8 de março e a luta das mulheres trabalhadoras
No Brasil, essas contradições se expressam de forma particularmente aguda e o desenvolvimento do capitalismo e das lutas contemporâneas não colocam as mulheres em melhores condições.

Bloco das Mulheres na Luta contra a Violência do Estado, partindo da Praça da Estação. Reprodução/Foto: Maria Objetiva/Fora do Eixo.
Para além do que se vê nas propagandas comerciais, o 8 de março é um dia que tem suas origens como parte orgânica da luta da mulher trabalhadora contra a exploração capitalista, e a busca pela superação das desigualdades de gênero, tendo sido proposto como data de luta por Clara Zetkin, comunista alemã, para a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910. Atualmente enfrentamos diferentes ofensivas da burguesia que vem renovando e intensificando o grau de ataque às condições de vida das mulheres – cis e trans – especialmente negras, indígenas, ribeirinhas, migrantes, pessoas com deficiências (PcDs), LBTs e dos países dependentes e colonizados, ou em ataques imperialistas, como o genocídio do povo palestino.
Desde o início, a exploração da força de trabalho feminino está fundada na divisão do trabalho. As primeiras lutas das mulheres trabalhadoras, quando do início da separação entre um movimento feminista burguês e um operário, eram pelo direito ao próprio trabalho, como forma de romper com a subordinação imposta pela dependência econômica dos pais e maridos. Mesmo com o desenvolvimento do capitalismo e a incorporação das mulheres aos postos de trabalho, a desigualdade segue existindo na condição de dupla jornada, ou seja, do trabalho reprodutivo, e reforçada por meio da cultura, da religião, da mídia e das instituições. A ideia que a mulher “complementa” a renda, de que seu trabalho é secundário ou de que sua principal função é reprodutiva, constitui um mecanismo ideológico que mantém salários mais baixos, jornadas duplas e uma base de violências.
No contexto de vida da classe trabalhadora as mulheres mães solos e chefe de famílias se tornam um exemplo de como essa ideologia de subordinação cumpre seu papel: mesmo sendo a provedora do lar, as mulheres trabalhadoras, muitas delas negras, continuam sendo tratadas como “mão de obra complementar”. Os empregos direcionados a elas tendem a estar concentrados em setores historicamente precarizados, como trabalho doméstico, comércio informal, limpeza e asseio, serviços terceirizados e cuidados. Essa posição não é acidental, parte de uma herança escravocrata que destinou às mulheres negras ao trabalho reprodutivo e de cuidado, mantendo-as em uma posição de subalternidade econômica.
No Brasil, essas contradições se expressam de forma particularmente aguda e o desenvolvimento do capitalismo e das lutas contemporâneas não colocam as mulheres em melhores condições. Ainda sob a lógica do trabalho “complementar”, as mulheres seguem recebendo em média 21% a menos do que os homens, mesmo sendo arrimo de família em milhões de casos.
A principal luta operária da atualidade, pelo fim da escala 6x1 e pela redução da jornada de trabalho, é, nesse sentido, a melhor arma para a unificação do movimento de mulheres trabalhadoras com o movimento operário em geral. Diminuir a jornada de trabalho é uma luta histórica do movimento operário e feminista, e as vitórias possíveis dessa batalha não apenas reduzem em geral a jornada de trabalho, como abrem espaço para tempo de socialização, estudo e lazer.
É claro que isso não resolve o problema: sabemos que as contradições do capitalismo também tendem a empurrar as mulheres trabalhadoras, mesmo que sob uma futura escala 4x3, com 30h semanais, para aumentar o tempo despendido nos cuidados familiares, ou seja, no trabalho reprodutivo. Na história do movimento feminista, foram as comunistas as primeiras a apresentar como base fundamental da emancipação da mulher que o trabalho reprodutivo seja socializado, destruindo a base material sobre a qual a burguesia e a pequena-burguesia levantam suas ideologias machistas. No Programa do PCBR, colocamos como uma das bandeiras de luta “A construção, reabilitação e destinação funcional de edificações que não cumpram sua função social para moradias, creches, equipamentos educacionais e de saúde, esporte, lazer e cultura, refeitórios e lavanderias estatais e demais serviços públicos, com investimentos públicos e capacitação suficientes às necessidades populares, em todos os bairros”.
