Fim da escala 6x1: uma vitória da classe trabalhadora em disputa

A redução da jornada reafirma uma das principais lições da história do movimento operário: direitos sociais não são dádivas concedidas de cima para baixo, mas resultados concretos da luta.

4 de Julho de 2026 às 15h00

1º de Maio em Curitiba (PR). Foto: Franthesco Fioravanço/Jornal O Futuro.

A luta pela redução da jornada sempre foi uma pauta ligada ao movimento operário. A disputa em torno do tempo de trabalho expressa um dos conflitos mais fundamentais entre capital e trabalho: de um lado, a busca patronal pela ampliação da exploração da força de trabalho; de outro, a reivindicação dos trabalhadores por melhores condições de vida e dignidade.

A reivindicação avançou internacionalmente com a luta pela jornada de oito horas. O marco mais conhecido ocorreu em Chicago, em 1886, quando uma greve geral foi violentamente reprimida, transformando-se em símbolo mundial da luta operária. A partir daí, a bandeira das "oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas para a vida pessoal" tornou-se uma pauta central do movimento dos trabalhadores em diversos países. No Brasil, a defesa da jornada de oito horas já aparecia no final do século XIX e ganhou força com as greves operárias das primeiras décadas do século XX, especialmente após a Greve Geral de 1917. A conquista foi consolidada na legislação trabalhista durante a década de 1930, integrando um conjunto mais amplo de direitos sociais.

Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da produtividade ao longo do século XX, novas reduções da jornada de trabalho foram raras. Em contrapartida, o crescimento da automação e da produtividade conviveu com desemprego, precarização e intensificação do trabalho. Nesse contexto, reivindicações contemporâneas como o fim da escala 6x1, a adoção da escala 4x3 e a redução da jornada semanal voltam a ganhar destaque entre trabalhadores e movimentos sociaisno cenário político brasileiro a partir das eleições presidenciais de 2022. Na ocasião, o PCB incorporou a redução da jornada de trabalho como uma de suas principais propostas programáticas na campanha de Sofia Manzano, destacando-se como uma das primeiras organizações políticas, sobretudo dentro da esquerda brasileira, a inserir de forma central, no âmbito da política institucional, a discussão sobre a diminuição da jornada sem redução salarial.

Já em 2023, a pauta alcançou maior destaque quando o então balconista de farmácia e atualmente vereador da cidade do Rio de Janeiro, Rick Azevedo (PSOL-RJ), publicou um vídeo na plataforma TikTok relatando as dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora submetida à escala de trabalho 6x1. Em seu depoimento, destacou a falta de tempo para estudar, usufruir de momentos de lazer e conviver com a família, evidenciando os impactos dessa jornada sobre a reprodução da vida dos trabalhadores. O vídeo rapidamente viralizou, justamente por expressar uma realidade compartilhada por milhões de pessoas, transformando uma experiência individual em um problema coletivo e socialmente reconhecido. A ampla repercussão da publicação contribuiu para impulsionar o debate público acerca da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1, fortalecendo mobilizações de trabalhadores e organizações sociais em torno da pauta.

A amplitude alcançada pela campanha pelo fim da escala 6x1 também contribuiu para evidenciar que os impactos da intensificação do trabalho não recaem de maneira homogênea sobre a classe trabalhadora. Embora a redução da jornada apareça como uma reivindicação geral dos trabalhadores, seus efeitos assumem contornos específicos quando analisados sob a perspectiva das relações de gênero.

Na luta pela redução da jornada de trabalho, o PCBR buscou intervir nas mobilizações em curso por meio de sua militância, de seu trabalho de agitação e propaganda e da defesa de uma orientação política marxista-leninista para o movimento. Nesse processo, o Jornal O Futuro desempenhou um papel importante ao sistematizar e divulgar denúncias e relatos de trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas e a constantes violações de direitos trabalhistas.

As reportagens produzidas sobre a Rede Confiança de Supermercados, em Sorocaba, e sobre a Companhia Zaffari, no Rio Grande do Sul, expuseram condições de trabalho marcadas por escalas abusivas, assédio moral, adoecimento mental, desvio de função e intensificação da exploração da força de trabalho, atingindo inclusive trabalhadores adolescentes.

Entretanto, à medida que a pauta da redução da jornada ganhou centralidade no debate público, ela passou a ser objeto de intensa disputa político-eleitoral. A mobilização em torno do fim da escala 6x1, construída historicamente por sindicatos, movimentos sociais e organizações de trabalhadores, foi progressivamente incorporada às estratégias de diferentes forças políticas, que buscaram capitalizar eleitoralmente o amplo apoio popular à medida. Nesse processo, tanto setores da esquerda institucional, particularmente vinculados ao Partido dos Trabalhadores (PT), quanto lideranças da direita e da extrema direita passaram a disputar a narrativa em torno da proposta, frequentemente deslocando o protagonismo das organizações que originalmente impulsionaram a reivindicação.

A controvérsia em torno da tramitação da PEC revelou essa dinâmica de forma particularmente expressiva. A reação de importantes lideranças bolsonaristas ao avanço da proposta expôs uma contradição entre o discurso de defesa do "povo trabalhador" e a resistência a uma medida amplamente apoiada pela própria base social da direita. Ao mesmo tempo, a aprovação da proposta foi rapidamente incorporada à disputa eleitoral, transformando-se em um instrumento de reposicionamento político tanto para o governo quanto para a oposição. A luta pela redução da jornada de trabalho evidencia como demandas vindas dos conflitos sociais podem ser absorvidas e ressignificadas pelas instituições políticas, transformando-se em ativos estratégicos na competição eleitoral.

A atual conquista em torno da redução da jornada de trabalho não deve ser compreendida como uma concessão espontânea do Estado ou das forças políticas institucionais, mas como resultado de um longo processo histórico de organização e mobilização da classe trabalhadora. Desde as lutas pela jornada de oito horas, no século XIX, até os debates contemporâneos sobre o fim da escala 6x1, a diminuição do tempo de trabalho sempre esteve vinculada à resistência dos trabalhadores contra a ampliação da exploração e à disputa pelo controle do próprio tempo de vida.

Ao mesmo tempo, os limites da medida atualmente aprovada evidenciam que a luta permanece em aberto. Embora represente um avanço nas condições de trabalho e reprodução social, a redução da jornada não altera, por si só, os fundamentos das relações capitalistas de produção nem elimina as formas contemporâneas de exploração do trabalho. Em sociedades marcadas pela dependência, pela precarização e pela crescente intensificação dos ritmos produtivos, a diminuição da jornada tende a ser acompanhada por novas estratégias de extração de valor, exigindo a continuidade da organização coletiva dos trabalhadores.

Desse modo, o significado histórico da presente conquista não reside apenas em seus efeitos imediatos sobre as condições de trabalho, mas também na demonstração de que transformações sociais relevantes continuam sendo impulsionadas pela ação coletiva da classe trabalhadora. A redução da jornada reafirma, assim, uma das principais lições da história do movimento operário: direitos sociais não são dádivas concedidas de cima para baixo, mas resultados concretos da luta de classes e da capacidade dos trabalhadores de impor limites à lógica de acumulação do capital.