Greve dos estudantes da UFAC denunciou precarização e descaso com o transporte público

A crise do transporte público de Rio Branco é o desdobramento de um cenário de descaso que se mantém há anos. A greve foi aprovada por unanimidade depois do completo colapso do transporte público municipal

21 de Setembro de 2026 às 0h00

Estudantes marcharam em protesto, no dia 15 de julho, em direção ao Terminal Urbano de Rio Branco e bloquearam a Avenida Ceará. Foto: João Pedro Mendes

No dia 9 de julho os estudantes da Universidade Federal do Acre deliberaram por greve, reivindicando melhores condições para o transporte público municipal. A greve foi aprovada por unanimidade depois do completo colapso do transporte público municipal que, de uma frota já insuficiente de 94 ônibus, passou a operar com apenas 39 veículos após decisão judicial de apreensão de parte da frota por dívidas da empresa responsável pelo modal de transporte em Rio Branco, afetando diretamente toda a população. 

Diversos bairros foram afetados e linhas passaram a ter intervalos superiores a duas horas entre um ônibus e outro. Segundo a prefeitura de Rio Branco, a transição para a nova empresa que assumirá a operação tem o prazo de até 60 dias para a transição, o que prolongaria a atual situação de aprofundamento da precariedade do serviço por mais de dois meses.

As manifestações dos estudantes tomaram as ruas da cidade de Rio Branco, denunciando a precarização do transporte público e exigindo o cumprimento da ordem judicial que deveria garantir a circulação de, no mínimo, 100 ônibus na capital acreana. No dia 13 de julho, em manifestação frente à prefeitura, os estudantes foram fortemente agredidos pela Polícia Militar, que mais uma vez demonstra seu papel em reprimir qualquer manifestação que carregue os interesses da população.

Nos dias seguintes aos primeiros atos, as denúncias dos estudantes jogaram luz também sobre a demora da prefeitura em garantir que o número mínimo de ônibus retornasse às ruas e sobre a multa irrisória, de R$ 10 mil reais por dia, aplicada pelo judiciário em caso de descumprimento da retomada em um prazo de 5 dias.

Sobre o colapso do transporte público de Rio Branco

No dia 17 de junho, a empresa Ricco Transportes e Turismo declara o fim de suas operações na cidade de Rio Branco. No dia 30 do mesmo mês, 50 de seus veículos foram apreendidos pelo Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC) por conta de uma dívida de R$ 3 milhões. A frota mínima da capital acreana, já insuficiente, passa de 94 para 39 ônibus, impactando diretamente a vida cotidiana de todos os trabalhadores e estudantes que dependem do transporte público. Além de toda essa situação, a nova empresa responsável pela frota de ônibus assumiria apenas no dia 1 de setembro, de forma que a população ficaria mais de um mês e meio sem transporte público.

A crise do transporte público de Rio Branco é o desdobramento de um cenário de descaso que se mantém há anos. A empresa Ricco assumiu a frota de ônibus do transporte público em 2022, no contexto de volta da pandemia. Desde então, a Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (RBTrans) de Rio Branco nunca abriu um processo regular de licitação, optando por “contratos emergenciais” sucessivamente renovados com a mesma empresa.

A greve dos estudantes e a postura da prefeitura municipal demonstram que a crise do transporte não é pontual e não pode ser resolvida com a troca da empresa, dos contratos e licitações. Independente dos termos do contrato ou de qual empresa que irá assumir, a origem do problema está na privatização do transporte público, um direito de toda a população. A denúncia da mobilização dos estudantes aponta que, uma vez privatizado, o transporte público deixa de ter seu objetivo voltado a serviço da população, e passa a ter como métrica essencial o lucro das empresas. 

No primeiro semestre de 2026, foram diversas as demonstrações de que a juventude no Brasil não apenas reconhece, mas está disposta a lutar contra os ataques aos direitos dos trabalhadores e toda a população. Desde diversas mobilizações iniciais nas universidades federais, até a greve das universidades estaduais de São Paulo. No cerne da questão, temos os interesses da burguesia avançando contra os direitos da população com o objetivo de maximizar seus lucros, ao mercantilizar os serviços públicos. 

A reivindicação da greve estudantil, que durou 26 dias, carrega também os interesses dos trabalhadores e de toda a população prejudicada pela situação. A greve, assim como as manifestações ocorridas em seu curso, serviram não apenas para forçar um calendário mais acelerado de retomada do serviço de transportes. A ação estudantil serviu também como polo aglutinador de lutas na universidade, além de jogar força na agitação do tema da estatização dos transportes de massa em um momento de discussão do passe livre e da gratuidade dos transportes públicos a nível nacional. A mobilização deu provas práticas do papel que o movimento estudantil pode cumprir no auxílio à generalização de lutas que afetam toda a classe trabalhadora.