Crianças estudam respirando veneno: escola em Limoeiro do Norte cercada pela pulverização de agrotóxicos
Enquanto grandes fazendas avançam sobre a Chapada do Apodi, cerca de 400 crianças da Escola Agrícola Padre Lino Gottardi convivem diariamente com a “chuva de veneno”.

Reprodução/Foto: Google Earth.
Por Victória B.
No Vale do Jaguaribe, no interior do Ceará, a chamada “chuva de veneno” não é figura de linguagem é a forma como as comunidades nomeiam a pulverização de agrotóxicos que atravessa plantações e invade casas, escolas, igrejas, rios e quintais. Em Limoeiro do Norte, na comunidade de Cabeça Preta, essa realidade atinge diretamente o Colégio Piamarta ou Escola Agrícola Padre Lino Gottardi, onde cerca de 400 crianças estudam cercadas por grandes áreas de monocultura irrigada e convivem diariamente com a contaminação provocada pelo agronegócio.
Durante anos, a pulverização aérea de agrotóxicos foi proibida no Ceará justamente pelos riscos sanitários e ambientais. A aplicação por aviões espalhava veneno para além das plantações, carregado pelo vento e pela propagação química, atingindo diretamente os moradores da região.
Em 2024, porém, a aprovação da Lei nº 19.135 mudou esse cenário ao permitir novamente a pulverização aérea por meio de drones agrícolas. O argumento apresentado foi o de que os drones causam menor impacto ambiental e maior precisão na aplicação. Na prática, movimentos populares, pesquisadores e moradores da região denunciam que isso não elimina o problema central: o veneno continua sendo lançado no ar e continua sendo levado pelo vento até casas, escolas e fontes de água.
A liberação da pulverização aérea por drones no Ceará tem responsáveis bem definidos. A Lei nº 19.135/2024 foi de autoria do deputado estadual Felipe Mota (União Brasil), com coautoria de Marcos Sobreira (PSB) , Osmar Baquit (PSB) e Queiroz Filho (PSDB) . O projeto foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Ceará com 22 votos favoráveis e, no mesmo dia, em tempo recorde, sancionado pelo governador Elmano de Freitas do (PT), transformando-se na chamada “Lei dos Drones”.
A contradição é ainda maior porque a nova lei altera justamente a Lei Zé Maria do Tomé, aprovada em 2019, de autoria do Deputado Renato Roseno (PSOL), que havia proibido a pulverização aérea no estado e que, inclusive, havia sido defendida anteriormente pelo próprio Elmano quando ainda era deputado estadual. Na “Lei dos Drones”, sob o discurso de “modernização” e “maior precisão técnica”, o que se aprovou foi a reabertura legal para que o veneno continue chegando às comunidades, às escolas e às casas do povo trabalhador, agora não mais apenas por aviões, mas também por drones, tudo isso para suprir os interesses de grandes empresários.
A chamada “modernização” da pulverização não altera sua essência: continua sendo veneno lançado sobre as cabeças da classe trabalhadora.
Em Cabeça Preta, essa ameaça ganha contornos ainda mais graves porque atinge diretamente o espaço escolar. O Colégio Piamarta (Padre Lino Gottardi) , conhecido na região como referência comunitária e educacional, que abriga cerca de 400 crianças, está localizado no início da Chapada do Apodi e é cercado por áreas de cultivo irrigadas por pivô central. A escola funciona ao lado de grandes plantações de banana, melão e outras culturas voltadas ao agronegócio exportador, inserida dentro da própria lógica territorial dessas fazendas.
A proximidade é tão evidente que pode ser observada a olho nu e por imagens de satélite: a unidade escolar está rodeada por círculos de pivô central e grandes extensões de monocultura. Não se trata de uma ameaça distante, mas de uma convivência cotidiana com a pulverização.
Essa condição também aparece registrada em pesquisa acadêmica da Universidade Federal do Ceará (UFC), que investigou os impactos da exposição aos agrotóxicos no Baixo Jaguaribe. O estudo destaca explicitamente a “proximidade entre a comunidade e os cultivos irrigados por pivô central nos terrenos do Colégio”, mostrando que parte das terras do próprio Projeto Piamarta era alugada para grandes empresas do agronegócio.
Como relata uma moradora entrevistada pela pesquisa:
“Tem um colégio lá (no Piamarta), mas tem as terras que eles alugam para ajudar nas despesas do colégio... porque ele é um colégio que deu emprego, ele tem fazenda, certo? Não é só o colégio em si, é uma fazenda.”
O projeto foi, durante muitos anos, visto como símbolo de desenvolvimento local. Trouxe empregos, movimenta a economia da comunidade e passou a representar uma promessa de progresso para muitas famílias da região. A escola se consolidou como importante espaço de formação para crianças e jovens.
“O Piamarta chegou, era uma riqueza, muita água, muita gente empregada, era bom demais”, relata a mesma moradora.
Mas este “progresso” veio acompanhado de uma violência silenciosa e permanente: a exposição contínua aos agrotóxicos.
