“O SESC que você frequenta não é o que a gente trabalha!”
Na segunda parte da nossa reportagem sobre as cozinhas do SESC, mais relatos sobre as péssimas condições de trabalho e os recorrentes assédios pelos quais passam os trabalhadores da instituição

Cozinha de uma das unidades do SESC, São Paulo (SP). Trecho de vídeo cedido ao Jornal O Futuro
Após a publicação da primeira matéria, na qual foram veiculadas diversas denúncias de funcionários do setor da cozinha e alimentação do SESC sobre suas condições de trabalho, e na qual foi lançado uma campanha de coleta de denúncias, recebemos uma grande leva de novos relatos sobre as condições de trabalho nesta empresa. As denúncias vêm de diversas unidades e de diversos setores, ampliando a visão do cenário de exploração, assédio moral e hipocrisia que marca essa famosa instituição paulista.
Segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), o setor representa quase 8% dos empregos formais, com mais de 4,9 milhões de pessoas. Apesar desses trabalhadores serem representados sindicalmente pela Senalba-SP (Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas, de Assistência Social, de Orientação e Formação Profissional no Estado de São Paulo), as condições de trabalho continuam péssimas e as denúncias não param de chegar.
Muitos pontos da primeira matéria foram reforçados, como a falta de funcionários e o acúmulo de função nas cozinhas. Um ex-funcionário diz:
“Excesso de trabalho, fazer serviço de 2 ou 3 pessoas porque o quadro de funcionários nunca está completo, e mesmo quando está completo, o número de pessoas restritas é sempre muito alto, não podendo exercer todas as funções do setor pela sua limitação física, que na maioria dos casos foi adquirido na empresa. [...] máquinas de lavar louça e máquinas de lavar as panelas sempre com problemas, não funcionando corretamente, isso quando nem funciona fazendo com que os funcionários tenham que lavar toda a louça de pelo menos 1 mil almoços na mão”.
O funcionário inclusive mandou um vídeo do estado da cozinha, mostrando a carga de trabalho braçal a qual estão submetidos.
Segundo uma pesquisa da Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, entre 2010 e 2020, cerca de 12% dos acidentes de trabalho no Brasil estão no setor de alimentos, com 65% se concentrando no segmento de restaurantes e serviços de alimentação. Já o Ministério do Trabalho e Emprego identificou que de 2021 a 2025 houve um crescimento médio de 11% por ano nos acidentes de trabalho, o que revela o avanço da precarização do trabalho no país em geral e a necessidade de se fortalecer o trabalho sindical.
No SESC o cenário se repete. A carga de trabalho gera um desgaste físico e mental enorme, o que leva a uma série de lesões nos trabalhadores. Muitos relataram essa situação de saúde atroz, assim como o descaso do SESC com a situação e — ainda pior — o esforço ativo da gerência de barrar idas ao médico e praticar assédio moral em cima da entrega de atestados.
“eu lavava louça das 14h até as 22h em uma sala cheia, muita louça, desumano, fui mandada embora porque dei atestado pois peguei doença na unha de tanto lavar louça e ficar molhada”;
“O ambiente sempre foi extremamente abusivo. Não podíamos nem sentar. Retiraram todas as cadeiras para nos manter de pé durante o expediente. Chegamos a relatar esses absurdos diversas vezes para a médica do trabalho, mas como ela era vinculada ao próprio Sesc, nada foi feito [...] O “presente” que o Sesc Carmo nos deixou foram traumas e problemas de saúde que carregamos até hoje.”
O cenário de vigilância é constante, com os funcionários sendo obrigados a trabalhar sob condições degradantes e prejudiciais para a saúde. Além do agravamento da saúde física dos trabalhadores, é comum o aumento dos problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão na força de trabalho. Esse também é um fenômeno generalizado no Brasil, que lidera o ranking mundial de transtorno de ansiedade e está entre os primeiros na taxa de depressão.
“trabalhamos como se estivéssemos ganhando por produção, é o tempo todo em pé, correndo de um lado para o outro com aos olhares de supervisores, que parecem mais capatazes ou cães de guarda, sem sensibilidade alguma [...]; Sem contar no calor excessivo em alguns setores; Pegamos peso, empurramos carrinhos pesados; A grande maioria fazem uso de medicação para ansiedade; [...] A falta de funcionários faz com que trabalhemos por dois ou três, sobrecarregando e adoecendo, e quando falamos que estamos doente, manda a gente ir ao médico, mas depois vem as piadas falando que haverá cortes pra quem dá muito atestado; [...] Mas o pior de tudo isso é a infestação de baratas e ratos, trabalhamos inalando urina de rato, com ratos passeando em áreas que estamos”
As péssimas condições de trabalho também são acompanhadas por assédio moral da gerência, como ameaça de demissões, represália por uso de atestado e punições diversas que servem para disciplinar os trabalhadores e manter as péssimas condições.
