A crise de legitimidade do capitalismo estadunidense e os limites da ordem imperial

A crescente descrença dos estadunidenses no capitalismo, na mobilidade social e nas instituições burguesas revela uma profunda crise de hegemonia da ordem imperial dos Estados Unidos

19 de Agosto de 2026 às 20h00
Vista aérea da Times Square, em Nova York, tomada por uma grande multidão de manifestantes com cartazes, cercada por prédios e painéis publicitários.

Milhares de manifestantes lotam a Times Square durante um protesto “No Kings” (“Sem Reis”), no sábado, 18 de outubro de 2025, em Nova York. Olga Fedorova — Associated Press

Por João Oliveira

Durante décadas, com destaque após o fim da Segunda Guerra Mundial, a imagem dos Estados Unidos esteve associada à promessa do chamado “sonho americano”, caracterizado pela ideia de que o esforço individual - a chamada meritocracia - seria suficiente para garantir prosperidade, ascensão social e estabilidade. Essa narrativa não foi apenas um elemento da cultura nacional estadunidense, mas um dos pilares ideológicos da hegemonia dos Estados Unidos no mundo, utilizada para apresentar o capitalismo como o horizonte inevitável da humanidade. Essa ideia pode ser representada na expressão “fim da história”, cunhada pelo economista nipo-estadunidense Francis Fukuyama, onde ele argumentava que a evolução ideológica da humanidade havia culminado na democracia burguesa após o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, sugerindo que a história, entendida como uma luta entre classes antagônicas, havia chegado ao fim.

Entretanto, os resultados de uma pesquisa realizada pelo Wall Street Journal em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa de Opinião (NORC) da Universidade de Chicago, divulgada em julho de 2026, indicam que essa construção ideológica atravessa uma das maiores crises de sua história recente. Os números revelam não apenas um aumento da insatisfação econômica, mas uma deterioração da confiança nas instituições burguesas, na mobilidade social e até mesmo no patriotismo - elementos que, durante décadas, sustentaram a legitimidade do capitalismo estadunidense. 

Mais do que uma simples mudança de opinião pública, esses dados apontam para um processo que pode ser compreendido à luz do conceito de crise de hegemonia, formulado pelo comunista italiano Antonio Gramsci. 

Para ele, uma classe dominante não governa apenas por meio da força do Estado, mas principalmente porque consegue apresentar seus interesses particulares como se fossem interesses de toda a sociedade. Essa direção política e moral constitui aquilo que chamou de hegemonia.

Uma crise de hegemonia ocorre quando essa capacidade de convencimento - ou consenso - começa a desaparecer. As massas deixam de acreditar que o sistema existente seja capaz de oferecer respostas aos seus problemas, ainda que não tenham encontrado uma alternativa política organizada. 

É precisamente esse fenômeno que parece emergir com maior intensidade nos Estados Unidos. 

Segundo a pesquisa, 51% dos entrevistados afirmam que o capitalismo não funciona bem, contra 37% em 2015, o que representa um aumento de 14% de insatisfação em apenas alguns anos. Pela primeira vez em décadas, a desaprovação supera a aprovação do sistema econômico capitalista. Ao mesmo tempo, apenas 35% acreditam que o trabalho duro ainda é suficiente para conquistar uma vida melhor, enquanto em 2012 essa confiança alcançava 53%, representando uma queda de 18% em pouco mais de uma década.

Não se trata apenas de um pessimismo conjuntural provocado pela inflação, pelos altos custos de moradia ou pela precarização do trabalho, apesar de serem elementos importantes para qualquer análise sobre a realidade estadunidense. O que aparece é uma ruptura crescente entre a promessa ideológica do capitalismo e a experiência concreta da classe trabalhadora dos Estados Unidos. 

Durante muito tempo, a ascensão individual funcionou como um mecanismo de integração social naquela sociedade. Hoje, essa promessa parece cada vez menos crível para amplos setores da classe trabalhadora estadunidense, especialmente entre a juventude, que enfrenta salários estagnados, endividamento estudantil, dificuldades para adquirir moradia própria e uma crescente insegurança econômica. 

Contudo, vale destacar que a crise não se restringe às condições econômicas do país. 

Outro dado particularmente expressivo do levantamento mostra que apenas 12% dos entrevistados acreditam que a democracia burguesa estadunidense funciona muito bem. Isso nos apresenta um cenário em que a quase totalidade da sociedade dos Estados Unidos - 88% - se mostra insatisfeita com o regime político do país. Além disso, aproximadamente três quartos da população consideram que grandes corporações e bilionários exercem uma influência excessiva sobre o Estado. 

O aspecto mais relevante desse resultado talvez seja sua transversalidade. O sentimento de que o sistema político favorece os interesses de grandes setores econômicos não está concentrado apenas entre democratas, republicanos ou independentes, mas atravessa praticamente todo o espectro político estadunidense. 

