Paralisação dos bancários após uma década sem greve
A campanha ocorre depois de uma década sem uma greve nacional unificada. Em 2025, os bancos acumularam R$ 171 bilhões em lucro líquido, enquanto os bancários seguem submetidos à intensificação do trabalho e à precarização
Por Rhuan Maciel
A campanha salarial dos bancários de 2026 recolocou uma questão que ultrapassa a própria categoria: o que transforma uma pauta de reivindicações em força capaz de arrancar conquistas? A resposta não está na disposição dos banqueiros em reconhecer as necessidades dos trabalhadores, mas na capacidade de organizar a categoria, ampliar sua participação e fazer da mobilização o elemento que determina os rumos da negociação.
A campanha ocorre depois de uma década sem uma greve nacional unificada e em meio ao aprofundamento da exploração no setor. Os bancos acumulam lucros bilionários, enquanto os trabalhadores convivem com metas, fechamento de agências, reestruturações, descomissionamentos, demissões, adoecimento e perda de poder de compra. Em 2025, os bancos acumularam R$ 171 bilhões em lucro líquido e cerca de R$ 1,2 trilhão em patrimônio líquido, enquanto os bancários seguem submetidos à intensificação do trabalho e à precarização.
Ao longo das diversas mesas de negociação, tanto da Fenaban, responsável pela Convenção Coletiva de toda a categoria, quanto dos bancos, nas negociações específicas de cada empresa, os banqueiros recorreram a negativas, adiamentos e propostas rebaixadas. Em diferentes momentos, chegaram às mesas sem oferecer respostas concretas às reivindicações dos trabalhadores ou apresentaram alternativas que preservam seus interesses e transferem para a categoria o peso das perdas. Um exemplo foi a tentativa de estabelecer reajustes diferenciados por faixas salariais, acompanhada do congelamento do piso de ingresso.
Se a postura dos banqueiros não surpreende, também é possível identificar um padrão na resposta que o Comando Nacional apresentou diante dela. Ao longo da campanha, tornou-se recorrente a expectativa de que a próxima mesa seja diferente: espera-se que os bancos compareçam dispostos a negociar ou que revejam sua postura diante das reivindicações da categoria.
Em uma das rodadas, por exemplo, a avaliação divulgada pela direção sindical reconhecia a ausência de avanços e manifestou a expectativa de que, na semana seguinte, os banqueiros mudassem de postura.
Quando cada rodada termina com a expectativa de que a próxima será diferente, a iniciativa permanece nas mãos da patronal, que ganha tempo enquanto os trabalhadores aguardam. A questão, portanto, não é descobrir quando os banqueiros estarão finalmente dispostos a negociar, mas construir uma correlação de forças que torne necessário, para os próprios bancos, atender às reivindicações dos trabalhadores.
Foi nesse contexto que a paralisação nacional de 20 de agosto adquiriu particular importância. Diante da ausência de avanços e da tentativa de dividir a categoria nas propostas apresentadas, bancários de diferentes regiões do país paralisaram suas atividades por 24 horas. A mobilização teve ampla repercussão e demonstrou que ainda existe capacidade de construir uma resposta coletiva em escala nacional. Mais importante do que seu resultado imediato nas negociações, a paralisação recolocou em evidência aquilo que nenhuma mesa pode produzir sozinha: a capacidade dos trabalhadores de interromper coletivamente o processo de trabalho e pressionar os patrões.
A própria experiência recente dos bancários permite observar o caminho para realizar o enfrentamento. As mobilizações construídas em determinadas bases oferecem elementos concretos para pensar como o descontentamento pode ser transformado em organização e como experiências locais podem contribuir, ou não, para a construção de uma força nacional.
A experiência da Bahia em 2024 é um dos exemplos mais importantes. Diante da resistência dos banqueiros, a base baiana decidiu pela greve mesmo sob a atuação contrária da direção sindical, que realizou sucessivas assembleias para tentar aprovar o acordo e, depois de aprovada a paralisação, voltou a convocar a categoria para discutir sua continuidade, até que o movimento perdesse força. Ainda assim, os trabalhadores chegaram a realizar uma greve com forte adesão em diferentes locais, demonstrando que a disposição de luta não estava ausente.
Ao mesmo tempo, a experiência revelou os limites de uma mobilização que não encontra articulação nacional. Enquanto a Bahia resistia, outras bases importantes aceitaram o acordo, e a parcela da categoria que havia rejeitado a proposta não encontrou, na condução nacional da campanha, uma política capaz de unificar essas experiências.
A campanha de 2026 encontra a Bahia depois dessa experiência. A derrota anterior deixou marcas e dificultou a construção, mas não eliminou a militância nem a disposição de construir uma alternativa. Ao contrário, o trabalho de oposição continuou buscando se enraizar nos locais de trabalho e reorganizar os bancários a partir da experiência acumulada, o que gerou e está gerando frutos positivos de mobilização na localidade.
Essa reação mostra que uma derrota não necessariamente produz desmobilização, mas pode também servir como ponto de partida para compreender os limites, erros e acertos, apontando para o caminho correto.
O Distrito Federal apresenta outra experiência importante. Depois de uma disputa eleitoral que deu à Alternativa Bancária DF 2.545 votos, aproximadamente um terço dos votos, a oposição continuou a se consolidar como uma força real no movimento sindical bancário. O aspecto mais significativo, porém, não está apenas no resultado eleitoral, mas no trabalho desenvolvido antes e depois dele: panfletagens, plenárias, produção de materiais, participação nas atividades sindicais e presença permanente junto à categoria.
O que diferencia essa experiência é a continuidade. Uma oposição que aparece apenas durante as eleições pode disputar uma direção, mas uma oposição que permanece nos locais de trabalho pode construir uma força organizada. O trabalho desenvolvido no DF mostra que não existe solução mágica para a crise do sindicalismo e que é necessário acumular forças, formar militantes, dialogar com os problemas concretos da categoria e apresentar um horizonte que permita aos trabalhadores compreender que suas dificuldades individuais possuem causas comuns e podem ser enfrentadas coletivamente.
As experiências apontam, apesar de suas diferenças, para uma mesma conclusão: não existe atalho para reconstruir a capacidade de luta dos trabalhadores. É preciso fazer dos locais de trabalho o centro da organização, transformar assembleias em espaços efetivos de decisão, construir organizações permanentes da base e articular as lutas locais em uma mobilização nacional. A negociação deve expressar a mobilização, e não substituí-la.
Não basta denunciar a atuação da direção majoritária ou esperar que uma nova campanha produza espontaneamente uma mobilização diferente. É preciso demonstrar, na prática, que a atual política sindical não é inevitável e que os próprios trabalhadores podem tomar em suas mãos a condução de suas lutas. Esse trabalho não termina com o encerramento da campanha salarial. Em qualquer cenário, permanece a mesma tarefa: construir uma categoria capaz de participar conscientemente de suas lutas, decidir seus rumos e impor aos bancos, pela ação coletiva, aquilo que eles nunca concederão por iniciativa própria. É esse o caminho para transformar reivindicações em conquistas e experiências locais em organização nacional.