“Um de seus feitos [de um então gerente da unidade de Campinas] foi dizer a uma funcionária da alimentação que tem até hoje problemas na coluna que ela era um zero a esquerda, pois não ajudava a equipe: detalhe, a funcionária estava prestes a fazer uma cirurgia e o então gerente queria convencê-la a fazer um acordo e pedir demissão.”
O abuso e exploração em torno dos horários de trabalho, como o excesso de horas extras e o bloqueio de folgas, também foram relatados novamente.
Escala 6x1 sem direito a domingo e banco de horas como prisão
Uma das pautas mais importantes dos últimos anos que nosso campo conseguiu colocar no debate público é a luta pelo fim da Escala 6x1. O PCBR historicamente defende o fim da Escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 30h semanais, sem redução salarial, e desde o início estiveve construindo os atos de rua. Apesar do avanço no debate, é insuficiente os projetos apresentados atualmente, que buscam diluir a proposta original, atendendo aos interesses dos patrões.
Uma trabalhadora da alimentação, em uma unidade da região metropolitana, descreve um regime que fere a legislação trabalhista e a dignidade mínima:
“Nossa escala de trabalho é de 6x1. Nós mulheres não temos direito aos domingos corretos perante a lei. Trabalhamos 5 domingos para folgar 1. Não temos direito a hora extra, somente banco de horas, no qual é quase impossível tirar, porque nunca tem funcionário e eles quase não permitem nossa folga. Os gerentes sempre pedem para fazermos horas a mais e nada de folga. Eles folgam um final de semana sim e um não.”
Outra funcionária da cozinha complementa com um exemplo cruel da segregação vivida pelos trabalhadores da alimentação:
“Há um tratamento diferenciado comparado aos demais funcionários. Na festa de confraternização do ano passado, enquanto todos foram só para confraternizar, colaboradores da cozinha foram escalados para trabalhar por umas horas, com a promessa de um possível dia de folga – lembrando que a confraternização foi na segunda-feira, único dia de folga garantido que temos. Trabalhamos em pé o dia todo, muitas vezes sem tempo para tomar um copo d’água. Banheiro? Somente no horário de pausa para refeição. As folgas são a cada 7 semanas. Os funcionários estão adoecendo – e isso sem restrição: são todos.”
Assédio moral como método de gestão: gritos, humilhação e a “piada” como disfarce
A Justiça do Trabalho informou que no ano de 2025 recebeu mais de 142 mil denúncias de assédio moral no trabalho, um aumento de 22% em relação a 2024. Foram mais de 450 mil casos entre 2020 e 2024. Essa tendência de aumento revela que a situação nos locais de trabalho sempre foram ruins e é preciso que a classe trabalhadora se organize para lutar por melhores condições. Diversos relatos apontam que o assédio moral não é um desvio pontual, mas uma ferramenta de controle cotidiana.
Uma auxiliar de alimentação relata “As nutricionistas são as piores: gritam com os funcionários.”
O assédio também se disfarça de “brincadeira”, como apontado nos pontos gerais da campanha. Uma funcionária do setor de Programação expõe a profundidade do problema:
“O Sesc vende cidadania às custas da saúde dos empregados. Já vi colegas chorarem no banheiro, serem humilhados por usuários e por gestores sem qualquer tipo de intervenção ou respaldo. Frases misóginas, racistas e preconceituosas são o dia a dia das unidades.”
Ela relata que um gerente, após diversas denúncias de assédio, foi apenas transferido para outra unidade: “Nada foi feito a respeito.”
A lógica da transferência
A confirmação de que gerentes que praticam assédio moral não são demitidos ou demovidos, apenas transferidos de unidade, aparece em múltiplos depoimentos. É um sistema que protege o agressor e espalha o problema para outras unidades. A mesma funcionária denuncia um grupo de trabalhadores do setor administrativo que usava o ambiente de trabalho para piadas de cunho sexual e comentários sobre corpos de colegas mulheres. E aponta a ineficácia dos programas institucionais:
“Embora exista o programa ‘Você não está sozinha’, ele não ajuda nada. As pessoas vão às palestras, mas saem fazendo piada. Ou, quando há treinamentos online, o próprio supervisor afirma colocar na velocidade 2.0 para acabar rápido.”