Isso evidencia um paradoxo histórico. Os Estados Unidos sempre procuraram apresentar sua democracia burguesa como um modelo universal. Entretanto, internamente cresce a percepção de que as decisões fundamentais do Estado - que, para nós marxistas, possui um caráter essencialmente burguês - respondem prioritariamente aos interesses do grande capital estadunidense. 

Em outras palavras, a legitimidade das instituições burguesas sofre um desgaste que já não pode ser explicado apenas pela histórica polarização entre Partido Democrata e Partido Republicano. 

Outro indicador significativo é a queda do patriotismo. 

Segundo a pesquisa, apenas cerca de 35% dos entrevistados afirmam considerar o patriotismo muito importante em suas vidas, uma queda acentuada em relação aos índices registrados há poucos anos. Em um país como os Estados Unidos, onde o patriotismo historicamente constitui um dos pilares da identidade nacional, o fato de aproximadamente 65% da população não lhe atribuir grande importância revela uma mudança profunda e um sinal preocupante de desgaste dos valores que tradicionalmente sustentaram a coesão social e política do país. 

Ademais, o patriotismo não apenas serviu para fortalecer a identidade nacional, mas também para justificar guerras, intervenções militares e a expansão do poder imperial estadunidense sob o discurso da defesa da liberdade e da democracia. 

Quando a própria população passa a demonstrar uma menor identificação com esse imaginário nacional, abre-se uma fissura importante na capacidade ideológica do Estado burguês de mobilizar consensos. 

Isso, vale destacarmos, não significa o desaparecimento do nacionalismo reacionário ou da política externa agressiva dos Estados Unidos. Significa, entretanto, que os mecanismos tradicionais de legitimação enfrentam dificuldades crescentes em seu próprio país. 

Do ponto de vista marxista, os dados sugerem que existem condições objetivas favoráveis ao questionamento da ordem capitalista nos Estados Unidos. A perda de confiança no capitalismo, o descrédito das instituições burguesas, a deterioração das expectativas de mobilidade social e a crescente percepção de que o Estado atua em benefício das grandes corporações constituem sintomas de uma crise estrutural da hegemonia burguesa. 

Entretanto, como demonstra a própria história do movimento operário, crises objetivas não produzem automaticamente alternativas revolucionárias. 

A construção de um movimento capaz de disputar o poder político depende também das condições subjetivas, como a organização, a direção política, a unidade de classe e a capacidade de formular um projeto alternativo no país.

Nos Estados Unidos, esse desafio assume características particulares.

Durante décadas, parcelas importantes do chamado “campo de esquerda estadunidense” permaneceram presas a perspectivas reformistas ou ao chamado social-imperialismo, isto é, à defesa de políticas sociais internas sem romper com o papel imperial desempenhado pelo Estado estadunidense na exploração e opressão dos povos do Sul Global. 

Ao mesmo tempo, a fragmentação da classe trabalhadora, estimulada por décadas de ofensiva neoliberal, pela precarização do trabalho, pelas divisões raciais e regionais e pelo enfraquecimento do movimento sindical, dificulta a construção de um projeto político de alcance nacional. 

Isso não significa minimizar a importância das lutas contra o racismo, a opressão de gênero ou a xenofobia. Pelo contrário, o desafio colocado para as forças revolucionárias estadunidenses consiste justamente em articular essas pautas à luta de classes, construindo uma unidade política de toda a classe trabalhadora do país capaz de enfrentar simultaneamente as mais diversas formas de exploração e opressão produzidas pelo capitalismo. 

Os dados do Wall Street Journal revelam um fenômeno que ultrapassa o humor momentâneo do eleitorado. 

Quando a maioria da população deixa de acreditar no capitalismo, quando o “sonho americano” perde credibilidade, quando a confiança nas instituições burguesas atinge níveis historicamente baixos e quando até o patriotismo sofre uma retração significativa, torna-se evidente que a hegemonia construída ao longo do século XX enfrenta um processo profundo de desgaste. 

Ainda não se pode afirmar que esse processo conduzirá automaticamente ao fortalecimento de alternativas revolucionárias. A história demonstra que crises de hegemonia podem produzir tanto avanços populares quanto respostas reacionárias, dependendo da capacidade das forças políticas em disputa de organizar o descontentamento social. 

O que parece cada vez mais evidente, contudo, é que o consenso que sustentou a liderança ideológica do capitalismo estadunidense já não possui a mesma solidez de outrora. A classe dominante - no capitalismo, a burguesia - continua detendo os principais instrumentos econômicos, políticos e militares do país, mas enfrenta dificuldades crescentes para convencer amplos setores da população de que sua ordem social representa um futuro desejável.

Em termos gramscianos, trata-se de um momento em que “o velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros”. O desfecho dessa crise dependerá menos da intensidade do descontentamento popular - já nitidamente demonstrado pelas pesquisas - do que da capacidade das organizações da classe trabalhadora estadunidense de transformar esse mal-estar difuso em uma força política organizada.