A luta pelo fim da escala 6x1 é uma luta por saúde mental
O levante da classe trabalhadora pela redução da jornada se estabelece no seio de um amplo debate acerca da saúde mental, com o Brasil liderando rankings de trabalhadores com transtornos de ansiedade e depressão.

Reprodução/Foto: Victor Oigres.
Por Maria Eduarda Neves Sousa e Guilherme Faria Ribeiro
Em janeiro de 2026, o Ministério da Previdência Social divulgou dados sobre o afastamento de trabalhadores em decorrência de problemas relacionados à saúde mental. Nesse período, foram concedidas 546.254 licenças médicas a profissionais formalmente registrados, o que aponta para números possivelmente ainda mais elevados, considerando a subnotificação das condições de trabalho nos vínculos informais. A maioria desses afastamentos concentra-se em dois diagnósticos centrais: ansiedade e depressão. Os transtornos de ansiedade ocupam a primeira posição, com 166.489 licenças concedidas em 2025, seguidos pelos quadros depressivos, que somaram 126.608 afastamentos.
Esses indicadores revelam, por um lado, a generalização do sofrimento psíquico e, por outro, sua naturalização como um problema estritamente individual. O Brasil apresenta a maior prevalência de diagnósticos de transtorno de ansiedade, atingindo 9,3% da população, em contraste com a média mundial de 3,6%, além de figurar entre os países com índices elevados de depressão, alcançando 5,8%, especialmente entre mulheres e idosos. Soma-se a esse cenário os altos índices de suicídio entre jovens negros, cujo risco é aproximadamente 45% maior em comparação aos jovens brancos. Portanto, observa-se que o caráter patriarcal, sexista, etarista e racista da sociedade brasileira, isto é, sua gênese social, também se expressa nos dados de saúde mental, uma vez que mulheres, idosos e negros são desproporcionalmente mais afetados.
Diante desse cenário, as empresas têm implementado políticas de caráter preventivo, como ações de enfrentamento ao assédio, incentivo à empatia e ao acolhimento, além da oferta de acesso a consultas médicas e psicológicas. Nesse contexto, assim como a saúde mental é frequentemente reduzida a transtornos estritamente individuais, seu “tratamento” também passa a ser compreendido sob a mesma lógica individualizante e privatista, sobretudo por meio da medicalização, do mindfulness e da psicoterapia.
Essas intervenções hegemônicas do chamado campo psi (psiquiatria, psicologia e psicanálise) tendem, na maioria das vezes, a desconsiderar as condições de vida desumanas impostas à classe trabalhadora, que, além dos elevados índices de desemprego, enfrenta baixos salários, sobrecarga, assédio, exigências excessivas de produtividade, longos deslocamentos diários decorrentes da precarização do transporte público e jornadas extenuantes, como a escala 6x1. Tais condições subtraem tempo de vida, de descanso, de lazer, de relações coletivas e comunitárias saudáveis, bem como de atividade física e de acesso à cultura.
Em um país marcado pela pela superexploração do trabalho, atribuir o sofrimento psíquico exclusivamente a desregulações emocionais ou biológicas, sem considerar a materialidade opressiva, racista e sexista, que se expressa em pior saúde mental, significa reforçar a lógica do sistema capitalista. Diante desse cenário, faz-se necessária também uma crítica ao campo psi, que, ao se colocar como espaço exclusivo do debate, tende a produzir respostas despolitizadas, centradas na atenuação de sintomas e afastadas de proposições coletivas efetivas, patologizando e medicalizando experiências opressivas. E, em vez de revelar os problemas estruturais e seus desdobramentos na saúde mental, o campo acaba por ocultá-los por meio da psicopatologização da vida. A luta dos trabalhadores pelo fim da escala 6x1 é uma pauta diretamente relacionada à saúde mental. Diante disso, sustenta-se que criar condições melhores de saúde mental deve levar em conta opressões de classe, raça, gênero, etnia e sexualidade, articulado às lutas populares por moradia, terra, emprego e renda. A saúde mental, nesse horizonte, não pode ser reduzida a transtornos individuais, mesmo que o sofrimento psíquico se manifeste singularmente. A precarização cada vez maior da saúde mental dos brasileiros é a expressão dialética do recrudescimento cada vez maior das condições desumanizadas de vida.