Terceirizados: a camada invisível da exploração
Uma trabalhadora terceirizada da limpeza revela que o Sesc também exerce controle direto sobre os terceirizados, muitas vezes ignorando denúncias ou removendo quem reclama:
“Meu supervisor é um homem machista que menospreza mulher. Aos auxiliares homens ele trata de um jeito; eu, por ser mulher, ele simplesmente me ignora. Não fala as funções que tenho que fazer, e quando fala, são funções que caberiam a ele. Mas o Sesc não acredita porque eu sou da terceirizada, e manda tirar a pessoa que reclama. Eu tive crise e fiquei com atestado de depressão; quando voltei, me mandaram para a base porque o supervisor não achava que eu servia mais.”
Ela acrescenta que terceirizados da limpeza também são usados para “tapar buraco na cozinha do Sesc”, e que supervisores deixam sua carga de trabalho nas costas deles.
Adoecimento em massa e o fracasso dos programas de acolhimento
O uso generalizado de medicação controlada para ansiedade e depressão é mencionado por praticamente todos os setores. Uma funcionária critica o programa de acolhimento psicológico:
“O programa não dá conta de ajudar uma pessoa que está adoecendo, pois você só pode usar 6 sessões. E se tentar passar em um profissional pelo plano de saúde, é melhor desistir, pois quase não é possível conseguir atendimento. Todos os meus colegas tomam medicação controlada para suportar as escalas, os gestores mal preparados e os assédios de todos os lados.”
“Resort do povão” ou resort de conselheiros? A pressão nos pacotes especiais
Um funcionário da alimentação, que pediu anonimato, revela uma face ainda mais perversa do Sesc: o tratamento de luxo para conselheiros e autoridades, às custas da saúde dos trabalhadores.
“Essa pressão para que tudo seja perfeito se torna ainda maior porque o Sesc, que se vende como ‘resort do povão’, é na realidade um resort de conselheiros, superintendentes, coordenadores, diretores e até figuras políticas. Quando chega a época dos pacotes especiais – inclusive um chamado CCV (Conselho do Comércio Varejista), um evento fechado onde o Sesc promove por alguns dias experiência de luxo para seus hóspedes exclusivos – a cobrança por perfeição é extrema. Entre os funcionários e gestores rola a seguinte conversa: ‘precisa tudo ser perfeito porque eles quem definem nosso aumento de salário’. Os conselheiros podem tudo, são os poderosos do Sesc, e todos temos que tratá-los como reis e rainhas.”
Essas práticas abusivas revelam também como os trabalhadores são vistos pelos patrões. Nessa dinâmica, as empresas também atua na fragmentação da identidade de classe dos trabalhadores, colocando funcionários de cargos mais altos contra os da base.
O funcionário relata ameaças diretas:
“Chegamos a ser ameaçados de que, se pegássemos atestado nesses pacotes especiais, poderíamos sofrer consequências. Muitos trabalharam doentes com medo de ir ao médico e precisar pegar atestado.”
Quem é promovido? A lógica da submissão
O mesmo funcionário anônimo resume o que dezenas de relatos apontam:
“O Sesc não demite tão fácil, mas pode te deixar por anos ali no esquecimento e desprezo. Funcionários que são submissos, que aceitam tudo sem questionar, que fazem fofocas e levam e trazem para a liderança – esses sim estão dentro do perfil esperado pelo Sesc. Essas pessoas que ‘babam ovo’ de líderes têm chances de crescer. São protegidos. Não importa se trabalham bem ou não. O importante é serem submissos.”
Um trabalhador da administração central ecoa o sentimento de invisibilidade:
“Estamos sujeitos a mudanças de horário repentinas sem prévio aviso. Se questionamos, levamos advertência por escrito. Tudo que fazemos é sempre para o benefício dos que estão um cargo acima de nós. Somos excluídos e invisíveis até mesmo por aqueles que deveriam estar ao nosso lado – coordenadores, encarregados e supervisores.”
O Sesc que você frequenta não é o que eles trabalham
A frase que dá título a esta matéria – dita por uma trabalhadora que preferiu não se identificar para não sofrer represálias – sintetiza a contradição central: a instituição paulista que vende cidadania, cultura, lazer e qualidade de vida para o público opera, nos bastidores, com uma lógica de exploração, assédio estrutural e descaso com a saúde de seus próprios funcionários.
Os relatos chegaram de unidades da capital, da grande São Paulo e do interior. A campanha de coleta de denúncias continua aberta. O SESC-SP foi procurado para comentar os casos, mas até o fechamento desta edição não houve resposta.
Caso você, trabalhadora ou trabalhador do SESC, tenha passado por situação semelhante, envie seu relato para o canal de denúncias. O anonimato é garantido.