Equador: suspiro frente ao monopólio das bananas?
Segundo turno da terceira eleição ao executivo nos últimos quatro anos no Equador conta com os nomes de Luisa González e Daniel Noboa, herdeiro de Luis Noboa Naranjo e de Álvaro Noboa, respectivamente o homem mais rico do Equador do século XX e seu filho, o Magnata da Banana.

A apuração das urnas no primeiro turno de 2025 trouxe uma surpresa que não era apontada pelas previsões da véspera: a candidata Luísa González, endossada por Rafael Correa, disputará o segundo turno com o candidato Daniel Noboa, do partido Ação Democrática Nacional e atual presidente do país.
A previsão inicial apontava a vitória de Noboa, da extrema direita, no primeiro turno, que foi realizado no dia 9 de março. A última pesquisa lançada apontava a vitória do atual presidente com um pouco mais de 50% dos votos, enquanto Luísa González ficava atrás com 38%.
O resultado do primeiro turno, porém, apresentou praticamente um empate técnico. Com uma diferença de aproximadamente 20.000 votos, González vai para o segundo turno com do ex-presidente Rafael Correa. Nessa conjuntura, os espólios dos demais candidatos que concorreram ao primeiro turno, como Leonidas Iza, será definidor dos resultados das eleições.
Nesse contexto, na quarta-feira, dia 12 de março, o candidato Leonidas Iza, assim como a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), declararam apoio a candidata Luísa González do partido Revolução Cidadã. A decisão se deu na Assembleia Popular Plurinacional do Equador e é demandado o fim da mineração ilegal a céu aberto; realização de plebiscitos nas províncias de Azuay, Yasumí e Chocó Andino sobre empreendimentos que agridem os ecossistemas locais; anistia a ativistas ambientais e defensores dos direitos humanos que se encontram presos; reconhecimento por parte do Estado das decisões tomadas pelas organizações indígenas; e fim dos processos de privatização da petroleira estatal OCP e da reserva ambiental de Sacha junto ao apoio à González no segundo turno. Em resposta, González postou em suas redes sociais, afirmando que “o caminho da unidade é o que nós vamos trilhar, pela vida melhor da nossa nação [...] é um passo histórico, com a firme intenção de construir um projeto que priorize o ser humano, a dignidade baseada na justiça social e no respeito aos direitos fundamentais”.
Dessa forma, as eleições equatorianas consistem em uma disputa entre o legado de Correa e guinada à extrema direita conservadora que se inicia a partir de Guillermo Lasso. Enquanto Rafael Correa foi responsável por assumir a presidência com uma proposta antineoliberal, o que levou a políticas de economia expansiva e multiplicou os investimentos em infraestrutura, Lasso foi um político da direita conservadora que desmontou a economia equatoriana a partir do liberalismo, levando a uma crise institucional que envolveu o aumento da violência ligada ao narcotráfico no país. No governo de Guillermo Lasso, que ocorreu concomitantemente à pandemia da Covid-19, também houve o aumento expressivo do custo de vida no país.
Guillermo Lasso também, indo contra a atual Constituição do Equador de 2008, promulgada no governo de Rafael Correa, assinou um acordo com os EUA. Esse acordo permitiu o uso de portos e aeroportos do país, incluindo nas Ilhas Galápagos pelos estadunidenses. Vale ressaltar que tal acordo foi mantido por Noboa e aprofundado a partir de visitas do Comando Sul dos EUA ao país e com o treinamento de policiais e militares por pessoal dos EUA. Desde então posição do governo equatoriano nas questões internacionais tem sido de alinhamento automático dos EUA, sem questionar o genocídio na Palestina, as sanções contra Venezuela, ou sequer a recente guerra tarifária de Trump contra a América Latina. O governo de Lasso terminou com o episódio de morte cruzada meio à crise institucional equatoriana, em que o ex-presidente dissolveu o congresso e saiu do cargo, convocando novas eleições, a fim de evitar o impeachment.
Assim, Luisa González é rotulada pela imprensa liberal como a candidata de esquerda, por representar o legado antineoliberal de Rafael Correa. A candidata traz como propostas o restabelecimento do Ministério Coordenador de Segurança e o Ministério da Justiça, Direitos Humanos e Religião, além de reestruturar os Ministérios do Interior e do Governo. González também propõe a reforma das forças de segurança, de maneira a promover a “reinstitucionalização” do país por meio de um processo constituinte-participativo. Isso se constitui em um modelo de Correa, de acordo com a linha da Revolução Cidadã. Ainda na pauta de segurança, a candidata aposta na modernização da Polícia Nacional, a partir do uso de tecnologias avançadas, como o uso de inteligência artificial para fortalecer o sistema de segurança integrado Ecu 911.
Na pauta de energia, González critica a gestão de Noboa e propõe um maior controle estatal. Seu plano de governo aborda a transição energética, abrangendo a temática de sustentabilidade ambiental. Também busca a recuperação da gestão pública das usinas elétricas, que constituem como um setor energético do Estado. Por fim, busca regular os “oligopólios de energia”, alterando as condições dos leilões para que as energias renováveis tenham uma remuneração estável.
Dando continuidade à pauta ambiental, a candidata propõe o estímulo econômico para outras áreas da economia que não o petróleo. É, assim, proposto uma transição com incentivos para setores de valor agregado, com o objetivo de alcançar um aumento relativo na participação da manufatura e dos setores com alta incorporação de conhecimento e tecnologia na produção total.
Na economia, contudo, a candidata mantém a postura de proteção à dolarização e propõe assim recuperar a liquidez da economia. González afirma que a defesa desse modelo seria alcançada com o aumento da quantidade de moeda estrangeira que entra no país, fortalecendo a indústria nacional para aumentar as exportações e investindo em educação, saúde e infraestrutura.
Dessa forma, é inevitável que a pauta de seguridade social ocupe seu projeto de governo. González propõe democratizar o acesso à educação e garantir o direito à educação pública gratuita e de qualidade em todos os níveis, desde a pré-escola até a universidade. Na área da saúde, o plano prevê a consolidação do Sistema Nacional de Saúde e a inclusão de unidades de saúde privadas como prestadoras de serviços médicos por meio do Estado e sob um sistema único de saúde. Também prevê uma proteção contra “qualquer possibilidade de privatização de hospitais estatais”.
Enquanto Noboa representa a extrema direita que rifa a soberania estatal peruana, González, a candidata de esquerda, acaba por se pautar dentro dos limites sociais-democratas antineoliberais, característicos de seu partido e de seu apoiador, Rafael Correa. Contudo, acaba por não priorizar o proletariado ao prioritariamente, no campo econômico, buscar resguardar a dolarização, visto que essa é prejudicial para o trabalhador não apenas pelo impacto econômico, mas por facilitar os fluxos do narcotráfico no país. Decerto, entre sociais-democratas e bananas-oligárquicas, que vençam a Revolução Cidadã no segundo turno do Equador. Contudo, sabe-se que não é esse tipo de revolução que curará os males que assolam o proletariado equatoriano.