Tensões diplomáticas entre Brasil, Argentina e EUA expõem os limites da diplomacia liberal

A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, as sanções comerciais impostas pelo governo Trump e as provocações de Javier Milei expõem fracasso de organismos multilaterais e da conciliação

19 de Setembro de 2026 às 0h00

Presidente Lula em encontro com Donald Trump, presidente dos EUA, na Malásia, em outubro de 2025. Lula buscou, em diversos momentos, assumir tons de mediação e concessão na relação com Trump, com disposição, inclusive, a leiloar o acesso às terras raras brasileiras como parte da negociação. Foto: Ricardo Stuckert/PR

O início de agosto foi marcado por uma série de rusgas diplomáticas do Brasil com a Argentina e, principalmente, com os Estados Unidos. A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, as sanções comerciais impostas pelo governo Trump e as provocações de Javier Milei expõem a postura e os laços internacionais da extrema-direita. Esses episódios demonstram que, com a crise da hegemonia do capital imperialista norte-americano e o acirramento da disputa interimperialista por rotas comerciais, matérias primas e zonas de influência, a aposta na conciliação e em organismos multilaterais falidos só atrasam a superação da crise internacional do capitalismo.

Antes, no dia 25 de julho, Javier Milei esteve no Brasil em encontro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). O presidente argentino foi recebido com uma série de honrarias. Em evento do PL, Milei proferiu uma série de ofensas ao Presidente Lula, levando o Itamaraty a rebaixar as relações diplomáticas estabelecidas com a Argentina. Em contrapartida, no dia 6 de agosto, Flávio Bolsonaro esteve no país vizinho. As recíprocas visitas demonstram um processo de aproximação da extrema-direita dos dois países, junto com a agitação de uma subordinação aberta em relação aos interesses do capital estadunidense, levando ao desgaste das relações diplomáticas entre o Brasil e um dos seus maiores parceiros comerciais.

Mas esse não foi o problema mais grave enfrentado nas relações internacionais do governo Lula nesse período; tivemos também uma série de desgastes entre o Itamaraty e a diplomacia do Governo Trump. O conflito, nesse momento, ocorreu em torno de duas questões principais: a alocação dos diplomatas de cada nação nas embaixadas um do outro e a regulação das taxas comerciais que têm sido razão de atrito há meses. Esses movimentos carregam consigo, em sua base, interesses relativos a reestruturação de poder global dos EUA e, particularmente na ofensiva contra o Brasil, a regulação das big techs estadunidenses, disputa pelo monopólio das terras raras brasileiras e pelo controle do mercado de meios de pagamento no Brasil. 

O governo brasileiro frente à ofensiva estadunidense

Desde sua eleição, Trump ainda não havia nomeado um diplomata para assumir o posto na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília. No dia 1º de junho, Trump nomeou Daniel Perez. A tradição diplomática afirma que a nomeação de um embaixador deve ser aceita pelo país que irá recebê-lo antes que o nome seja anunciado publicamente, de forma que o anúncio sem esse crivo é uma quebra dos ritos normais. Nesse ponto, o Governo brasileiro afirma que não foi consultado, enquanto a Casa Branca afirma que tem tentado contatar o Itamaraty incessantemente sobre esse tópico, mas não tem obtido resposta, como indica a reportagem do G1.

Em resposta a esse cenário de teatro diplomático, os Estados Unidos ainda revogaram o visto da atual embaixadora do Brasil em seu território, Maria Luiza Viotti, em apenas mais uma movimentação de várias que retiraram vistos de figuras proeminentes ligadas ao governo brasileiro e que são acusadas de perseguir politicamente Jair Bolsonaro - evidenciando mais uma vez os estreitos laços entre o governo de extrema-direita dos EUA e a brasileira.

