Telemarketing em luta: como surgiu a oposição sindical no Ceará

A luta contra um acordo rebaixado na AlmaViva abriu caminho para a organização classista dos teleoperadores no Ceará

28 de Setembro de 2026 às 0h00

Militantes do PCBR organizam panfletagem de apresentação da oposição sindical e venda de jornais na AlmaViva (Fortaleza). Foto: Jornal O Futuro

Por João Lucas

No 1º de julho, em Fortaleza, foi iniciada a organização de um movimento de oposição sindical de teleoperadores, em resposta à postura da direção do Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing do Estado do Ceará (SINTRATEL) que aceitou a proposta rebaixada de Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) da AlmaViva Experience, que não pagava o retroativo integral. Os teleoperadores estavam, desde o início do ano, recebendo o salário mínimo de 2025, ou seja, R$1.518,00.

As agitações denunciando a superexploração na empresa vieram sendo realizadas, em Fortaleza, desde 2025, com a criação do Comitê de Luta pelo Fim da 6x1. Seguindo a tática de organizar comitês amplos para a redução da jornada, frente ao silêncio das centrais sindicais e à burocratização do VAT (Vida Além do Trabalho), a militância do PCBR no Ceará impulsionou o comitê para aglutinar trabalhadores e forças políticas comprometidas com a tática da luta de massas na luta pelo fim da escala 6x1.

Apesar de ter sido criado em novembro de 2024, foi em agosto de 2025 que o comitê colocou em prática a agitação constante nas empresas de teleoperações. O telemarketing é considerado, na tática dos comunistas do PCBR, um setor estratégico do proletariado, vista a sua influência político-econômica no funcionamento da economia capitalista. Em 2024, o Ceará tinha 24.884 empregos formais em teleatendimento, segundo a RAIS, concentrando quase 2% da força de trabalho formal cearense.

A partir do direcionamento à categoria dos teleoperadores, a agitação, especialmente na AlmaViva, empresa que concentra muitos operários em uma unidade próxima ao North Shopping Jóquei, começou a resultar em relatos e denúncias das condições de exploração e abuso. Isso revelou a confiança crescente dos trabalhadores, construída inicialmente nas agitações recorrentes pela redução da jornada, e dezenas começaram a construir o comitê.

Organizando panfletagens e vendas do jornal na porta das empresas, fomos conquistando a confiança da categoria e apresentando nossas posições. Entretanto, a organização dos teleoperadores pelo comitê, devido a seu caráter amplo, foi perdendo efetividade à medida que crescia a inserção na categoria. A burocracia das centrais sindicais, ao renegar a luta de massas em benefício de uma luta exclusivamente parlamentar, também contribuiu para o esfriamento da luta nos locais de trabalho e da atuação do comitê.

Em julho deste ano, trabalhadores da AlmaViva passaram a denunciar, pelas redes sociais, o ACT proposto pela patronal e aceito pelo SINTRATEL. Aproveitando o trabalho iniciado pelo comitê, o PCBR procurou esses trabalhadores para transformar as denúncias em matérias para o Jornal O Futuro, amplificando a agitação já existente, e organizá-las em um programa de reivindicações para a campanha salarial.

Em oposição ao ACT, defendemos reajuste de 10% dos salários, pagamento do retroativo integral e redução da jornada para 30h semanais. Aglutinamos essa luta para formar uma Oposição Sindical, o Telemarketing Em Luta (TEL), organizando trabalhadores em torno de uma política classista, denunciando a linha da atual diretoria do SINTRATEL e defendendo a retomada do sindicato para uma política classista, transformando o sindicato em um instrumento real de organização e luta da categoria.

Em resposta à ausência geral de espaços de democracia operária para a organização das lutas – um problema que não é enfrentado apenas pelos teleoperadores em Fortaleza –, a construção da oposição a atual diretoria se mostra como tática válida para disputar os rumos da luta de classes em cada frente de trabalho, agitando e propagandeando o programa socialista, medindo os ânimos e dificuldades dos trabalhadores e formulando soluções imediatas para os problemas cotidianos que apontem para a organização da luta política do proletariado.