Parque em Gramado (RS) continua funcionando mesmo após morte de trabalhador
Snowland abre para funcionamento no dia seguinte ao acidente brutal de um trabalhador.

Parque Snowland, em Gramado. Foto: Eduardo Machado/O Futuro.
ALERTA DE CONTEÚDO SENSÍVEL
A reportagem a seguir contém relatos e descrições de acidente de trabalho fatal, incluindo referências a lesões graves, sofrimento de trabalhadores e possíveis violações de direitos trabalhistas. Recomenda-se cautela na leitura, especialmente para pessoas sensíveis a temas relacionados à violência laboral, acidentes graves e morte.
No dia 10 de junho de 2026, o trabalhador Kelvin Tavares da Silva, com 32 anos, foi mais uma vítima fatal de acidente de trabalho no Brasil, em que teve seu braço dilacerado enquanto executava manutenção numa atração do Parque Snowland, em Gramado, no Rio Grande do Sul. Uma fatalidade que chocou diversos trabalhadores do parque Snowland, de propriedade da Gramado Parks, um conglomerado privado com empreendimentos na área do entretenimento, hospedagem e gastronomia.
Segundo relatos de colegas, Kelvin sentia muito prazer em trabalhar no Snowland, inclusive fazendo visitações em momentos de lazer junto de sua esposa, que recentemente descobriu estar grávida. Todo esse amor ao local de trabalho e a sua família estão muito bem registrados em suas redes sociais.
Ainda de acordo com os relatos, mesmo com um ambiente altamente monitorado, o resgate levou mais de meia-hora para ser feito. Quando os socorristas chegaram, encontraram Kelvin parcialmente sem roupas, o que ocasionou um quadro de hipotermia que, somado à perda severa de sangue, teria ocasionado um quadro de parada cardiorrespiratória ainda no local. Em atendimento, chegou a ter o quadro revertido, mas não resistiu à série de traumas ocasionados pelo acidente.
Ser um trabalhador dedicado não salvou Kelvin das perversas estatísticas brasileiras, em que só no ano de 2025 o Ministério do Trabalho e Emprego teve 806.011 acidentes de trabalho, com 3.644 óbitos registrados. Esses números estão diretamente relacionados com à precarização dos postos de trabalho, cada vez mais recorrentes no Brasil.
Colegas de trabalho afirmam que houve negligência por parte da Gramado Parks. Segundo os relatos, apesar de o local do acidente ser integralmente monitorado, o trabalhador demorou cerca de 30 minutos para ser socorrido após ser puxado por uma esteira em manutenção.
Relatos de uma fonte anônima que atua no parque indicam que a Gramado Parks teria conhecimento de falhas na segurança operacional do parque temático Snowland. Segundo a fonte, “o parque opera de forma insegura para os trabalhadores, e todos lá sabem disso”.
A mesma fonte afirmou ao Jornal O Futuro que o departamento jurídico da empresa estaria preocupado com a quantidade de possíveis irregularidades evidenciadas pelo caso. De acordo com o relato recebido pela redação, os trabalhadores estariam submetidos a condições inadequadas de segurança, com ausência de equipamentos de proteção individual (EPIs), descumprimento de Normas Reguladoras (NRs) do Ministério do Trabalho e Emprego, inexistência de termos formais de ciência dos riscos da atividade e falta de seguro de vida. “Sem EPI, sem as NRs, sem assinar termo de ciência dos riscos, sem seguro de vida”, relatou.
Trabalhadores da rede Gramado Parks também informaram que os funcionários do setor de manutenção recebiam adicional de insalubridade. Segundo os relatos, entretanto, as atividades desempenhadas envolveriam situações de risco à vida, o que poderia caracterizar a incidência de adicional de periculosidade. Caso confirmada, a classificação inadequada representaria uma redução dos custos trabalhistas da empresa, uma vez que o adicional de insalubridade é calculado sobre o salário mínimo, enquanto o adicional de periculosidade corresponde a 30% do salário-base do trabalhador, repercutindo ainda em verbas como férias, 13º salário e FGTS.
Após o acidente, a orientação da Gramado Parks teria sido manter o funcionamento regular do Snowland, com o isolamento da área por meio de uma faixa de contenção, enquanto as demais atrações permaneceram abertas ao público. Segundo relatos obtidos pela reportagem, a decisão foi justificada internamente como uma forma de preservar a experiência dos visitantes.
Embora muitos turistas sejam trabalhadores que aproveitam períodos limitados de descanso para conhecer a Serra Gaúcha, colegas do funcionário que morreu afirmam que a empresa não teria demonstrado a mesma preocupação com as condições de trabalho de seus empregados. De acordo com os relatos recebidos pelo Jornal O Futuro, o trabalhador não teria recebido treinamento e equipamentos adequados para a atividade que desempenhava. As mesmas fontes relatam que os demais funcionários foram orientados a manter suas atividades normalmente durante o restante do expediente, apesar do impacto emocional provocado pelo ocorrido.
