Greve dos Bancários: disposição de luta e contradições sindicais
Bancários seguem mobilizados e lutam contra a pressão dos patrões e as vacilações da federação cutista

Foto: Jornal O Futuro
Por Eduardo Machado
As recentes paralisações dos bancários escancaram a grande contradição da relação capital-trabalho. Enquanto os banqueiros acumulam mais de R$ 171 bilhões de resultado líquido das operações do ano fiscal de 2025, os bancários vêm de anos de Convenções Coletivas de Trabalho em que os banqueiros propõem arrochos salariais, cortes de benefícios e supressão de direitos históricos.
Em 2024, as demandas iniciais dos trabalhadores consistiam na garantia do INPC + 5% de ganho real, proposta que foi sumariamente rechaçada pela FENABAN (Federação Nacional dos Bancos), o sindicato patronal dos conglomerados financeiros. Mesmo com constantes negativas da categoria, o acordo foi fechado de maneira extremamente frustrante para os trabalhadores. Em assembleias recorrentes dos Sindicatos dos Bancários, ligados à CONTRAF-CUT, que dispõe de aproximadamente 90% da categoria, a direção oferecia a mesma proposta assembleia após assembleia, sem deflagração de greve e buscando vencer a categoria pelo esgotamento para obter a aceitação da proposta e encerrar a campanha.
Com todas essas manobras, a CCT 2024/2025 fechou com INPC + 0,7% para 2024 e INPC + 0,6% para 2025, sem ao menos 1% de ganho real em nenhum dos anos. Toda essa bagagem da CCT anterior se reflete na CCT 2026/2027. Há um ponto de inflexão por parte da patronal, que oferece o INPC + 0,6% para cada ano de vigência do acordo, tratado como deboche por parte dos trabalhadores que enfrentam não apenas a pressão patronal, mas também a da federação sindical dos bancários pela aceitação.
CONTRAF-CUT e a descrença no movimento sindical
Uma das formas de desmobilização da categoria é a de picotar a Convenção, particularmente pelo fato de termos uma economia fortemente financeirizada e dependente de instituições financeiras sólidas. Transformam assim a CCT, algo tratado entre a federação patronal e os sindicatos de trabalhadores, em algo difuso e sem a solidez que uma categoria de aproximadamente 400 mil trabalhadores demanda.
Esses movimentos ocorreram da seguinte maneira. Primeiramente os bancos privados votaram apenas a CCT, dado que não possuem um Acordo Coletivo de Trabalho específico. Já os bancos públicos tiveram que votar os dois temas juntos, retirando o direito do trabalhador, enquanto categoria, de escolher entre a aprovação de um ou de outro.
Buscando impedir uma greve nacional de toda a categoria, a CONTRAF-CUT buscou contabilizar a proporção de votantes levando em conta apenas os trabalhadores do setor privado. Essa manobra não foi um fato isolado. A direção utilizou-se ainda de que a base de São Paulo conta com mais de 120 mil bancários, sendo o maior quadro do país, como fator preponderante para a assinatura da Convenção, desrespeitando as decisões de outros estados.
As manobras para minar a disposição de luta da categoria foram variadas. Mesmo com bases consideráveis rejeitando o acordo, a tática de desmobilização passou por dividir as votações: quando o acordo fosse recusado, a linha dos sindicatos era que as direções sindicais “voltassem à mesa de negociação”, mas sem greve. A segunda votação, pós-rejeição do acordo, contrapunha então a greve ao retorno às negociações.
A aposta pela desmobilização da greve a partir das maiores bases, particularmente no caso de São Paulo, dividiu a categoria e enfraqueceu a própria capacidade dos trabalhadores de unificarem as lutas em todo o país. Nas bases onde foi aceito o “retorno à mesa, mas sem greve”, a resposta do Banco do Brasil foi, como já denunciavam as oposições sindicais e as bases da Bahia, Rondônia, Maranhão, Roraima e Pará, de não aceitar quaisquer demandas.
A CONTRAF-CUT semeou a ilusão de que se trataria de uma questão de convencimento, e não de organização da força da categoria para impor suas demandas. Essa ilusão levou ao fortalecimento da posição do banco e do governo federal. Após o golpe consumado em São Paulo, as bases de Belo Horizonte, Distrito Federal e Rio de Janeiro passaram ao primeiro plano na tática pelega de desmobilização e divisão da categoria, o que inviabilizou a greve nacional.
Tais manobras nada entregam aos trabalhadores, à exceção de desilusões e descrenças. Elas colaboram para que diversos bancários se desfiliem e emitam cartas de oposição ao desconto da cota negocial, como forma de protesto contra a estrutura sindical posta, enfraquecendo ainda mais a ferramenta de luta coletiva dos trabalhadores.
