EDITORIAL: Nem um voto de confiança
Em quatro anos, algumas promessas são recicladas, novas são feitas, algumas esquecidas. Mas o problema principal permanece o mesmo, porque o poder político permanece nas mãos da burguesia.

Foto: Jornal O Futuro
Nestes meses de eleição, os candidatos da burguesia tentam de toda forma conquistar a confiança dos trabalhadores. Todos eles prometem mundos e fundos, colocam a culpa das condições de vida dos trabalhadores em seus oponentes, e tentam mostrar como tudo ficaria pior se outros candidatos assumissem seu lugar.
Sem ignorar as diferenças entre eles, porém, no fim das contas, independentemente dos vencedores, todos concordam no fundamental: garantir a continuidade do capitalismo e a manutenção, a todo custo, do crescimento da taxa de lucros da burguesia, fazendo os trabalhadores pagarem as contas das crises do sistema.
Não é à toa que todos conhecem a precariedade das promessas realizadas em período eleitoral e a notória ausência de seu cumprimento logo depois. Em quatro anos, algumas promessas são recicladas, novas são feitas, algumas esquecidas. Mas o problema principal permanece o mesmo, porque o poder político permanece nas mãos da burguesia.
Isso tornou-se particularmente visível neste processo eleitoral. Esse processo foi marcado pela despolitização das promessas feitas por todos os candidatos, pela falsa polarização construída entre duas formas distintas de gestão do capital, nas figuras de Lula e Bolsonaro (p. 5), e pelos escândalos no Supremo Tribunal Federal (STF) em função das relações de inúmeros ministros com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master (p. 3) que rapinou os cofres públicos, negociou favores e interesses com ampla gama de políticos e praticou diversas fraudes para ampliar seus lucros.
Todos esses fatos reiteram que o Estado burguês é, na realidade, o balcão de negócios dos capitalistas, que das mais diversas formas utilizam os poderes da República brasileira para promover seus interesses. Nas disputas entre as diversas frações capitalistas, há muitas diferenças sobre como melhor implementar seu projeto, mas todos concordam na retirada de direitos dos trabalhadores, na privatização do patrimônio e dos serviços públicos, na repressão mais brutal aos trabalhadores em luta, na manutenção das relações de dependência do Brasil na cadeia imperialista e na concessão dos maiores privilégios e créditos para que a burguesia explore com ainda mais intensidade os trabalhadores brasileiros.
Justamente nesse contexto em que abundam oportunidades para denunciar a podridão do sistema e explicitar a falsidade da polarização apresentada, muitos companheiros honestos, alguns bastante combativos, apontam aos trabalhadores que a única alternativa é um voto de confiança no “menos pior”. Vendo a fragilidade do movimento revolucionário e a fragmentação dos trabalhadores, por um lado, e o surgimento de uma burguesia mais desavergonhada de sua ofensiva na extrema-direita, por outro, alguns companheiros cedem às pressões da classe dominante e negociam seu apoio ao “menos pior”, acreditando que, no futuro, talvez possamos ter condições melhores, mas agora é melhor defender o que há, pois pode piorar.
Mesmo levantando bandeiras justas e importantes e, frequentemente, apresentando uma posição combativa, esses companheiros deixam de tocar na questão fundamental, no poder político da burguesia. E passam, com cada movimento, a normalizar a gestão do capitalismo, reforçar a atual fragmentação e desacreditar a organização independente do proletariado.
Ainda assim, os trabalhadores seguem em luta, contra todas as pressões e críticas dos “líderes” que buscam pacificar as greves e os protestos para não prejudicar seus projetos eleitorais. As greves na Caixa Econômica Federal, nos Correios e na Eletronuclear questionam diretamente o governo federal e as lideranças sindicais que buscam atrelar os trabalhadores a um projeto burguês, explicitando a impossibilidade de conciliar os interesses da burguesia e dos trabalhadores.
A luta dos trabalhadores é fragmentada e espontânea: aparece apenas em uma ou outra categoria nesse momento e logo se extingue, com algumas vitórias ou por falta de força para continuar. Ainda assim expressa a maior fragilidade do sistema capitalista: o proletariado, a classe sem a qual esse sistema não pode existir, mas que é capaz de, com uma luta política revolucionária, superá-lo.
Para unificar a classe e desenvolver sua consciência revolucionária é necessário um longo trabalho de organização em cada luta imediata. Mas, e acima de tudo, é fundamental que este trabalho expresse uma política firme, consequente e completamente independente da burguesia em todos os aspectos, reforçando a todo momento os interesses gerais da classe trabalhadora e a luta pelo socialismo-comunismo.
Sem essa completa independência, é impossível elevar o nível de unidade e organização dos trabalhadores. Cada conquista negociada pela subordinação aos interesses burgueses rapidamente mostra sua fragilidade nas primeiras crises do sistema. A trágica história do apoio dos trabalhadores às gestões petistas, culminando no recente adiamento da votação do fim da escala 6x1, explicita como a subordinação política só pode ser seguida também do enfraquecimento da classe em todas as suas lutas.
É nesse sentido que reforçamos como princípio a independência de classe e acreditamos ser impossível negociar, mesmo que por um minuto, nossa posição revolucionária em cada luta, das menores às maiores. Cada voto de confiança dos trabalhadores na burguesia, seja em uma greve, seja na luta eleitoral, enfraquece a consciência dos interesses gerais da classe trabalhadora e dificulta sua organização como classe independente para enfrentar o sistema.
Não acreditamos que todo projeto burguês seja idêntico. A extrema-direita, expressão desavergonhada da ofensiva burguesa, propõe um grau maior de repressão e violência na implementação de seu projeto. Porém, mesmo distinta, a frente ampla gere o mesmo sistema que seguirá reprimindo os trabalhadores e alimentando o conservadorismo. Assim, para enfrentar a extrema-direita em nosso país, estamos certos de que não basta enfrentar apenas seus candidatos em cada pleito, votando na Frente Ampla, que apenas repetirá a polarização em alguns anos. Ao contrário, devemos combater diretamente o sistema capitalista, apresentando em contraposição a própria classe trabalhadora como força independente.
Essa força independente não surge majoritária nem sem sacrifícios. Mas a história de nossa classe provou que um partido comunista que trabalhe incansavelmente para conquistar os trabalhadores para uma política independente pode se forjar como vanguarda dessa classe e produzir a unidade e a força necessárias para pressionar a burguesia e colocar em xeque seu poder político.
Nossa tarefa é unificar os trabalhadores como classe consciente de seu interesse revolucionário e da oposição de princípio à burguesia. Por isso, nesse primeiro turno das eleições, lutamos para que nenhum voto de confiança seja dado pelos trabalhadores aos projetos da burguesia, por mais “honestos e bem-intencionados” tentem parecer. Apesar da fragilidade do movimento, lutamos para alterar a correlação de forças e colocar na balança não apenas projetos burgueses, mas também uma alternativa independente do sistema e a única capaz de destruí-lo: o proletariado revolucionário.