China, agronegócio e dependência brasileira

Os recordes nas compras chinesas de soja brasileira evidenciam menos um avanço rumo à soberania econômica do que a permanência da inserção dependente do Brasil na divisão internacional do trabalho.

20 de Agosto de 2026 às 20h00

A intensificação das compras chinesas de soja brasileira nas últimas semanas reforça, à primeira vista, a posição privilegiada do Brasil como principal fornecedor de commodities agrícolas para a segunda maior economia do mundo. Dados divulgados pela Administração Geral das Alfândegas da China mostram que o país importou 12,08 milhões de toneladas de soja do Brasil em junho, uma alta de 13,7% em relação ao mesmo mês do ano passado. Ao mesmo tempo, as aquisições do produto norte-americano registraram forte retração, em um contexto marcado pelas tensões comerciais entre Pequim e Washington.

Esse movimento, todavia, não representa uma benesse ao agronegócio brasileiro, tampouco resulta de um acordo bilateral, como propaga o governo Lula.

O aumento das importações chinesas responde, antes de tudo, à lógica de segurança alimentar e de diversificação de fornecedores adotada por Pequim diante das incertezas geopolíticas e das recorrentes tensões com os Estados Unidos. Em uma leitura superficial, esse movimento poderia ser interpretado como uma vitória diplomática do governo brasileiro ou como a consolidação de uma parceria estratégica entre Brasil e China.

Essa interpretação, inclusive endossada pelo governo Lula, ignora as transformações estruturais que vêm ocorrendo na logística de exportação brasileira. O aumento das compras chinesas não representa uma concessão ao agronegócio nacional nem, por si só, uma aproximação política entre os dois países. Ele responde, sobretudo, à estratégia de Pequim de diversificar seus fornecedores e garantir sua segurança alimentar diante da crescente instabilidade do comércio internacional e das tensões geopolíticas.

Paralelamente, o Estado brasileiro tem acelerado os investimentos em corredores logísticos destinados ao escoamento de commodities, especialmente na região amazônica. Esse processo fortalece o chamado Arco Norte por meio da expansão de hidrovias, portos, rodovias e projetos ferroviários voltados prioritariamente ao mercado externo.

Nesse panorama, o governo brasileiro aprofunda sua aposta no agronegócio como eixo central da inserção internacional do país. O lançamento do Plano Safra 2025/2026, com R$ 516,2 bilhões destinados aos médios e grandes produtores rurais — o maior volume de crédito já disponibilizado para a agricultura empresarial — evidencia que a política econômica permanece orientada para ampliar a capacidade produtiva, a competitividade e as exportações de commodities agrícolas, enquanto relega a agricultura familiar a uma posição secundária.

Nesse contexto, o crescimento das exportações de soja deve ser compreendido menos como um sinal de desenvolvimento econômico e mais como a continuidade de um padrão histórico de inserção subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho. A infraestrutura apresentada como modernização logística atende, sobretudo, à necessidade de acelerar o fluxo de commodities para o mercado asiático, ao mesmo tempo em que intensifica conflitos fundiários, pressões sobre territórios indígenas e comunidades ribeirinhas, avanço do desmatamento e concentração do poder econômico em torno das grandes tradings do agronegócio. 

A China contemporânea, embora mantenha importantes setores estatais e públicos em sua economia, consolidou uma burguesia nacional capaz de exportar capitais e disputar mercados, investimentos e recursos naturais em escala global. Para o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a inserção internacional chinesa não deve ser compreendida como uma alternativa emancipatória à hegemonia estadunidense, mas como parte das contradições do capitalismo contemporâneo e da competição entre grandes potências.

Sob essa perspectiva, o fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e China, especialmente no setor do agronegócio, não representa uma ruptura com a condição dependente da economia brasileira, tampouco constitui um avanço na luta pela soberania nacional. Pelo contrário, esses acordos reforçam um modelo de especialização primário-exportadora, no qual o país permanece como fornecedor de matérias-primas para a acumulação de capital em escala internacional, independentemente de qual potência concentre a demanda.