Preço dos alimentos sobe e pesa no bolso da classe trabalhadora
O cenário evidencia uma contradição estrutural do modelo econômico brasileiro. Enquanto o agronegócio mantém recordes de exportação e lucros, o acesso interno à alimentação torna-se cada vez mais caro.

Reprodução/Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.
Por João Oliveira
O preço dos alimentos voltou a subir de forma significativa em março de 2026, ampliando o impacto direto da inflação sobre a classe trabalhadora brasileira. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que os alimentos registraram alta de 1,56% no mês, tornando-se o principal fator responsável pela inflação geral, que atingiu 0,88%.
A elevação foi puxada principalmente pela alimentação consumida dentro de casa, justamente aquela que pesa mais no orçamento das famílias trabalhadoras. Esse grupo teve aumento de 1,94%, quase oito vezes maior que o registrado em fevereiro deste ano.
Alimentos básicos mais caros
Entre os produtos que mais subiram estão itens centrais da dieta popular. O tomate teve aumento de 20,3%, a cebola 17,2%, a batata-inglesa 12,1% e o leite longa vida 11,7%. O feijão-carioca, base histórica da alimentação brasileira, também registrou forte alta, de acordo com dados do IBGE.
Nas maiores variações percentuais aparecem ainda a cenoura, com 28%; a abobrinha, com 23,5%; a batata-doce, com 13,4%; o açaí, com 12,5%; e o pimentão, com 8%.
Apesar de algumas quedas pontuais - como abacate, maçã e laranja-baía -, a redução ocorre em produtos com menor peso no consumo cotidiano das famílias mais pobres, o que limita qualquer alívio real no custo da alimentação.
Inflação que atinge quem vive da venda da força de trabalho
O aumento do preço dos alimentos tem um efeito social imediato. Diferentemente de bens duráveis ou serviços, a comida - ainda mais itens básicos, como tomate, cebola, batata, leite e feijão - não pode ser adiada: quando os preços sobem, o impacto recai diretamente sobre salários já comprimidos.
Os alimentos são responsáveis por grande parte do orçamento das famílias trabalhadoras. Um estudo do economista André Braz, coordenador de Índices de Preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que os alimentos já consomem 22,61% do orçamento das famílias que recebem até 1,5 salário mínimo. Assim, mesmo pequenas variações mensais significam redução concreta do poder de compra e piora das condições de vida.
Além disso, o aumento simultâneo dos combustíveis - que também pressionou a inflação - tende a elevar os custos de transporte e produção agrícola, criando um ciclo contínuo de encarecimento da comida.
Agronegócio forte, mesa vazia
O cenário evidencia uma contradição estrutural do modelo econômico brasileiro. Enquanto o agronegócio mantém recordes de exportação e lucros, o acesso interno à alimentação torna-se cada vez mais caro.
Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro totalizaram US$ 169,2 bilhões, o que representa um aumento de 3% em relação ao montante registrado em 2024, de acordo com dados do Governo Federal.
A lógica voltada à exportação de commodities agrícolas subordina a produção nacional às oscilações do mercado internacional e à rentabilidade do dólar, deixando o abastecimento interno e os preços domésticos em segundo plano.
Na prática, o país que figura entre os maiores produtores de alimentos do mundo convive com a deterioração da segurança alimentar de seu próprio povo.
Salário não acompanha
O avanço do preço dos alimentos reforça uma tendência observada nos últimos anos: a inflação sentida pela classe trabalhadora é maior do que a média oficial. Isso ocorre porque itens essenciais - alimentação, transporte e energia - concentram as maiores altas.
Sem reajustes salariais reais, o resultado é conhecido: menos comida no carrinho de compras, maior endividamento familiar e aumento da precarização social.
Nacionalização das terras e soberania alimentar como alternativa estrutural
Diante do aumento permanente do custo dos alimentos e da submissão da produção agrícola às regras do mercado internacional, cresce a necessidade de uma transformação estrutural no modelo agrário brasileiro.
Conforme defendido pelo Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a superação da crise alimentar passa pela expropriação e nacionalização de todas as terras rurais e urbanas, colocando o território nacional a serviço das necessidades sociais e não da especulação privada e do lucro exportador.
Essa proposta não significa retirar o sustento de quem vive e trabalha na terra. Pelo contrário: prevê a garantia do direito de usufruto pleno das moradias, lavouras e territórios por pequenos proprietários, agricultores familiares, assentados da reforma agrária, povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais. A terra deixaria de ser mercadoria para tornar-se um bem social, assegurando estabilidade produtiva e segurança para quem realmente produz alimentos.
A reorganização do campo seria acompanhada da criação de empresas públicas agrícolas, sob controle democrático das trabalhadoras e dos trabalhadores, responsáveis por planejar a produção alimentar nas terras nacionalizadas. Esse planejamento permitiria priorizar alimentos básicos para o mercado interno, romper com a dependência das commodities de exportação e garantir preços acessíveis à população brasileira.
Ao mesmo tempo, a constituição de um sistema nacional de estoques públicos e distribuição estatal de alimentos possibilitaria regular preços, evitar especulação e assegurar o abastecimento contínuo, protegendo a população das oscilações climáticas, cambiais e financeiras.
Nessa perspectiva, a soberania alimentar deixa de ser apenas uma política emergencial contra a inflação e passa a constituir um novo modelo econômico: produzir para alimentar o povo, garantindo trabalho digno no campo, acesso universal à comida e controle social sobre a riqueza agrícola do país.