares vendidos a terceiros, o que reforça a tese de que a missão tornou-se também um balcão de negócios. A denúncia que agora pesa sobre a Colab é que o lucro dessa exploração, em vez de amparar os pobres e órfãos como previa o estatuto, teria sido desviado para o enriquecimento particular dos gestores, tendo suspeita de até financiar a compra de fazendas no Mato Grosso do Sul e a manutenção de Haras.

Em meio a essa contradição, em 27 de dezembro de 2025, foi realizada uma ocupação da área por famílias organizadas pela Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) e pelo Movimento Terra e Alimento (MTA). O acampamento reuniu cerca de 250 pessoas, incluindo famílias que já viviam há mais de uma década na região, no chamado acampamento Nelson Mandela. Para essas famílias, a terra representa sobrevivência, e a possibilidade de reverter um processo histórico de exclusão. A resposta do Estado, no entanto, seguiu outro ritmo, rápido e contundente. Em janeiro de 2026, uma decisão liminar do Tribunal de Justiça do Paraná determinou a reintegração de posse. A desocupação ocorreu sem que fossem plenamente observadas diretrizes como a ADPF 828 e a Resolução 510/2023 do CNJ, que preveem mediação e reassentamento digno em conflitos coletivos.

Acampamento Nelson Mandela aos fundos da Fazenda Santa Fé. Reprodução/Foto: Luciano Egidio Piltz Palagano / @lepalagano.

Durante a ocupação, drones da fazenda monitoravam os barracos, boletins de ocorrência eram registrados por ambos os lados e a pressão constante reforçava o cerco sobre as famílias. Após a reintegração de posse, além da perda do espaço, ficou o estigma, que dificulta o acesso dos acampados ao trabalho na região, servindo como motivo para não empregarem essas famílias por serem sem terras.

Para quem vive na região, o conflito não se resume à disputa pela terra, mas às condições concretas de sobrevivência. Ruth Aparecida, 58 anos, acampada há mais de uma década, relata dificuldades constantes: “A gente já tentou plantar horta, beringelas, maxixes e outras verduras, mas tudo morreu por causa do veneno das plantações de soja aqui perto.”. Ela também aponta o isolamento da comunidade: “É difícil até para o agente de saúde chegar. O acesso é ruim, tem cerca elétrica, tem cobra.” Ruth lembra ainda de episódios que considera suspeitos: “Já teve incêndios, inclusive um recente perto da Páscoa. E direto passam carros filmando.” A relação com a terra, segundo ela, é antiga: “Meu avô já viveu aqui, mas teve que ir embora por falta de condições.”

Atualmente, o acampamento reúne mais de 800 famílias cadastradas. Muitas vivem em barracos improvisados à beira da estrada, aguardando uma definição para o conflito. Entre as perspectivas para a área está a criação de uma agrovila, com produção agrícola organizada e comercialização em feiras da região, uma alternativa apontada pelas famílias como caminho para garantir renda e condições mínimas de dignidade.

Acampamento Nelson Mandela, Xambrê, no Noroeste do Paraná. Foto: Jornal O Futuro.

A história da Fazenda Santa Fé revela, portanto, mais do que um conflito local, expõe um mecanismo recorrente, a transformação lenta de terras com função social em ativos privados, mediada por ausência de controle público, fragilidade institucional, violência e avanço da lógica do lucro. Uma forma de transformar bens coletivos em ativos privados por meio da acumulação por espoliação. Não foi de um dia para o outro que o altar virou pasto.