Fontes ouvidas pela reportagem também afirmam que, enquanto o parque seguia em funcionamento, equipes realizaram procedimentos de limpeza e organização na área onde ocorreu o acidente. Segundo esses relatos, havia incerteza entre os próprios trabalhadores sobre as circunstâncias exatas do ocorrido. Em um primeiro momento, conforme narrado por funcionários, circulou a informação de que o acidente teria acontecido durante uma atividade de limpeza em uma estrutura de apoio. Posteriormente, ainda de acordo com os relatos, passou a prevalecer entre os trabalhadores a versão de que o acidente ocorreu em uma esteira vinculada a uma das atrações do parque.
As divergências podem ser observadas em mensagens compartilhadas por trabalhadores e obtidas pela reportagem:
“Diz a [...] que tão tirando pedaço dele de lá agora.”
“Ele tinha orgulho mesmo, gostava demais de trabalhar na neve, mas pelo que falaram foi na fossa da esteira mesmo, não na esteira que os clientes usam.”
“E foi na esteira sim, eles estavam dizendo que foi na fossa.”
Segundo trabalhadores ouvidos pela reportagem, a falta de informações precisas sobre o local e as circunstâncias do acidente gerou preocupação não apenas entre os funcionários, mas também em relação à segurança dos visitantes. Na avaliação dessas fontes, a ausência de esclarecimentos imediatos sobre o ocorrido contribuiu para um ambiente de insegurança e incerteza dentro do parque.
Funcionários também relataram que as comunicações internas recebidas após o acidente teriam priorizado a continuidade das operações, sem fornecer detalhes considerados relevantes pelos trabalhadores. Para parte deles, a postura adotada pela empresa transmitiu uma tentativa de preservar uma aparência de normalidade em um momento marcado por forte abalo emocional entre as equipes.
O sentimento de indignação é sintetizado no relato de uma trabalhadora ouvido pelo Jornal O Futuro:
“É muito revoltante ter que ouvir que a gente tem que simplesmente seguir em frente [...] isso só mostra que a gente não importa para a empresa, que a gente não importa para a grande corporação, que as pessoas de cima não ligam para a gente, que a gente pode morrer trabalhando, literalmente dando a vida para a empresa, e no dia seguinte vai ser como se nada tivesse acontecido.”
O depoimento expressa a percepção, compartilhada por outros trabalhadores entrevistados pela reportagem, de que o impacto da morte brutal ocasionada pelo acidente de trabalho não teria recebido a mesma atenção dedicada à manutenção das atividades regulares do parque.
Sindicato abre as portas para denúncias e suporte jurídico aos trabalhadores perseguidos
No dia 13 de junho, três dias após a morte de Kelvin Tavares da Silva, o PCBR realizou um ato em frente ao parque Snowland em solidariedade ao trabalhador, à sua família e aos demais empregados do local. Segundo informações obtidas pela reportagem, a manifestação repercutiu entre os funcionários, que passaram a expressar de forma mais aberta seu desconforto e indignação, tanto no ambiente de trabalho quanto nas redes sociais.
De acordo com relatos recebidos pelo Jornal O Futuro, após a realização do ato, trabalhadores que manifestaram apoio à mobilização passaram a relatar episódios de pressão por parte da empresa. Até o fechamento desta matéria, a reportagem havia recebido a confirmação de pelo menos uma demissão que, segundo fontes ouvidas, estaria relacionada ao contexto de mobilização dos trabalhadores. A empresa não se manifestou sobre as alegações até o momento.
O Sindicato dos Empregados em Turismo e Hospitalidade de Canela e Região, vinculado à Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), após ser procurado pelo PCBR e tomar conhecimento das denúncias relativas às condições de trabalho e às alegadas perseguições sofridas por funcionários do Snowland, colocou-se à disposição para receber denúncias e prestar assistência jurídica aos trabalhadores que venham a enfrentar demissões, assédio moral ou outras formas de retaliação.
O caso reacende o debate sobre as condições de trabalho em um setor marcado por intensa pressão por produtividade e redução de custos. Para o PCBR, acidentes de trabalho não podem ser analisados como eventos isolados, mas como expressões de uma dinâmica mais ampla em que a busca pelo lucro frequentemente se sobrepõe às necessidades de proteção e segurança dos trabalhadores. Nessa perspectiva, os avanços históricos em matéria de saúde e segurança no trabalho são compreendidos como conquistas resultantes da organização coletiva e da luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e trabalho.
Diante da morte de Kelvin Tavares da Silva, trabalhadores, sindicatos e organizações populares da Serra Gaúcha são chamados a fortalecer os mecanismos de denúncia, fiscalização e organização coletiva, exigindo condições dignas de trabalho e a responsabilização de eventuais irregularidades que venham a ser constatadas. A memória dos trabalhadores que perderam suas vidas no exercício de suas funções deve servir como um chamado permanente à mobilização em defesa da vida, da dignidade e dos direitos da classe trabalhadora.
Kelvin Tavares da Silva, presente!