João Sem Medo: o comunista que desafiou a ditadura e montou a Seleção do Tri

Poucos personagens sintetizam de maneira tão completa a história do futebol brasileiro e a luta política do povo trabalhador brasileiro quanto João Saldanha

19 de Julho de 2026 às 22h00

João Saldanha no ato em defesa da liberdade sindical organizado pelo PCB. Reprodução/Foto: Arquivo

Por João Oliveira

Jornalista, treinador, militante comunista e patriota, “João Sem Medo”, como era conhecido, deixou uma marca que ultrapassa em muito os gramados. Seu nome está ligado à construção da Seleção Brasileira de Futebol que conquistou o tricampeonato mundial em 1970, mas sua importância histórica reside também na coerência política com que enfrentou a ditadura empresarial-militar e defendeu suas convicções mesmo nos momentos mais difíceis da vida nacional.

Durante décadas, a memória de João Saldanha foi reduzida à imagem do treinador que antecedeu Zagallo na campanha da Copa do Mundo do México. Essa leitura, porém, esconde a dimensão de um dos mais importantes jornalistas esportivos brasileiros e de um militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB), perseguido pelo Estado burguês brasileiro através do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), preso por suas atividades políticas e permanentemente vigiado pelos órgãos de repressão do regime.

Sua trajetória demonstra que o compromisso com a transformação social jamais foi incompatível com o amor ao Brasil. Pelo contrário, como tantos comunistas brasileiros ao longo do século XX, João Saldanha compreendia que defender a soberania nacional, valorizar a cultura popular e lutar pelos direitos da classe trabalhadora faziam parte de um mesmo projeto de país.

Muito antes de assumir a Seleção Brasileira, Saldanha já era conhecido por sua atuação política e pelo trabalho como jornalista esportivo. Seu estilo direto, combativo e irreverente transformou a cobertura esportiva brasileira. Não fazia concessões ao poder econômico, aos dirigentes do futebol ou às pressões políticas. A mesma independência que demonstrava nas redações seria levada para o comando técnico da Seleção.

Quando assumiu a equipe nacional em 1969, o futebol brasileiro atravessava um momento de desconfiança. A eliminação na Copa do Mundo de 1966 havia provocado uma profunda crise, alimentando dúvidas sobre a capacidade da Seleção de voltar ao topo do futebol mundial. Em poucos meses, João Saldanha reorganizou o time, estabeleceu uma identidade tática consistente, recuperou a confiança do elenco e conduziu o Brasil a uma campanha impecável nas eliminatórias para a Copa de 1970.

Foi sob seu comando que se consolidou a espinha dorsal daquela que muitos consideram a maior seleção da história do futebol. Diversos jogadores que brilhariam no México foram mantidos e valorizados por Saldanha, assim como a estrutura coletiva que serviria de base para a conquista do tricampeonato. Embora Zagallo tenha conduzido a equipe durante a Copa e mereça o reconhecimento pela campanha vitoriosa, seria um equívoco histórico ignorar o papel decisivo desempenhado por João Saldanha na construção daquele grupo.

Sua saída do comando da Seleção jamais pode ser compreendida apenas por critérios esportivos. Evidentemente existiam divergências internas, disputas com dirigentes e diferenças sobre a condução da equipe. Contudo, o contexto político da época não pode ser ignorado.

Em 1970, o Brasil vivia o período mais violento da ditadura empresarial-militar, conhecido como os anos de chumbo. O Ato Institucional nº 5 (AI-5), instituído em 1968, aprofundara a repressão política, ampliando a censura, as prisões arbitrárias, a tortura e os assassinatos de opositores do regime. Ao mesmo tempo, o regime buscava utilizar o futebol como um instrumento de propaganda política, transformando o eventual sucesso da Seleção em demonstração da suposta legitimidade da ditadura. 

João Saldanha jamais aceitou desempenhar esse papel.

O episódio envolvendo o então general Emílio Garrastazu Médici tornou-se um dos símbolos mais conhecidos de sua personalidade. Diante das especulações de que Médici pretendia interferir na convocação da Seleção, Saldanha respondeu que o general cuidava da escolha de seus ministros e ele cuidava da escalação da equipe, expressando com precisão a postura política que caracterizou João Sem Medo: a recusa em submeter seu trabalho às imposições do regime empresarial-militar.

Sua condição de militante comunista também pesava. Enquanto milhares de brasileiras e brasileiros eram perseguidos, presos, torturados, assassinados ou obrigados ao exílio por enfrentarem a ditadura empresarial-militar, João Saldanha permanecia identificado com uma organização política que figurava entre os principais alvos da repressão. Sua presença à frente da Seleção jamais foi confortável para um regime que buscava controlar não apenas a política, mas também os símbolos nacionais, sendo o maior deles, naquele período, o futebol. 

A história acabou produzindo uma das maiores ironias do futebol brasileiro. A ditadura tentou apropriar-se da conquista do tricampeonato para fortalecer sua imagem, mas parte importante daquela conquista havia sido construída justamente por um militante comunista que nunca abriu mão de suas convicções.

Esse aspecto permanece frequentemente ocultado nas narrativas oficiais. Durante décadas, consolidou-se uma visão segundo a qual os comunistas estariam afastados das grandes realizações nacionais, como se fossem personagens externos à própria história do Brasil. A trajetória de João Saldanha desmonta completamente essa caricatura. 

Comunista, jornalista e treinador, ele ajudou a construir uma das maiores equipes de todos os tempos. Demonstrou que o compromisso com a emancipação da classe trabalhadora jamais significou um desinteresse pela cultura nacional ou um desprezo pelos símbolos populares. Ao contrário, compreendia o futebol como uma das expressões mais importantes da identidade brasileira e, justamente por isso, recusava sua instrumentalização por um regime autoritário.

Seu legado também evidencia que esporte e política nunca estiveram separados. O futebol sempre refletiu disputas econômicas, interesses de classe, projetos nacionais e conflitos ideológicos. Fingir neutralidade diante dessas relações significa apenas aceitar como naturais as formas de dominação existentes. João Saldanha compreendia essa realidade com rara nitidez. 

Recentemente, a minissérie Brasil 70: A Saga do Tri contribuiu para recolocar seu nome em circulação entre as novas gerações. Embora simplifique determinados acontecimentos, como toda dramatização baseada em fatos históricos, a produção cumpre o mérito de despertar interesse por um personagem cuja vida foi muito mais rica, complexa e politicamente relevante do que qualquer obra audiovisual consegue retratar.

Resgatar João Saldanha significa recuperar uma parte importante da história do movimento comunista brasileiro, da resistência à ditadura empresarial-militar e do próprio futebol nacional. Em um período em que a extrema direita segue relativizando os crimes do regime de 1964 e procurando reabilitar politicamente seus responsáveis, recordar figuras como João Sem Medo torna-se também um exercício de memória histórica e de defesa das liberdades democráticas. 

João Saldanha não foi apenas o treinador que montou a base da Seleção tricampeã do mundo. Foi um jornalista que revolucionou a imprensa esportiva, um militante comunista que enfrentou a repressão sem renunciar às suas convicções e um brasileiro que compreendia o futebol como patrimônio do povo. Sua história demonstra que as grandes conquistas nacionais também foram construídas por homens e mulheres que lutaram por um Brasil socialista. 

Por isso, João Sem Medo permanece vivo não apenas na memória do futebol brasileiro, mas na história da resistência política do nosso povo.