A greve nacional da Caixa e a ofensiva aos trabalhadores

Os empregados da Caixa estão em greve em diversas regiões do país. A paralisação colocou novamente o Saúde Caixa no centro da campanha salarial, com os trabalhadores rejeitando as propostas do banco e mantendo a defesa do fim do teto de 6,5% e do modelo de custeio 70/30.

16 de Setembro de 2026 às 0h00

Ato dos funcionários da Caixa em frente à sede da presidência do banco em Brasília. Foto: SEEB-DF.

Por Rhuan Maciel

Os empregados da Caixa estão em greve em diversas regiões do país. A categoria decidiu cruzar os braços diante da intransigência da direção do banco e da insuficiência das propostas apresentadas para o ACT. Entre as principais reivindicações estão a recomposição salarial e a preservação dos direitos dos empregados, além de questões específicas como o fim do teto de 6,5% para o custeio do Saúde Caixa, a retomada do modelo de 70% de participação da Caixa e 30% dos empregados e a garantia de um plano sustentável para trabalhadores da ativa e aposentados.

A força da paralisação já foi demonstrada nacionalmente. Agências e prédios administrativos foram fechados em diferentes estados, com forte adesão dos empregados. Em São Paulo, por exemplo, 245 das 283 agências e todos os grandes prédios administrativos fecharam no primeiro dia de greve. A mobilização também se manteve diante da nova proposta apresentada pela Caixa durante a paralisação. 68% dos empregados de São Paulo rejeitaram as novas condições e decidiram continuar em greve, mesmo com o maior sindicato de bancários do país indicando sua aprovação.

Um ataque que vem de antes

A atual disputa pelo Saúde Caixa é resultado de um processo que se desenvolve há anos. A direção do banco mantém no Estatuto o teto de 6,5% da folha para sua participação no custeio do plano. Com isso, uma parcela cada vez maior das despesas pode acabar sendo absorvida pelos empregados.

Em 2025, a Caixa chegou a apresentar propostas que ampliavam a contribuição dos usuários. A mobilização daquele ano impediu que esse movimento avançasse, e o acordo firmado manteve as condições de custeio até agosto de 2026.

A questão também faz parte de uma política mais ampla de contenção de despesas. O governo Lula mantém o Novo Arcabouço Fiscal, baseado em limites para o crescimento das despesas primárias e no cumprimento de metas fiscais. A Caixa, embora seja uma empresa pública não dependente de recursos do Orçamento da União para seu custeio, opera dentro desse ambiente de política econômica e de pressão por controle de custos.

O arcabouço fiscal não criou o teto de 6,5% do Saúde Caixa, que é uma regra estatutária da própria Caixa. Existe, porém, uma disputa sobre como os custos são tratados. De um lado, está a pressão pela contenção das despesas. Do outro, está a defesa dos direitos dos trabalhadores e a definição de quem deve pagar por eles. No Saúde Caixa, essa disputa aparece diretamente na divisão do custeio entre a empresa e os empregados.

Em 2025, a direção da Caixa apresentou propostas que aumentavam a contribuição dos empregados, enquanto a representação dos trabalhadores defendia reajuste zero, o fim do teto de 6,5% e a retomada do modelo 70/30. A própria CONTRAF-CUT denunciava naquele momento a transferência dos custos do plano para os empregados e afirmava que seu pleito era o “reajuste zero, retirada do teto 6,5% e retorno da contribuição 70/30”.

O acordo de 2025 apenas adiou a disputa sobre o futuro do plano. Em 2026, a CONTRAF-CUT voltou a defender o fim do teto de 6,5%, com a campanha “Saúde Caixa Sem Teto”.

Mas o problema não está apenas no limite de custeio. Uma das questões mais importantes colocadas nesta campanha é a necessidade de acabar com a divisão entre os empregados admitidos antes e depois de 2018. A criação de regras diferentes para os novos empregados rompe com o caráter coletivo do plano e produz uma categoria dividida dentro da própria Caixa. A isonomia do Saúde Caixa deve significar que todos os empregados tenham os mesmos direitos, independentemente da data de admissão, inclusive na garantia de participação da Caixa no custeio durante a aposentadoria.

Essa é uma reivindicação que pode representar um avanço concreto para a categoria. Não basta defender a manutenção do plano como ele existe hoje: é preciso recuperar direitos que foram retirados de parte dos trabalhadores e impedir que novas diferenças sejam utilizadas para dividir os empregados.

