Greve nos Correios a partir de 10 de setembro

A direção dos Correios implementa uma reestruturação que ameaça postos de trabalho e o próprio caráter público da empresa, e apresentou propostas que atacavam direitos  conquistados pela categoria

9 de Setembro de 2026 às 0h00

Assembleia dos trabalhadores dos Correios, em Fortaleza (CE). Foto: Jornal O Futuro.

Por Nalbert Pietro

Trabalhadores dos Correios deflagraram, em assembleias por todo o Brasil, uma greve para ter início dia 10 de setembro. Após semanas de tentativas de negociação com a direção da empresa. A direção implementa uma reestruturação que ameaça postos de trabalho e o próprio caráter público da empresa e apresentou propostas que atacavam direitos  conquistados pela categoria.

A campanha salarial dos trabalhadores dos Correios deste ano é marcada, desde o início, por uma forte oposição entre os planos para a empresa que tem a base desses trabalhadores e a gestão. O comando da empresa tenta emplacar um plano de reestruturação — melhor chamado de plano de destruição — que desmonta os Correios e ataca os direitos dos seus trabalhadores, colocados para pagar o ônus pela crise da empresa.

Os Correios vivem uma crise que tem entre os seus motivos a abertura do mercado de entregas para empresas privadas, muitas dessas se aproveitam de benefícios fiscais e crédito público, além de oferecerem baixos salários e regimes de trabalho precarizados, com metas abusivas e longas jornadas de trabalho através de postos desregulamentados, em muitos casos.

O plano de destruição

As empresas privadas não só estão entre as causas, como se beneficiam da crise da estatal e de seu plano de reestruturação para alavancar seus lucros avançando sobre esse mercado e sobre os próprios Correios.

O plano promove um desmonte completo da empresa e vai desde a venda do patrimônio da empresa, com imóveis sendo leiloados, até o plano de fechamento de mil agências pelo país.

O ataque aos Correios é coordenado com um ataque a seus trabalhadores, cada novo anúncio do plano de reestruturação é feito em conjunto com um Plano de Demissão Voluntária (PDV), que previu inicialmente a demissão de 15 mil trabalhadores.

A meta inicial do PDV fracassou, tendo cerca de 3 mil adesões, mas sua efetivação teria sido pior para trabalhadores e empresa. Sem a restituição desses postos de trabalho, o funcionamento dos Correios fica gravemente comprometido.

Outro ataque aos trabalhadores que vem na esteira do plano de reestruturação é a implementação da escala 12x36, que já foi amplamente rejeitada, mas vem sendo empurrada.

Um novo PDV vem sendo implementado sob o nome de PDV-E. Esse PDV específico é voltado para trabalhadores afetados pelo fechamento e redistribuição de unidades que está sendo promovido. Esse fechamento faz com que as demandas de grandes regiões fiquem concentradas em poucas unidades e sobrecarregue os trabalhadores dessas unidades, prejudicando o serviço que está sendo prestado.

O principal “incentivo” à adesão ao PDV tem sido a ameaça às condições de trabalho e direitos dos trabalhadores dos Correios. 

A campanha salarial

Após várias mesas de negociação, a direção dos Correios apresentou uma proposta que retirava direitos e apresentava um reajuste de apenas 0,87%, bem abaixo do INPC, o que significa uma perda salarial no período.

Entre os direitos retirados estavam: o fim do Vale Cesta Extra, chamado de Vale Peru; o fim do pagamento extraordinário de 200% de trabalho em dia de repouso, voltando a ser de 100%; o fim da gratificação de férias de 70%, voltando a ser apenas 30%.

Um dos ataques mais comentados pela categoria é sobre o plano de saúde da empresa. A empresa atualmente é considerada mantenedora do plano, que é pago com participação dos trabalhadores, a proposta da empresa é que ela seja apenas patrocinadora, o que significa que os trabalhadores terão que arcar com o qualquer ônus, que antes era da empresa, para ter acesso ao plano e, na prática, acaba com a possibilidade de continuidade do plano de saúde.

A proposta da direção dos Correios também trás ataques às representações sindicais e quer tornar o acordo bianual, e não mais anual.

O plano de reestruturação e essa proposta de acordo é amplamente rejeitada pelos trabalhadores, e assim foi nas assembleias do dia 25 de Agosto que, em todo Brasil, deliberaram greve por tempo indeterminado a partir do dia 10 de setembro.

Após esse movimento, a direção da empresa anunciou uma nova proposta, que mantinha a maioria dos ataques, mas recuava com o anúncio da reposição do INPC para os próximos dois anos, o que ainda significa dois anos sem ganho real para a categoria.

A greve

As lutas dos trabalhadores dos Correios tem um significado importante. O desmonte da empresa e das condições de trabalho tem enfrentado dura resistência na base dos trabalhadores, que são os que constroem a empresa diariamente.

A manutenção do caráter público e estratégico dessa empresa só se deve a essas lutas. A greve do fim do ano passado, levada a dissídio, foi quem conseguiu impedir a retirada de direitos da categoria. A resistência que inicia nas agências e unidades de distribuição, e passa pelas assembleias sindicais e paralisações, têm resistido à destruição dos Correios com a reestruturação.

Só o anúncio de uma greve já fez a direção da empresa recuar na proposta que fazia os trabalhadores acumularem perdas salariais.

A primeira lição a se ter é que só a luta, e a greve, pode fazer recuar os que querem atacar os trabalhadores. Ano passado de última hora algumas direções sindicais quiseram aceitar a proposta de retirada de direitos, foi a base de trabalhadores que manteve a greve e conseguiu dobrar o governo e a gestão da empresa.

Mas, também, devemos anunciar o carácter parcial desse recuo, e apostar na força dos trabalhadores para alcançar vitórias mais decisivas. Para isso é preciso demarcar muito claramente que os trabalhadores não podem se apoiar em nenhum governo ou qualquer outro representante da burguesia.

Essa é outra lição que os trabalhadores dos Correios devem compartilhar, pois foi o STF, esse ano, que suspendeu os direitos garantidos após a greve do fim do ano passado.

A gestão que está promovendo a reestruturação da empresa é indicada pelo governo burguês Lula-Alckmin, que se apresenta como uma falsa alternativa à extrema-direita, mas está sendo o governo responsável por levar essa reestruturação até o fim.

Como defende o PCBR, devemos construir essa greve sem esperar que qualquer recuo, o mais parcial que seja, será por mérito do governo burguês. Só a força dos trabalhadores pode emparedar a Frente Ampla e a extrema-direita e fazer os governos cederem aos nossos interesses.

Não é hora de recuar, a partir do dia 10, todos às assembleias e aos piquetes, para dizer não à retirada de direitos dos trabalhadores dos Correios e construir uma força com independência, capaz de barrar essa reestruturação.