Também devemos lembrar que não são todas as mulheres que estão conosco nessa batalha. As feministas burguesas, desde seu surgimento no século XVIII, representaram um lado oposto da luta das trabalhadoras. Seus interesses são da emancipação jurídica e cultural das mulheres em geral, mas de manutenção da exploração das trabalhadoras e dos trabalhadores. Quando vemos mulheres da burguesia sendo alçadas a exemplos de mulheres ativas na política – desde Margareth Thatcher a Simone Tebet –, devemos ser a primeira voz a denunciar a falsidade dessas posições. A unidade das mulheres trabalhadoras com as burguesas representa apenas a ilusão de um interesse comum, enquanto a unidade entre trabalhadoras e trabalhadores representa a força motriz para derrotar o capitalismo e as formas de opressão da mulher.
Enquanto o capital for a força dominante da sociedade, a mulher trabalhadora continuará sendo convocada a produzir riqueza em troca da sua vida, pois a emancipação concreta implica alterar as bases econômicas que sustentam as desigualdades, e elas só desaparecerão com o fim do modo de produção capitalista. Significa compreender que a emancipação da mulher não se alcança com reformas pontuais ou de representatividade simbólica, não se trata de escolhas individuais, mas só pode ter solução final com a derrota da dominação burguesa e com a construção do socialismo-comunismo.
Em contextos de guerra e conflitos armados, sejam as guerras imperialistas no cenário internacional, sejam os conflitos sociais e a militarização cotidiana vivida nas favelas e periferias do Brasil, as mulheres estão entre as principais vítimas. Elas enfrentam deslocamentos forçados, violência sexual e perda de meios de subsistência, enquanto assumem o papel central na reconstrução da vida comunitária. O militarismo, expressão extrema da disputa por mercados e recursos, aprofunda a exploração e a opressão. A emancipação feminina, portanto, é também uma luta contra a lógica da guerra e da acumulação que a alimenta. Ao reivindicar igualdade material, socialização do cuidado e poder político, as mulheres trabalhadoras apontam para uma reorganização profunda da sociedade, uma revolução que transforma não apenas seu papel econômico, mas o próprio sentido da vida coletiva. O começo do processo revolucionário na Rússia, há mais de cem anos, foi um conjunto de manifestações do 8 de março (fevereiro, no calendário russo antigo) que terminaram com a derrubada do czar e com a instauração da república democrática, conhecido como Revolução de Fevereiro.
Entendemos que a emancipação da mulher não se restringe a avanços jurídicos, ou até mesmo conquistas isoladas de direitos, mas sim, em uma mudança radical em sua posição social, que só pode ser alcançada no socialismo. Quando as mulheres trabalhadoras se organizam, elas desafiam não só o machismo cotidiano, como também as bases estruturais que dão alicerce a exploração de classe, enfrentando o racismo, a LGBTfobia, poderemos romper com as opressões que hoje se manifestam de forma dolorosa na vida das mulheres trabalhadoras.
Diante das ofensivas capitalistas, é dever de todas as trabalhadoras e trabalhadores construir o conjunto de lutas feministas contra as violências patriarcais. Sendo reconhecidas como seres humanos com direitos de decidir sobre nossos corpos, reivindicando a legalidade do aborto e controle sobra a maternidade, podendo escolher quando ter ou filhos e em quais condições sem o controle moral. Possibilitando ainda o acesso à educação sexual, métodos contraceptivos, com ampla disponibilidade de creches e escolas do ensino infantil.
Nossa luta não se encerra em nossa delimitação geográfica nacional, ela permanece em consonância aos movimentos de solidariedade internacionalista, pois não poderemos celebrar e agir livremente enquanto houver mulheres do proletariado, suas crianças, e demais companheiros tendo suas vidas ceifadas. Neste momento, nossas bandeiras de luta estão erguidas em defesa da unidade de toda a classe trabalhadora, e para o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, estaremos nas ruas, nos sindicatos, e nos nossos locais de trabalhos, realizando o chamado para lutar contra a burguesia de todos os países.