Tensões diplomáticas entre Brasil, Argentina e EUA expõem os limites da diplomacia liberal
A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, as sanções comerciais impostas pelo governo Trump e as provocações de Javier Milei expõem fracasso de organismos multilaterais e da conciliação

Presidente Lula em encontro com Donald Trump, presidente dos EUA, na Malásia, em outubro de 2025. Lula buscou, em diversos momentos, assumir tons de mediação e concessão na relação com Trump, com disposição, inclusive, a leiloar o acesso às terras raras brasileiras como parte da negociação. Foto: Ricardo Stuckert/PR
O início de agosto foi marcado por uma série de rusgas diplomáticas do Brasil com a Argentina e, principalmente, com os Estados Unidos. A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, as sanções comerciais impostas pelo governo Trump e as provocações de Javier Milei expõem a postura e os laços internacionais da extrema-direita. Esses episódios demonstram que, com a crise da hegemonia do capital imperialista norte-americano e o acirramento da disputa interimperialista por rotas comerciais, matérias primas e zonas de influência, a aposta na conciliação e em organismos multilaterais falidos só atrasam a superação da crise internacional do capitalismo.
Antes, no dia 25 de julho, Javier Milei esteve no Brasil em encontro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). O presidente argentino foi recebido com uma série de honrarias. Em evento do PL, Milei proferiu uma série de ofensas ao Presidente Lula, levando o Itamaraty a rebaixar as relações diplomáticas estabelecidas com a Argentina. Em contrapartida, no dia 6 de agosto, Flávio Bolsonaro esteve no país vizinho. As recíprocas visitas demonstram um processo de aproximação da extrema-direita dos dois países, junto com a agitação de uma subordinação aberta em relação aos interesses do capital estadunidense, levando ao desgaste das relações diplomáticas entre o Brasil e um dos seus maiores parceiros comerciais.
Mas esse não foi o problema mais grave enfrentado nas relações internacionais do governo Lula nesse período; tivemos também uma série de desgastes entre o Itamaraty e a diplomacia do Governo Trump. O conflito, nesse momento, ocorreu em torno de duas questões principais: a alocação dos diplomatas de cada nação nas embaixadas um do outro e a regulação das taxas comerciais que têm sido razão de atrito há meses. Esses movimentos carregam consigo, em sua base, interesses relativos a reestruturação de poder global dos EUA e, particularmente na ofensiva contra o Brasil, a regulação das big techs estadunidenses, disputa pelo monopólio das terras raras brasileiras e pelo controle do mercado de meios de pagamento no Brasil.
O governo brasileiro frente à ofensiva estadunidense
Desde sua eleição, Trump ainda não havia nomeado um diplomata para assumir o posto na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília. No dia 1º de junho, Trump nomeou Daniel Perez. A tradição diplomática afirma que a nomeação de um embaixador deve ser aceita pelo país que irá recebê-lo antes que o nome seja anunciado publicamente, de forma que o anúncio sem esse crivo é uma quebra dos ritos normais. Nesse ponto, o Governo brasileiro afirma que não foi consultado, enquanto a Casa Branca afirma que tem tentado contatar o Itamaraty incessantemente sobre esse tópico, mas não tem obtido resposta, como indica a reportagem do G1.
Em resposta a esse cenário de teatro diplomático, os Estados Unidos ainda revogaram o visto da atual embaixadora do Brasil em seu território, Maria Luiza Viotti, em apenas mais uma movimentação de várias que retiraram vistos de figuras proeminentes ligadas ao governo brasileiro e que são acusadas de perseguir politicamente Jair Bolsonaro - evidenciando mais uma vez os estreitos laços entre o governo de extrema-direita dos EUA e a brasileira.