A disputa pelo ACT também envolve valorização salarial e carreira. A Caixa precisa enfrentar a defasagem dos salários, a falta de perspectivas de crescimento e os casos de desvio de função. Na TI, onde trabalhadores exercem atividades de maior complexidade sem o devido reconhecimento, esse problema aparece de forma particularmente evidente.

É nesse contexto que se coloca a bandeira “Júnior para todos”, aprovada no Conecef, junto à defesa de um novo plano de cargos e funções. Mais do que uma reivindicação específica, trata-se de reconhecer na carreira e na remuneração o trabalho que os empregados já realizam.

A contradição da CONTRAF-CUT

As principais reivindicações continuam colocadas. A diferença é que, em 2026, a categoria chegou à negociação com uma greve em curso e uma capacidade de mobilização que altera a correlação de forças.

É justamente aí que aparece uma contradição na condução da campanha. Em 2025, a CONTRAF-CUT denunciava a tentativa da Caixa de transferir os custos do plano para os empregados e defendia o fim do teto de 6,5% e a retomada do 70/30. Em 2026, continua defendendo essas reivindicações, mas a discussão sobre o Saúde Caixa passa a conviver com uma possível fragmentação da negociação. Isso significa retirar uma das principais reivindicações da categoria do centro do ACT justamente quando os trabalhadores estão em greve.

Depois do início da greve, a Caixa elevou de 6,5% para 8% o limite de sua participação no custeio do Saúde Caixa. A mudança ficou abaixo da reivindicação de 70/30, mas mostra que a paralisação alterou concretamente a negociação.

A direção do banco também elevou o tom da pressão sobre os empregados. Diante da rejeição da proposta, a Caixa registrou a intenção de levar o ACT ao dissídio coletivo, ampliando a disputa para o Tribunal Superior do Trabalho. A ameaça de levar o acordo ao dissídio veio acompanhada de alertas das entidades sindicais sobre os riscos envolvidos para os direitos da categoria.

O momento combina uma ofensiva da direção da Caixa com uma mobilização nacional de dimensão significativa. O que está em disputa vai além de uma cláusula específica do ACT. Está em jogo quem vai arcar com os custos do Saúde Caixa e qual será a capacidade dos trabalhadores de preservar direitos construídos ao longo de décadas.

A experiência de 2025 mostrou que a mobilização foi capaz de impedir novos aumentos sobre os empregados. Em 2026, a greve recoloca essa disputa em outro patamar. A cada nova rodada, a força da paralisação passa a ser um elemento concreto da negociação. Quanto maior a mobilização, maior a pressão sobre a Caixa. Quanto mais fragmentada a pauta, menor essa pressão.

A greve precisa avançar

A greve não pode ser reduzida a uma disputa pelo percentual de custeio do Saúde Caixa. O ACT reúne reivindicações que dizem respeito às condições concretas de trabalho na Caixa: saúde, salários, carreira, funções e isonomia.

A isonomia do Saúde Caixa, o fim da distinção entre pré e pós-2018, a valorização salarial, um novo plano de cargos e funções, o combate ao desvio de função e a bandeira “Júnior para todos” fazem parte desse conjunto. São reivindicações que podem avançar justamente quando a categoria possui força para pressionar a direção do banco.

Separar o Saúde Caixa do ACT, neste momento, seria um golpe contra a unidade da categoria. Não se trata apenas de mudar o calendário de uma negociação. Significa retirar da greve uma das principais reivindicações dos trabalhadores e diminuir a pressão construída pela própria paralisação.

O PCBR defende que o Saúde Caixa permaneça no ACT e que a greve seja mantida e aprofundada. A experiência destes últimos dias mostrou que é a mobilização que faz a Caixa recuar. A nova proposta apresentada pelo banco só surgiu depois que os trabalhadores cruzaram os braços. Mesmo assim, a proposta não resolveu o problema central do financiamento do plano e acabou rejeitada.

A conjuntura eleitoral também abre uma possibilidade que precisa ser aproveitada. Em ano de eleição, uma greve nacional na Caixa coloca o governo Lula diante de uma escolha política. Isso não significa confiar no governo ou esperar que ele resolva a disputa pelos trabalhadores. Significa usar a força da greve para aumentar o custo político da intransigência da direção da Caixa e exigir que o governo se posicione.

A questão colocada agora é simples. Ou a greve continua e se aprofunda, mantendo o Saúde Caixa dentro do ACT, ou a pauta é fragmentada e a categoria perde força justamente quando começa a pressionar de verdade.