Quem são os Panteras Negras que estão marcando presença nos protestos anti-ICE?

Paul Birdsong, que se apresenta como liderança nacional da organização, afirmou que o grupo é a “continuidade” do Partido dos Panteras Negras original, mas não a sua “cópia”.

25 de Janeiro de 2026 às 15h00

Membros armados do Partido Panteras Negras para Auto-defesa, incluindo Paul Birdsong (direita), em 8 de janeiro de 2026, em protesto contra a morte de Renee Good. Reprodução/Foto: Allie Ippolito/For The Inquirer.

Por Filgueira

Os protestos contra a morte da cidadã norte americana Renee Good, em Minneapolis, nos EUA, pelos agentes do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário (ICE, em inglês), chamaram a atenção pela presença de um grupo em particular: armados com fuzis e outras armas de grande porte, vestidos boinas e jaquetas bomber pretas, portavam a logotipo do Partido dos Panteras Negras.

O grupo que resgata o nome do partido original - Partido Pantera Negras para Auto-defesa (em tradução livre para o português) - vem escoltando manifestantes, prestando solidariedade com refeições a desabrigados e exigindo a completa abolição do ICE - criado após o 11 de setembro de 2001 como extensão do Departamento de Segurança Interna Americana atuando dentro do território estadunidense em operações de imigração e deportação, tendo autonomia e amplos poderes para deter e prender “pessoas suspeitas” e até mesmo cidadãos americanos que tentem impedir uma prisão ou realizem agressões a alguns dos agentes.

Em vídeo recente, o historiador e comunicador popular Gustavo Gaiofato apresentou um breve histórico do surgimento do Partido dos Panteras Negras na década de 60 nos EUA como um grupo armado para defesa pessoal da população negra que sofria perseguições institucionais pelas leis de segregação, violência policial e por grupos supremacistas como o Ku Klux Klan. O partido, fundado oficialmente em outubro de 1966, tinha uma linha política ideológica marxista-leninista e contava também com influência da revolução chinesa da literatura de Mao-Zedong.

O Partido dissolveu-se oficialmente em 1982 depois de uma intensa repressão orquestrada pelo FBI com o programa COINTELPRO que infiltrou agentes, plantou dissidências internas e assassinou e prendeu membros. Além disso, saídas e rachas por divergências ideológicas, assassinatos de lideranças como de Fred Hampton e problemas financeiros também foram cruciais para a crise que culminaria no fim do movimento.

Birdsong (direita) e demais membros do BPP em marcha rumo ao protesto de 8 de janeiro contra a morte de Renee Good. Reprodução/Foto: @undercoverinfo1/ X (antigo Twitter).

Sem ainda um programa político claro, Paul Birdsong, que se apresenta como ‘chairman’ [uma liderança nacional] da organização, afirmou que o grupo é a “continuidade” do Partido dos Panteras Negras original, mas não a sua “cópia”. Sem comentar sobre a herança marxista-leninista do partido, que contava com apoio de nomes populares norte-americanos como Angela Davis e Tupac Shakur, Birdsong apontou que o grupo adota uma postura “ainda mais combativa” que o partido original. De acordo com uma matéria do Philadelphia Inquirer, o grupo teria sido reorganizado com apoio e treinamentos de ex-membros do partido original desde 2020 durante os protestos que tomaram as ruas dos EUA após a morte de George Floyd e hoje conta com mais de 100 membros na Filadélfia.

Birdsong também apontou que Huey P. Newton [um dos fundadores do partido original] sempre levantou a bandeira do internacionalismo, que “os Panteras Negras não é um uma organização negra nacionalista” e que “ficamos ao lado de todas as pessoas oprimidas, não importa de que cor elas sejam”. Além disso, Birdsong citou a ‘Coalizão Arco-Íris’ que uniu diferentes grupos minoritários em um mesmo eixo de luta anti-opressão nos EUA e lembrou a campanha do partido original contra a Guerra do Vietnã.

Para além das atuações durante os protestos anti-ICE, o novo Panteras Negras replica as táticas do Partido na década de 60, realizando patrulhas armadas em áreas ao norte da Filadélfia, praticando ações de autodefesa para grupos negros e imigrantes e realizando atividades comunitárias com distribuição gratuita de alimentos e medicamentos.

Skiippy (à direita), membro do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa da Filadélfia, entrega sopa a Yolanda Gray (ao centro) e Roxanne Hart em frente à ‘Igreja do Advogado’, no norte da Filadélfia, na sexta-feira, 9 de janeiro de 2026. Reprodução/Foto: Yong Kim/The Philadelphia Inquirer/TNS.

Importante destacar que, apesar da semelhança com o nome, o “recém instituído” Partido dos Panteras Negras para Auto-defesa (usando o mesmo nome e sigla - BPP - originais), não é o mesmo Novo Partido dos Panteras Negras (NBPP, na nova sigla, em inglês) que, fundado no Texas ainda na década de 80, não reivindica o legado do partido dos anos 60 por se distanciar do comunismo/socialismo, apelando por um “nacionalismo negro” carregado com influências racistas e forte ligação com a seita Nação do Islã que afirma que as pessoas brancas teriam sido criadas por um cientista (Yakub) há mais de 6.000 anos.