Não bastasse esse episódio, segue-se os desgastes entre as duas nações referentes às taxas comerciais impostas por Trump ao Brasil. No final de julho ainda, o Brasil recorreu a OMC, em mais uma tentativa de denunciar e reverter o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional brasileiro. A ação do governo brasileiro em recorrer à OMC semeia a ilusão da esperança em um sistema multilateral e “democrático” que tem se mostrado cada vez mais falido. Se as instituições multilaterais e o sistema de relações diplomáticas em torno da ONU sempre foram parciais e limitados, agora elas têm caminhado a passos largos para à obsolescência.
Esse paradigma liberal de democracia e liberdade sempre foi seletivo e insuficiente. Os clamores pela paz não impediram a existência de uma série de conflitos pró interesses dos Estados Unidos, como a Guerra do Iraque, o conflito na Ucrânia e o massacre do povo palestino. Os mecanismos de mediação desse complexo de instituições internacionais nunca foi neutro, mas havia ainda algum nível de relevância política sob o cenário de hegemonia incontestável dos EUA.
Desde a eleição do primeiro Governo Trump, resultado da crise nos Estados Unidos e da sua gradativa perda de hegemonia econômica global, a relevância dessas instituições multilaterais têm decaído, também porque seu principal fundador e interessado as tem delegado a segundo plano. No governo Trump II, o abandono do diálogo, da reciprocidade e da busca por boas relações ocorreu junto ao aumento de políticas tarifárias abusivas, intervenções explícitas na política externa e um tom cada vez mais belicista.
Cabe apontar, porém, que essa intensificação do caráter explicitamente violento da política externa norte-americana não é novidade, mas apenas um aprofundamento de um intervencionismo e de uma política externa que já estavam antes presentes. Agora, com a pressão da crise econômica sobre a maior potência capitalista, o aumento das disputas internacionais por mercado e a ascensão da China como uma nova grande potência imperialista, a diplomacia deve dar cada vez mais espaço ao conflito direto.
A própria política internacional do Governo Lula aprofunda as ilusões no entorno do problema e acaba por considerar os atuais desgastes como um mero desvio de rota, causado por uma beligerância atribuída apenas a Trump. A nítida aposta é aguardar que os eleitores estadunidenses “possam fazer uma escolha” que diminua os problemas dos brasileiros, vista a intransigência diplomática de Trump e Rubio. É fato, porém, que apesar dos ataques que têm sido proferidos a tempos por Trump, Lula buscou, em diversos momentos, assumir tons de mediação e concessão, com disposição, inclusive, a leiloar o acesso às terras raras brasileiras como parte da negociação.
Há quem possa argumentar que não só essa postura aberta ao diálogo é típica da tradição diplomática liberal do Brasil, como que o Governo Lula não teria opções mediante a inegável incapacidade do país, hoje, em bater de frente comercial e militarmente com os Estados Unidos. Mesmo sendo as duas afirmações verdadeiras, é importante ressaltar como essa fraqueza do Brasil tem sido alimentada pelas próprias escolhas do Governo Lula, com o constante desmonte e privatização de setores estratégicos da economia brasileira.
Esse erro de leitura da situação internacional e o do verdadeiro problema do Governo Trump deriva das bases políticas do próprio petismo: a confiança na democracia burguesa, a nível nacional e internacional; a crítica à políticas de extrema-direita apenas nos termos nos quais essa rompe com o republicanismo democrático-burguês; a condução das disputas polêmicas “a frio”, com o desmonte das mobilizações de base; e uma subestimação da luta de classes como fator político fundamental.
A manutenção das relações de dependência, reforçadas pela política social-liberal do Governo Lula, que mantém o país com condições muito limitadas para o desenvolvimento de uma verdadeira soberania, mantém o país de joelhos frente aos interesses dos capitais estrangeiros, sejam os de origem estadunidense ou chinesa. Sem o rompimento com as relações de dependência, que só pode se dar através de uma estratégia socialista, o que se segue é a manutenção da política de submissão aos interesses dos países centrais: privatização e concessão dos setores estratégicos da produção, desmonte do programa nuclear brasileiro e outras inúmeras políticas que tornam qualquer enfrentamento real muito difícil.