Greve dos ferroviários marca novo momento na luta contra as privatizações no transporte público paulista
A greve por tempo indeterminado dos ferroviários das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM, iniciada em 4 de agosto, marca um novo momento na luta organizada dos trabalhadores contra as privatizações promovidas pelo governo Tarcísio de Freitas. A paralisação ocorre após semanas de denúncias sobre a precarização do sistema, agravadas pelo incêndio em um trem poucos dias depois da transferência das linhas para a concessionária Trivia Trens.

Incêndio destruiu trem da Linha 12-Safira poucos dias após a transferência da operação para a Trivia Trens. Foto: Reprodução de TV
A greve por tempo indeterminado dos ferroviários das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM, iniciada em 4 de agosto, marca um novo momento na luta organizada dos trabalhadores contra as privatizações promovidas pelo governo Tarcísio de Freitas. A paralisação ocorre após semanas de denúncias sobre a precarização do sistema, agravadas pelo incêndio em um trem poucos dias depois da transferência das linhas para a concessionária Trivia Trens.
No dia 21 de julho, o governo estadual concluiu a transferência das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade para a Trivia Trens, afetando o transporte diário de quase 1 milhão de passageiros. Apenas três dias após o início da operação integral da concessionária, um curto-circuito provocou um incêndio em um trem da Linha 12-Safira que transportava passageiros e paralisou a circulação nas três linhas. Essa ocorrência só pode ser classificada como uma catástrofe anunciada decorrente do processo de privatização pelo qual os serviços públicos de São Paulo vêm passando - processo esse que nada mais é do que uma ferramenta para garantir e sustentar a acumulação de lucros privados aos custos da vida da classe trabalhadora.
Desde a assembleia realizada em 24 de julho, os ferroviários vinham denunciando que a retomada temporária da operação pela CPTM durante 90 dias não alterava o caráter privatista da política do governo estadual. A categoria avalia que essa medida serviu somente para conter a crise na opinião pública provocada pelas sucessivas falhas da concessionária. Já nesta assembleia, os ferroviários apontaram que o caminho para a melhoria dos transportes públicos perpassa pela reestatização imediata dos serviços da CPTM. A categoria denunciou, naquele momento, que a gestão emergencial de 90 dias imposta à CPTM após o incêndio se tratava somente de uma maneira de mascarar os reais interesses de privatização do governo Tarcísio: através da operação da CPTM se diminui as falhas, evita-se crises e assim, pode garantir o caminho da sua reeleição. Contra isso, os trabalhadores defenderam uma campanha de agitação consistente, unificando ferroviários e usuários da defesa de um transporte que sirva aos interesses da população.
Porém, a ausência de qualquer resposta efetiva do Governo do Estado levou a categoria a aprovar, em assembleia realizada no dia 3 de agosto, a greve por tempo indeterminado, iniciada às 0h do dia 4. Após o primeiro dia de paralisação, uma nova assembleia confirmou a continuidade do movimento. A principal reivindicação permanece sendo a garantia de todos os empregos da CPTM, a reestatização das linhas concedidas e o fim do processo de privatização conduzido pelo governo Tarcísio de Freitas.
A privatização pelas concessões no governo do estado de São Paulo
Em 2023, as verbas públicas destinadas às linhas em concessão superaram em 8 vezes o valor destinado às linhas públicas, mesmo tendo a CPTM e o Metrô transportado mais que o dobro do que as linhas privatizadas. O processo de desvio e entrega do patrimônio e da verba pública ao setor privado também se dá nos subsídios que o Estado paga a cada usuário das linhas privatizadas. Atualmente, este subsídio entregue varia de R$2,35 a R$6,32 a mais por passageiro transportado, um aumento nos gastos dos cofres públicos de até 74%. Outro ponto que aprofunda este roubo são os investimentos de aproximadamente 10 bilhões que o governo do estado de São Paulo se propôs a investir nas reformas e sinalizações das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade antes da sua entrega à iniciativa privada, desviando dinheiro público e retirando dos grupos privados a carga de lidar com a complexidade das estruturas e obras da CPTM. A iniciativa privada então tem somente o papel de lucrar e desviar os investimentos públicos e abocanhar as estruturas já prontas.
Em São Paulo, a Trivia Trens — concessionária a qual foi entregue as linhas 11, 12 e 13 — integra o Grupo Comporte, liderado por Nenê Constantino, um dos principais conglomerados privados do setor de transportes, beneficiado pelo avanço das concessões ferroviárias. Esse conglomerado é também responsável pela operação da linha 7-Rubi, pelo fim do serviço 710, e, em Minas Gerais, pela gestão da Metrô BH, que gere o metrô de Belo Horizonte desde a privatização em 2023. A essa lista podemos adicionar empresas como Viação Piracicabana, Expresso União, Princesa do Norte, Breda e diversas outras operadoras de transporte rodoviário e ferroviário.
