50 Anos da Operação Cajueiro: Meio século de luta contra o esquecimento e a tortura em Sergipe

Cinquenta anos depois, a memória dos 29 sequestrados e torturados nas dependências do 28º Batalhão de Caçadores (28º BC) ainda desafia o silêncio imposto pelos algozes e reforça a necessidade de punição para os crimes cometidos contra a classe trabalhadora.

20 de Fevereiro de 2026 às 21h00

Reprodução: Comissão Estadual da Verdade “Paulo Barbosa Araújo”.

Por Matheus Soares

Em 20 de fevereiro de 1976, o Estado de Sergipe foi palco de uma das ações mais violentas e repressivas da ditadura empresarial-militar: a Operação Cajueiro. Cinquenta anos depois, a memória dos 29 sequestrados e torturados nas dependências do 28º Batalhão de Caçadores (28º BC) ainda desafia o silêncio imposto pelos algozes e reforça a necessidade de punição para os crimes cometidos contra a classe trabalhadora.

Comissão da Verdade Paulo Barbosa de Araújo

A Comissão Estadual da Verdade em Sergipe surge mediante a criação da Comissão Nacional da Verdade, um órgão criado pela então Presidenta da República, Dilma Rousseff, através da Lei nº 12.528/2011. Em Sergipe, a Comissão surge no dia 26 de junho de 2015, por meio do Decreto Estadual nº 30.030, sob a gestão do então governador Jackson Barreto. Seus trabalhos estenderam-se por aproximadamente quatro anos, entre 2016 e 2019, período em que a comissão se dedicou a investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988.

A Comissão contava inicialmente com 7 membros; contudo, ao final, quando o relatório foi concluído, restaram apenas 5, são eles: Josué Modesto dos Passos Subrinho, Andréa Depieri de Albuquerque Reginato, Gilson Sérgio Matos Reis, Gabriela Maia Rebouças e Gilberto Francisco Santos. A pesquisa estava sob a coordenação de Andréa Depieri de Albuquerque Reginato e de Gilson Sérgio Matos Reis. O processo foi marcado por uma ampla pesquisa documental em arquivos nacionais e internacionais, como o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), o SNI (Serviço Nacional de Informações) e até a CIA (Agência Central de Inteligência/Central Intelligence Agency) , além da coleta de depoimentos de vítimas e familiares, da realização de audiências públicas e das parcerias com instituições como a Universidade Federal de Sergipe (UFS)

O terror na garagem do Exército

Diferente da propaganda oficial da época, que alegava a apuração de “atividades subversivas”, o real objetivo da operação era o extermínio do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a desarticulação de frentes de oposição como o MDB. Sob o governo de Ernesto Geisel, a repressão em Sergipe foi coordenada por agentes vindos de fora do Estado, que transformaram a garagem do 28º BC em um centro de abusos sistemáticos. Os relatos das vítimas descrevem um cenário de barbárie: torturas físicas: espancamentos, “telefones” (tapas simultâneos nos ouvidos), choques elétricos nas partes íntimas e afogamentos; vendas de borracha, onde os presos eram mantidos vendados por dias com borrachas de câmara de ar de bicicleta excessivamente apertadas.

O saudoso Milton Coelho, militante do PCB na época, relatou: “Eu fui levado para as dependências laterais do 28º Batalhão de Caçadores aqui em Aracaju e fui estupidamente torturado. Tenho marcas no pulso, pois fui algemado, tomei choques elétricos, pontapés nas costelas, enfim, foi uma barbaridade inconfessável. Após 50 dias preso e depois de passar uma semana sendo torturado, perdi a visão imediatamente quando saí de lá”.

Além de Milton Coelho, outros militantes foram perseguidos, presos e torturados, como: Antonio Bitencourt, Antonio José de Goes, Asclepíades José dos Santos, Carivaldo Lima Santos, Carlos Alberto Menezes, Delmo Nazianzeno, Durval José de Santana, Edgard Odilon, Edson Sales, Faustino Alves Menezes, Jacskon Barreto Lima, Jackson de Sá Figueiredo, João Francisco Océa, João Santana Sobrinho, Jonas da Siva Amaral Neto, José Carlos Teixeira, José Elias Pinho de Oliveira, José Soares dos Santos, Laura Maria Ribeiro Marques, Luiz Mario Santos da Silva, Marcélio Bomfim Rocha, Virgílio de Oliveira, Walter Santos, Wellington Dantas Mangueira Marques, Rosalvo Alexandre Lima Filho, Pedro Hilário dos Santos.

Para nós, relembrar a Operação Cajueiro não é apenas um exercício de memória, mas um dever político. A ditadura agiu para frear as alas radicais e o proletariado que clamavam por reformas de base. A cumplicidade de setores civis, incluindo médicos que monitoravam as sessões de tortura para evitar a morte imediata das vítimas, revela a face “empresarial” do regime.

O silêncio da burguesia e do Estado, que mantém os militares criminosos ainda em seus postos e com privilégios, como aposentadoria para seus filhos, serve para manter a classe trabalhadora desorganizada. A luta pela justiça e pela verdade sobre a Operação Cajueiro é parte indissociável da reconstrução revolucionária e do combate a qualquer ilusão de que a “democracia” liberal, por si só, punirá os carrascos do passado.