Olimpíadas de Inverno na Itália viram palco de protestos e greve
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, chamou os manifestantes de “inimigos da Itália” e “quadrilha de criminosos”. O Ministério dos Transportes abrirá investigação por terrorismo pela ação nas linhas férreas do país.

Imagem de protesto portuário contra a guerra. Reprodução/Foto: FGC/Instagram.
Por Filgueira
Com a orientação de colocar a Itália como um centro da “economia de guerra” europeia nos próximos anos, o governo italiano adota medidas de austeridade para gastos sociais e aumenta os custos com gastos militares estabelecidos pela OTAN. Para isso, segundo matéria do ‘Senza Tregua’ - jornal da Frente da Juventude Comunista (FGC, na sigla em italiano) - os recursos serão obtidos por meio de cortes nos gastos sociais, incluindo subsídio para famílias pobres, moradia, saúde e educação. Ao mesmo tempo, as medidas de “regularização fiscal” do orçamento italiano para 2026 incluem anistias para dívidas contraídas entre 2000 e 2023, permitindo que as empresas liquidem seus impostos e taxas de notificação pagando apenas o valor principal, sem multas ou juros.
As medidas recentes são reflexo do escalonamento de décadas de desinvestimento no setor primário, pois a Itália já é um dos países europeus que menos gasta (em porcentagem do PIB) em saúde, por exemplo, e os investimentos em educação e pesquisa estão abaixo da média de investimento feita pela OCDE. Não só isso, o chamado “arrasto fiscal” vem aumentando gradualmente a alíquota do imposto de renda, fazendo com que os salários na Itália fiquem entre os mais baixos da Europa e sejam os únicos que permaneceram essencialmente estagnados ao longo dos anos.
Em novembro e outubro de 2025, a FGC e forças populares e sindicais conclamaram uma greve geral e manifestações nacionais para barrar o “massacre” econômico sobre o povo italiano; além disso, diversos setores aderiram a greves e paralisações em solidariedade a Gaza. Nesse cenário, a classe trabalhadora italiana vem aproveitando a visibilidade trazida pelos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina para reafirmar as contradições da luta de classes e os horrores da guerra.
Apesar de o Comitê Olímpico apontar que os Jogos estariam utilizando muitas das instalações já existentes, as comunidades montanhosas expressaram sua indignação frente aos projetos olímpicos, que envolvem desde o desmatamento de árvores centenárias até infraestruturas superfaturadas que prejudicam o modo de vida dos trabalhadores da montanha.
Em postagem nas redes sociais, a FGC compartilhou imagens das diversas greves em Gênova, Livorno, Civitavecchia, Pireu e dezenas de portos em toda a Europa em greve contra a guerra e o orçamento previsto para a Itália no próximo período. Também no final de semana de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, os atos com milhares de italianos em Milão e Gênova acabaram tomando outros rumos.
Grupos de manifestantes tentaram acessar uma rodovia perto de um dos locais dos Jogos; um outro grupo lançou bombas de fumaça e fogos de artifício em uma ponte com vista para um canteiro de obras a cerca de 800 metros da Vila Olímpica; outros cortaram cabos ferroviários para impedir a partida de trens. A polícia italiana disparou gás lacrimogêneo e canhões de água e deteve 6 manifestantes.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, chamou os manifestantes de “inimigos da Itália e dos italianos” e de “quadrilha de criminosos”. O Ministério dos Transportes da Itália abrirá investigação por terrorismo pela ação nas linhas férreas do país. Dias antes, Meloni aprovou por decreto uma medida de segurança que garante à polícia a detenção por até 12h quando houver “motivos razoáveis” para acreditar que as pessoas possam agir como “agitadoras e perturbadoras de protestos pacíficos”. A medida veio após 100 agentes ficarem feridos em manifestação em Turim contra a alta dos aluguéis.
Apesar do apelo popular considerável, os protestos não possuem uma unidade programática nem lideranças partidárias ou sindicais nos atos; o que há é uma coalizão de pautas “no âmbito progressista” em um aspecto geral. As demandas incluem o movimento anti-ICE (criticando a presença de agentes estadunidenses durante os Jogos na Itália), anti-guerra, Palestina livre, ativismo ambiental e, principalmente, apontam críticas aos investimentos milionários para realização dos Jogos, enquanto a Itália enfrenta uma crise econômica envolvendo o setor imobiliário, arrocho salarial e medidas de austeridade.
Os esforços dos comunistas italianos se dão na transformação do movimento espontâneo atual em uma luta organizada, que aponte o atual cenário crítico da economia italiana como fruto da crise do capitalismo mundial, denunciando a escolha da burguesia de contornar sua crise com ataques aos trabalhadores.