Em um horizonte revolucionário, uma das organizações que têm construído lutas acerca do tema é o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). O PCBR propõe não apenas a redução da jornada, limitando a 30 horas semanais para todos os trabalhadores, em uma escala 4x3, mas o aumento do salário mínimo condizente com as necessidades daqueles que dele dependem, contratações unificadas ao regime da CLT e, portanto, reformas trabalhistas e previdenciárias que contemplem ampliação de direitos. Licenças parentais justas e igualitárias, a superação de todas as formas de desigualdades salariais, a proibição da exploração sistemática da classe trabalhadora que se perpetuam pela plataformização e piora das condições laborais para profissionais de diversas áreas (enfatiza-se aqui, saúde, com ênfase em contextos de insalubridade, educação e periculosidade) consideradas estratégicas para a manutenção mínima da sociedade.
A redução da escala constrói o caminho para se pensar em dinâmicas de trabalho mais simétricas e horizontalizadas, uma vez que as identidades possam se determinar por outros aspectos, não somente a profissão ou o emprego que pague as contas no momento. Nesse sentido, o tempo livre direcionado para atividades alheias à lógica da produção e consumo, podem constituir espaço para melhores relações entre os trabalhadores e suas ocupações. O próprio campo psi, apesar da consolidada área clínica, tem enfrentado um aprofundamento da exploração de seu trabalho, com jornadas de atendimento exaustivas e remunerações irrisórias, proporcionadas por clínicas, que muitas vezes dispõem de outras especialidades da saúde que são tão precarizadas quanto, e a oferta de serviços por meio de planos de saúde/convênios. O profissional se submete a tais condições por não alcançar qualquer êxito após longos cursos de graduação, e se ver completamente sem perspectiva de vínculo seguro de trabalho, sendo reservados a estes apenas a promessa do empreendedorismo, se tornando mais que um prestador de serviços, uma empresa de si, portanto sem direito às férias, licenças por quaisquer motivos necessários, 13º ou mesmo, condições mínimas de negociação real com o patrão.
Além disso, a derrubada da escala 6x1 e a proposta da escala 4x3, com 30 horas semanais e sem redução salarial, pode produzir impactos positivos na saúde mental da classe trabalhadora, pois amplia o tempo livre e, consequentemente, o acesso ao descanso, ao sono de qualidade, à prática de atividade física, à cultura e à educação. Acrescenta-se que esse tempo disponível pode favorecer maiores possibilidades de organização política e partidária, bem como de participação em sindicatos e movimentos sociais, uma vez que o acesso à militância, à formação crítica e à experiência partidária é, em grande medida, negado à maioria dos trabalhadores. Com isso, ao invés do sofrimento mental ser privatizado, patologizado e individualizado nos consultórios de médicos e psicólogos, além de ser atribuído exclusivamente aos próprios trabalhadores, os espaços coletivos podem tornar-se lugares privilegiados para a transformação da ansiedade e da depressão em processos de radicalização e de organização política na luta de classes.
Essa transformação também pode ser compreendida como expressão de uma saúde mental menos alienada, na medida em que envolve um processo significativo de conscientização acerca dos problemas que atravessam nossas vidas enquanto trabalhadores precarizados, nos mobilizando para a luta. Por fim, defendemos que não há saúde mental sem condições dignas de vida, e que a derrubada da escala 6x1 deve ser considerada, como de fato é, uma luta imprescindível para a garantia da saúde mental da classe trabalhadora brasileira.