O processo da Trivia Trens, neste caso em particular, opera na mesma lógica da apropriação dos serviços públicos em favor de uma fração específica da burguesia nacional, formada por grandes grupos concessionários do transporte rodoviário e ferroviário. Sua lucratividade, como mencionado acima, depende menos da produção de riqueza do que da captura permanente de recursos públicos por meio de concessões, subsídios e garantias estatais. É justamente essa estrutura econômica que a luta dos ferroviários passa a enfrentar.
Junto à isso, as ocorrências de falhas nas linhas de trens e metrôs da cidade de São Paulo cresceram 27% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo levantamento da TV Globo, a média atual supera uma ocorrência por dia. Entre janeiro e junho, foram registradas 205 falhas, contra 161 no mesmo período do ano passado, sendo as linhas privatizadas, as que mais tiveram aumento em falhas em comparação ao último ano (a linha 7-Rubi, controlada pela TIC Trens, por exemplo, teve um aumento de 600% de falhas em comparação ao primeiro semestre de 2025).
No transporte urbano, os efeitos dessa política são evidentes. Para aumentar suas margens de lucro, concessionárias reduzem quadros de funcionários, cortam horas extras, pressionam trabalhadores a zerar bancos de horas e diminuem equipes essenciais de manutenção, operação e segurança. O resultado é previsível: mais falhas, mais atrasos, mais superlotação e mais insegurança para trabalhadores e usuários.
A alternativa impulsionada pela categoria ferroviária
A greve dos ferroviários demonstra que a defesa dos empregos e da qualidade do serviço público não pode ser separada da luta pela reversão das privatizações. Enquanto o patrimônio público permanecer subordinado aos interesses de grupos privados, cada nova concessão significará mais recursos públicos transferidos à capital, mais precarização do trabalho e piora das condições de vida da população.
A importância desta greve ultrapassa o conflito específico da CPTM. Ela cria melhores condições para unificar ferroviários, metroviários, trabalhadores da SABESP e demais categorias atingidas pela política de privatizações em São Paulo, assim como os próprios usuários das linhas de trem, que impulsionam o debate sobre a Tarifa Zero. A ofensiva do governo estadual se coaduna em um projeto sistemático de transferência dos setores estratégicos da economia para grandes grupos privados. Por isso, cada luta parcial que fortalece a organização dos trabalhadores também fortalece a resistência geral da classe contra esse projeto.
Com isso, somamos forças às reivindicações dos sindicatos dos ferroviários e defendemos o cancelamento imediato da concessão das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade à Trivia Trens e todas as demais concessões privadas, com o retorno definitivo das linhas à CPTM, além da manutenção de todos os empregos da CPTM, com absorção dos trabalhadores das empresas privadas, sem nenhuma demissão.
Nesse sentido, manifestamos apoio ao PL 730/2025 da ALESP, que autoriza o governo estadual a realocar trabalhadores das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade para outros órgãos públicos, protegendo os empregos diante das concessões, mas de forma crítica, pois trata-se de uma medida paliativa de garantia de emprego frente às privatizações. Sem a reestatização das linhas privatizadas, os trabalhadores do serviço metro-ferroviário continuarão a perder seus empregos e o desmonte que afeta toda a população continuará em curso.
Esses passos são essenciais para a acumulação de forças do setor ferroviário que, ao fortalecer sua organização sindical, ampliar a unidade com os usuários e demonstrar, na prática, os limites da gestão privada dos serviços públicos, contribui para enfraquecer o poder político e econômico da burguesia concessionária que hoje se beneficia da transferência permanente de patrimônio e recursos públicos.
Ressaltamos que a luta dos ferroviários contra às privatizações abre espaço para recolocar na agenda política a reestatização dos setores estratégicos da economia e fortalecer a organização independente da classe trabalhadora. Quanto mais categorias se incorporarem a essa luta — metroviários, trabalhadores da SABESP, da energia, dos transportes e dos demais serviços públicos — maiores serão as condições de enfrentar o programa de privatizações imposto pelo governo paulista e pelos interesses do grande capital.
A luta pela reestatização da CPTM, do Metrô, da SABESP e dos demais setores estratégicos não responde apenas às necessidades imediatas dos trabalhadores dessas categorias. Ela faz parte da luta para recuperar o controle público dos setores estratégicos do nosso país. É nessa direção que a greve dos ferroviários aponta: transformar uma resistência contra as demissões em um movimento capaz de ampliar a unidade da classe trabalhadora, acumular forças contra o projeto neoliberal e abrir caminho para a nacionalização dos setores estratégicos da economia sob controle dos trabalhadores e da população.