Segundo a pesquisa da UFC realizada por SAULO DA SILVA DIÓGENES , a pulverização começou com bombas costais, depois passou para tratores e posteriormente chegou à pulverização aérea por avião. O veneno passou a fazer parte da rotina da comunidade e, consequentemente, da rotina escolar.
Inicialmente, as aplicações aconteciam durante o dia, em horário comercial. Moradores passaram a denunciar os efeitos: cheiro forte, irritação, ardência, dores de cabeça, tontura, náusea, dificuldade para respirar e sensação constante de sufocamento. Crianças, idosos e trabalhadores são atingidos diretamente.
Diante das reclamações, as empresas não interromperam a prática. Apenas mudaram o horário. Enquanto as famílias dormiam, aviões e pulverizadores seguiam espalhando veneno sobre as plantações e sobre a própria comunidade, tornando a exposição ainda mais inevitável.
“Várias vezes aconteceu isso, da gente acordar sufocada, sem fôlego, com a pulverização e o aviãozinho passando expurgando.”
A fala de uma moradora de Cabeça Preta sintetiza a brutalidade dessa realidade. A mudança de horário não reduziu a contaminação, apenas tornou a violência menos visível e mais difícil de denunciar. Se antes parte da população ainda podia evitar estar presente durante a aplicação, agora todos eram atingidos durante o sono.
As próprias crianças relatam que a pulverização via drone voltou a ser realizada à luz do dia, principalmente no final da tarde, horário em que tradicionalmente a comunidade já sofria com a aplicação de agrotóxicos. Agora, porém, muitos moradores afirmam que o cheiro forte característico diminuiu, levantando a denúncia de que grandes produtores estariam adicionando ainda mais compostos químicos para mascarar o odor do veneno, tornando essa violência ainda mais silenciosa e ainda mais perigosa.
Durante uma atividade de nossa militância junto ao movimento Revoga Já na região, uma criança relatou:
“A gente não aguenta mais. Todo dia eu vou dormir com dor de cabeça por causa desse veneno. Acho que eles querem matar a gente. Lá na escola, às vezes, a gente volta pra casa porque nem consegue prestar atenção no que a professora está dizendo.”
As consequências dessa exposição aparecem no cotidiano e também nos dados levantados pela pesquisa. Há relatos recorrentes de adoecimento, especialmente casos de câncer, inclusive entre pessoas jovens e sem histórico familiar da doença.
O estudo identifica mulheres com diagnóstico de câncer de ovário, mama e linfomas vivendo em áreas diretamente expostas à pulverização, com histórico de contato permanente com agrotóxicos, seja pela proximidade com as plantações, pela contaminação da água ou pelo convívio com familiares trabalhadores do agronegócio.
Durante a atividade de militância realizada recentemente na região, esses relatos também apareceram com força. Moradores relataram diversos casos de câncer em pessoas jovens, famílias inteiras adoecidas e um sentimento constante de medo. Idosos relataram que muitas vezes precisam sair da missa ou do culto porque o horário da pulverização coincide com o cair da tarde, entre cinco e seis horas.
As crianças vivem esse impacto de forma ainda mais cruel: mesmo sem qualquer proteção real, muitas utilizam máscaras tentando amenizar a exposição. A escola, que deveria ser um espaço de cuidado, aprendizado e segurança, torna-se mais um território submetido à lógica da produção intensiva e da contaminação química.
Além da exposição pelo ar, existe ainda a contaminação da água e da alimentação. Muitas famílias dependem da água distribuída por canais próximos aos perímetros irrigados. O agronegócio transforma a saúde da comunidade em mercadoria: troca-se adoecimento por emprego temporário, contaminação por promessa de desenvolvimento, silêncio por sobrevivência.
Isso é a expressão mais concreta do avanço do capitalismo no campo: a terra deixa de cumprir uma função social e passa a servir exclusivamente à acumulação de lucro para grandes empresários do agronegócio que sequer vivem na região e sem qualquer compromisso com a vida do povo que aqui permanece.
Enquanto as crianças de Cabeça Preta estudam respirando veneno, grandes empresas da fruticultura irrigada expandem seus lucros com a produção de banana, melão e outras frutas voltadas principalmente para exportação — alimentos que muitas vezes nem chegam à mesa da própria população local.
No entorno da comunidade e da escola, essa lógica se expressa na presença de grandes áreas ligadas ao Projeto Irrigado Jaguaribe-Apodi e à atuação de empresas e grandes produtores associados à expansão da banana irrigada e da fruticultura empresarial, com destaque para a influência histórica de grupos ligados à Agrícola Famosa, Frutaco e grandes fazendas de banana da Chapada do Apodi, além dos lotes empresariais que operam no próprio entorno do Projeto Piamarta.
O lucro fica para poucos; o câncer, a água contaminada e a chuva de veneno ficam para quem vive na região.
Não por acaso, é justamente nessa região que permanece viva a memória de Zé Maria do Tomé, assassinado em 21 de abril de 2010 por denunciar a pulverização de agrotóxicos e a contaminação das comunidades do Vale do Jaguaribe. Mais de uma década depois, a pergunta continua urgente: até quando nossas crianças respirarão veneno para enriquecer o grande capital do agronegócio?