Trabalhadores da AlmaViva em Fortaleza rejeitam proposta de arrocho e abusos no telemarketing
Proposta rebaixada de ACT do Sintratel-CE e AlmaViva é rejeitada por mais de 80% dos trabalhadores em assembleia.

Sede de uma das unidades da AlmaViva Experience. Reprodução/Foto: F5News.
Por João Lucas
Na segunda semana de junho, o Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing do Estado do Ceará (Sintratel-CE) realizou uma assembleia com os trabalhadores da empresa AlmaViva Experience, braço do conglomerado italiano AlmaViva Group que atua no Brasil no setor do Telemarketing. A pauta da assembleia foi a apresentação da proposta de Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) de 2026 elaborada pela empresa e sindicato, que foi rejeitado por ampla maioria pelos funcionários da empresa.
O Acordo Coletivo apresentado para a assembleia incluía o pagamento do retroativo abaixo do que é devido aos trabalhadores e um reajuste salarial mínimo. Desde janeiro o salário dos funcionários está desatualizado, e para os operadores ainda está sendo pago o valor do salário mínimo de 2025 (R$1.518). A proposta de ACT é de estabelecer o pagamento do salário mínimo de 2026 (R$1.621) e o pagamento do retroativo no valor de R$250, que não corresponde ao valor perdido pelos trabalhadores durante os últimos 6 meses, que é de R$618.
Na prática, os trabalhadores estavam recebendo menos do que deveriam e que lhes é assegurado por lei e a empresa não pagará a diferença correspondente. A proposta indignou os funcionários que enfrentam uma exploração constante na empresa, que é parte de um setor constantemente denunciado pelo volume de abusos cometidos no ambiente de trabalho.
Por meio do Comitê Pelo Fim da Escala 6x1 (Fortaleza) os trabalhadores da empresa já enviaram diversas denúncias sobre as condições de trabalho na empresa. O tempo de pausa para usar o banheiro, segundo essas denúncias, é limitado a 10 minutos por dia, com os supervisores proibindo que se faça o uso durante os horários de pico de ligações e, durante a madrugada, limitando o uso à 5 minutos por considerarem “menos necessário”.
Além da extensa jornada de trabalho, que chega a 7 dias de trabalho consecutivos, trabalhadores relataram, por meio do Comitê, que já presenciaram colegas que tiveram familiares em situação de alto risco à saúde não serem liberados pela empresa, que descontou o tempo fora do posto pela ocorrência do banco de horas.
O lucro líquido da AlmaViva foi de R$150.201.075 no ano de 2024, contrastando com as condições de trabalho e o salário dos funcionários, que denunciam abusos constantes e não tem seu salário e demais direitos pagos corretamente. Esse lucro vem ao custo do desgaste mental e físico, a extensa jornada de trabalho, os abusos e metas cobradas pela empresa para com os seus trabalhadores.
A direção do Sintratel-CE, formado para ser uma entidade de luta que representa e defende os direitos dos trabalhadores, na prática fecha os olhos para as denúncias e tenta “mostrar serviço” negociando dias de folga com as empresas do telemarketing para serem sorteados. As reclamações tanto para a empresa quanto para a diretoria do sindicato explodiram após a assembleia em que o ACT foi apresentado, com denúncias veiculadas nas redes sociais de forma independente.
Recebemos relatos de que gestores das operações fizeram uma intensa campanha para coagir os operadores a aceitar a proposta de ACT. Foram utilizados diversos métodos e discursos para intimidar os trabalhadores e fazê-los aceitar a proposta, com argumentos como “se não aprovar essa proposta, depois pode vir uma proposta pior” ou “justificativas” para a precarização do trabalho alegando que “os operadores de telemarketing não são integralmente protegidos pela CLT, por isso não tem todos os direitos”.
Apesar das tentativas patronais, o acordo foi rejeitado por mais de 80% dos votantes. Nesse momento, os trabalhadores estão reivindicando que seus direitos sejam cumpridos, como o pagamento integral do retroativo, com atualização conforme inflação acumulada do período, incluindo FGTS e Vale-Alimentação, reajuste do vale e respeito às condições dignas de trabalho, acabando com as metas absurdas e as regras de controle do uso do banheiro.
A luta pelo fim da escala 6x1, reduzindo a jornada de trabalho sem redução de salários, se mostra prioritária para a categoria que sofre constantes absurdos. Enquanto seus direitos são cortados e sua carga de trabalho aumenta, os bolsos da empresa se enchem com o lucro produzido pelo trabalho dos funcionários.
A rejeição do ACT pelos trabalhadores da AlmaViva não é um detalhe da negociação. É um recado político. É a demonstração de que haverá resistência ao arrocho, à fraude fantasiada de acordo e à tentativa de empurrar à categoria mais um ataque em nome da “mediação” entre patrões e empregados. Quando a empresa lucra mais de R$ 150 milhões em um ano e, ao mesmo tempo, se recusa a pagar integralmente direitos básicos, fica claro que o problema nunca foi administrativo, mas sim uma expressão nítida da lógica de exploração que estrutura o setor de telemarketing.
Também fica exposto o papel da direção sindical quando abandona a organização da luta para atuar como gestora do descontentamento. Um sindicato que silencia diante de denúncias de abuso, naturaliza o descumprimento de direitos e leva à assembleia uma proposta rebaixada não fortalece os trabalhadores, fortalece a empresa. A revolta que emergiu após a votação mostra que existe disposição de luta na base e que a categoria não aceita mais pagar pela crise com salário defasado, jornadas exaustivas e humilhação cotidiana.
A tarefa colocada agora é transformar a indignação em organização. Garantir o pagamento integral do retroativo, barrar o rebaixamento salarial, enfrentar os abusos no local de trabalho e levantar com força a luta pelo fim da escala 6x1, reduzindo a jornada de trabalho com uma escala 4x3 sem prejuízo nos salários.
Não há saída individual para um regime de exploração que adoece, desgasta e descarta trabalhadores em nome do lucro. Ou a categoria se organiza de forma independente, com mobilização real e controle da base sobre sua própria luta, ou a empresa seguirá lucrando enquanto a miséria, o cansaço e o adoecimento seguem recaindo sobre quem produz toda essa riqueza.