Enquanto a Copa ocupa as manchetes, trabalhadores da educação param o México
A paralisação liderada pela CNTE entra em seu segundo mês, lutando contra os ataques previdenciários e enfrentando repressão armada do governo Sheinbaum

Por João Oliveira
Enquanto a atenção da imprensa internacional se concentra na realização da Copa do Mundo e em seus impactos econômicos e esportivos, um dos maiores conflitos sociais recentes do México permanece praticamente ausente da cobertura dos grandes meios de comunicação. Após a greve nacional de 2025, encerrada sem que suas principais reivindicações fossem atendidas, a Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) retomou a mobilização em junho de 2026, recolocando no centro do debate a revogação da Lei do Instituto de Segurança e Serviços Sociais dos Trabalhadores do Estado (ISSSTE) de 2007 e o fim do sistema previdenciário baseado em contas individuais.
A atual paralisação representa uma nova etapa de um conflito iniciado ainda em 2025. Em maio do ano passado, a CNTE conduziu uma greve nacional de 23 dias contra a Lei do ISSSTE, exigindo a revogação das contas individuais geridas pela Administradora de Fundos de Aposentadoria (Afores), o congelamento da idade mínima para a aposentadoria e o reajuste salarial. O principal eixo da greve deste ano é a exigência da substituição do atual sistema de aposentadorias baseado em contas individuais administradas por instituições financeiras privada por um regime público de caráter solidário.
O governo de Claudia Sheinbaum, do Morena, apresentou apenas propostas voltadas à ampliação de benefícios específicos ao fortalecimento do PensionISSSTE, uma administradora estatal de fundos financeiros, mantendo, contudo, o modelo de contas individuais. A CNTE considera que essas medidas não respondem à reivindicação central do movimento, que é justamente o abandono de toda a administração privada dos fundos previdenciários.
Além da questão previdenciária, os professores também reivindicam a revogação da Unidade de Sistema para a Carreira do Magistério (USICAMM), responsável pelos processos de admissão e promoção dos docentes. Ademais, exigem a regularização dos pagamentos atrasados, a melhoria nas condições de trabalho nas escolas públicas e a valorização salarial.
Nas últimas semanas, representantes do governo Sheinbaum e dirigentes sindicais realizaram diversas rodadas de negociação, mas sem nenhum acordo. Enquanto isso, a greve continua mobilizando milhares de trabalhadoras e trabalhadores em diferentes regiões do país.
Nesse contexto, durante o desenvolvimento da paralisação nacional, ocorreu uma forte repressão das forças de segurança contra os manifestantes na Cidade do México. Organizações sindicais nacionais e internacionais denunciaram o emprego de efetivos policiais para dispersar as manifestações e retirar os bloqueios organizados pelas professoras e pelos professores. Com o aumento da repressão do governo Sheinbaum, a greve passou a receber manifestações públicas de apoio de diversos partidos comunistas e operários, organizações políticas e sindicatos de todo o mundo.
As mobilizações receberam apoio de organizações populares locais e de familiares dos estudantes, que organizaram ações de solidariedade às trabalhadoras e aos trabalhadores grevistas. Segundo dirigentes estaduais da CNTE, a luta pela revogação das reformas previdenciárias interessa ao conjunto da classe trabalhadora mexicana, independentemente da categoria profissional.
A posição do Governo Sheinbaum, inclusive com o uso de força policial contra os trabalhadores em luta, explicita que o único compromisso da social-democracia é com os setores da burguesia sob o discurso de “preservar a estabilidade das contas públicas”. Essa postura à direita não é repentina, sempre foi parte de seu programa.
Em seus discursos, Sheinbaum sempre criticou as administrações anteriores, mas se furta de derrotar as contrarreformas aprovadas nas gestões anteriores. Assim como Lula no Brasil, Sheinbaum tenta trazer um “capitalismo consciente”, como se a exploração do capital pudesse ser amenizada. Esses governos “conciliatórios” fazem todo o possível para preservar e estabilizar o capitalismo durante períodos de crise social, “reforçando seus mecanismos de dominação para garantir a maximização dos lucros, a exploração e a rentabilidade dos monopólios”. Nós, comunistas, não aceitamos a distribuição de migalhas e posições “menos-piores”, nosso compromisso é com a derrubada do capitalismo e a construção de uma sociedade livre de exploração.