Ao pressionar pela aceitação de pautas mínimas, com acordos extremamente rebaixados para os trabalhadores, a federação sindical cria um ambiente em que se retroalimentam a descrença e a desconfiança na luta organizada. Acordos ruins culminam em menores receitas, devido às desfiliações, deixando o sindicato mais vulnerável e com menor capacidade de intervenção ao longo do tempo. Forma-se um ciclo vicioso de destruição da capacidade de organização e mobilização da categoria.
Categoria segue mobilizada
Apesar das derrotas da categoria junto aos setores privados e no Banco do Brasil, os bancários da Caixa Econômica Federal (CEF) seguem sustentando a mobilização, sem ceder às chantagens patronais, que são endossadas pelo Comando Nacional de Negociação da CONTRAF-CUT. O Sindicato dos Bancários de São Paulo se destaca negativamente e insiste na desarticulação da greve, que foi iniciada em 10 de setembro, alegando que a proposta apresentada é a última da CEF. A pressão para dobrar a categoria se dá por afirmações de que “se não for assinado o acordo, os trabalhadores perderão tudo o que possuem até agora”. Mesmo com tais ameaças, aproximadamente 70% da base de trabalhadores do estado disseram não e sustentaram a manutenção da greve. Se levarmos em conta as contagens em outros estados, sobem a 90% os números pela rejeição.
Como forma de retaliação, a CEF busca desvincular o tema do plano de saúde do ACT, sendo que o tema da Saúde da Caixa é justamente a principal bandeira do movimento grevista. A proposta patronal é o aumento do desconto do custeio de 6,5% para 8% na folha de pagamento, valor previsto no estatuto da empresa desde 2017. Enquanto isso, os trabalhadores reivindicam a aplicação do 70/30, em que a empresa custeia 70% do valor do plano e os trabalhadores arcam com 30%, corrigindo uma discrepância do ônus do desequilíbrio financeiro que acaba sendo jogado no colo do trabalhador.
A alteração para o 70/30 não é absurda. A própria CONTRAF-CUT denunciava, em 2025, a tática da CEF de transferir os custos do plano para os empregados e inviabilizar o 70/30, que era a norma até então. O fim do teto de 6,5% no custeio da folha de pagamento da Caixa é essencial para que o ônus não siga avançando sobre as costas dos trabalhadores.
Com a CGPAR 52, de 2024, que revogou a antiga CGPAR 42 — a qual limitava os planos de saúde, autogestionáveis ou não, a uma divisão de 50/50 no custeio —, abriu-se a possibilidade de alterar essa participação. Com a atualização da SEST (Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais), toda estatal foi autorizada a alterar, mediante Acordo Coletivo de Trabalho, a participação para até 70% no custeio de planos, independentemente da modalidade, e é nesse sentido que a categoria vem pressionando a direção da empresa.
A Caixa Saúde, como a CASSI para o BB, é um plano de autogestão em que as instituições podem arcar com 70% dos custos dos planos por funcionário. Porém, sob a lógica de amplificar os lucros do banco, além de rebaixar salários, a empresa acaba por operar em uma situação de sucateamento de todas as instâncias que permeiam a relação de trabalho. Não é, portanto, por falta de dinheiro que se forma essa situação atual, mas em decorrência da visão que preconiza a necessidade de garantir a maior extração de lucros sobre a força de trabalho dos bancários e bancárias.
A confederação sindical vacila: não só deixa de apoiar a greve, como trabalha de forma deliberada pela sua implosão. Apesar disso, os bancários encontram um ponto de apoio nos blocos de oposição sindical, que vêm emergindo em meio aos antagonismos crescentes entre a disposição de intervenção sindical e as demandas materiais dos trabalhadores.
Como noticiado em setembro, dois blocos de oposição têm atuado com firmeza para a construção da greve: o Alternativa Bancária, bloco de oposição do Distrito Federal, e o Bancários e Luta, oposição sindical à atual gestão do sindicato na Bahia. Ambos dão amplo apoio aos trabalhadores, tanto do BB quanto da CEF. Isso aponta diretamente para um entendimento: o caminho para novas conquistas passa pela formação de blocos de oposição, que devem atuar também para ganhar força entre os trabalhadores de bancos privados, buscando unificar as lutas no setor. Passa, ainda, pela disputa do aparato sindical para a construção das lutas e a organização da categoria, dado que as direções atuais nada têm a oferecer à categoria, a não ser o rebaixamento das lutas.
Esse acúmulo de contradições evidencia algo que há tempos apontamos: a necessidade de fazermos emergir um novo campo de sindicalismo classista, capaz de disputar corações e mentes, que seja o vetor de superação de toda a frustração acumulada pela categoria, diante das contradições da relação capital-trabalho. Construir as bases dessa ferramenta coletiva de disputa precisa estar na ordem do dia não apenas dos bancários, mas também de todos os trabalhadores que pouco têm a perder e muito a conquistar com um direcionamento baseado em sua própria disposição de lutar por melhores condições de trabalho e de vida.