Não bastasse esse episódio, segue-se os desgastes entre as duas nações referentes às taxas comerciais impostas por Trump ao Brasil. No final de julho ainda, o Brasil recorreu a OMC, em mais uma tentativa de denunciar e reverter o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional brasileiro. A ação do governo brasileiro em recorrer à OMC semeia a ilusão da esperança em um sistema multilateral e “democrático” que tem se mostrado cada vez mais falido. Se as instituições multilaterais e o sistema de relações diplomáticas em torno da ONU sempre foram parciais e limitados, agora elas têm caminhado a passos largos para à obsolescência. 

Esse paradigma liberal de democracia e liberdade sempre foi seletivo e insuficiente. Os clamores pela paz não impediram a existência de uma série de conflitos pró interesses dos Estados Unidos, como a Guerra do Iraque, o conflito na Ucrânia e o massacre do povo palestino. Os mecanismos de mediação desse complexo de instituições internacionais nunca foi neutro, mas havia ainda algum nível de relevância política sob o cenário de hegemonia incontestável dos EUA. 

Desde a eleição do primeiro Governo Trump, resultado da crise nos Estados Unidos e da sua gradativa perda de hegemonia econômica global, a relevância dessas instituições multilaterais têm decaído, também porque seu principal fundador e interessado as tem delegado a segundo plano. No governo Trump II, o abandono do diálogo, da reciprocidade e da busca por boas relações ocorreu junto ao aumento de políticas tarifárias abusivas, intervenções explícitas na política externa e um tom cada vez mais belicista. 

Cabe apontar, porém, que essa intensificação do caráter explicitamente violento da política externa norte-americana não é novidade, mas apenas um aprofundamento de um intervencionismo e de uma política externa que já estavam antes presentes. Agora, com a pressão da crise econômica sobre a maior potência capitalista, o aumento das disputas internacionais por mercado e a ascensão da China como uma nova grande potência imperialista, a diplomacia deve dar cada vez mais espaço ao conflito direto.

A própria política internacional do Governo Lula aprofunda as ilusões no entorno do problema e acaba por considerar os atuais desgastes como um mero desvio de rota, causado por uma beligerância atribuída apenas a Trump. A nítida aposta é aguardar que os eleitores estadunidenses “possam fazer uma escolha” que diminua os problemas dos brasileiros, vista a intransigência diplomática de Trump e Rubio. É fato, porém, que apesar dos ataques que têm sido proferidos a tempos por Trump, Lula buscou, em diversos momentos, assumir tons de mediação e concessão, com disposição, inclusive, a leiloar o acesso às terras raras brasileiras como parte da negociação.

Há quem possa argumentar que não só essa postura aberta ao diálogo é típica da tradição diplomática liberal do Brasil, como que o Governo Lula não teria opções mediante a inegável incapacidade do país, hoje, em bater de frente comercial e militarmente com os Estados Unidos. Mesmo sendo as duas afirmações verdadeiras, é importante ressaltar como essa fraqueza do Brasil tem sido alimentada pelas próprias escolhas do Governo Lula, com o constante desmonte e privatização de setores estratégicos da economia brasileira. 

Esse erro de leitura da situação internacional e o do verdadeiro problema do Governo Trump deriva das bases políticas do próprio petismo: a confiança na democracia burguesa, a nível nacional e internacional; a crítica à políticas de extrema-direita apenas nos termos nos quais essa rompe com o republicanismo democrático-burguês; a condução das disputas polêmicas “a frio”, com o desmonte das mobilizações de base; e uma subestimação da luta de classes como fator político fundamental. 

A manutenção das relações de dependência, reforçadas pela política social-liberal do Governo Lula, que mantém o país com condições muito limitadas para o desenvolvimento de uma verdadeira soberania, mantém o país de joelhos frente aos interesses dos capitais estrangeiros, sejam os de origem estadunidense ou chinesa. Sem o rompimento com as relações de dependência, que só pode se dar através de uma estratégia socialista, o que se segue é a manutenção da política de submissão aos interesses dos países centrais: privatização e concessão dos setores estratégicos da produção, desmonte do programa nuclear brasileiro e outras inúmeras políticas que tornam qualquer enfrentamento real muito difícil.