A posição dos comunistas do PCBR nas eleições de 2026

Diante da falsa polarização eleitoral, os comunistas devem defender a independência de classe e avançar na construção da unidade dos revolucionários

3 de Outubro de 2026 às 0h00

Em Natal, debate sobre os desafios dos comunistas no RN reuniu PCBR, PSTU, Revolução Socialista e UP. Foto: Jornal O Futuro

No dia 4 de outubro, a população brasileira terá ido às urnas para o primeiro turno das eleições burguesas de 2026. A classe trabalhadora e os setores explorados e oprimidos da sociedade encontram-se diante de uma falsa polarização, expressa na disputa pela Presidência da República e pelos demais cargos majoritários e proporcionais.

De um lado, a extrema-direita bolsonarista, representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), busca instituir um regime mais autoritário, restringindo as liberdades democráticas para intensificar os ataques aos trabalhadores, ampliar as privatizações e favorecer a apropriação do fundo público pela burguesia nacional e internacional. De outro, a Frente Ampla em torno de Lula (PT) reúne setores da aristocracia operária e frações burguesas que apostam na gestão petista para assegurar seus interesses, sob a promessa de um capitalismo mais “humano”. 

Essas diferenças não constituem projetos antagônicos de país. O governo Lula-Alckmin também executa a ofensiva burguesa: impõe a austeridade do Arcabouço Fiscal, preserva as contrarreformas trabalhista e previdenciária, promove privatizações e mantém a inserção dependente do Brasil no sistema imperialista. A conciliação de classes é parte dessa política, subordinando os trabalhadores aos interesses burgueses. Apesar das diferenças entre seus métodos e suas propostas para o regime político, ambos os campos sustentam a exploração capitalista e políticas que asseguram a lucratividade da burguesia à custa dos trabalhadores. 

Diante disso, o Comitê Central do PCBR, reunido no dia 30 de agosto, reafirmou seu compromisso de enfrentar a extrema-direita e combater as falsas alternativas expressas no social-liberalismo, defendendo um projeto socialista para o Brasil. Defendemos ao longo do ano a construção de um programa e candidaturas unificadas da esquerda revolucionária para as eleições de 2026, como forma de combater a polarização burguesa e apresentar uma alternativa socialista unitária. 

Para construir um movimento revolucionário capaz de enfrentar o sistema capitalista, os trabalhadores precisam desenvolver a capacidade de se organizar e lutar por seus próprios interesses, inclusive quando estes entram em conflito com governos que ajudaram a eleger. É nesse sentido concreto que a independência de classe é um princípio inegociável. As pressões contra ela assumem diferentes formas: da repressão aos movimentos à incorporação de lideranças às gestões burguesas, passando por acordos eleitorais que condicionam a conquista de espaços ao rebaixamento de programas e reivindicações. 

Muitas vezes, essa subordinação começa com uma escolha que parece limitada e razoável: apoiar Lula para impedir uma vitória da extrema-direita, mantendo críticas ao seu governo. Esse apoio não torna todas as candidaturas e organizações politicamente idênticas, nem apaga sua participação nas lutas. Mas pedir votos para uma candidatura presidencial também significa orientar os trabalhadores a confiar a condução do Estado a determinado projeto e às forças sociais que o sustentam. 

Quando esse projeto se organiza pela conciliação com interesses empresariais, o compromisso de elegê-lo e preservá-lo cria uma pressão permanente para acomodar as reivindicações dos trabalhadores aos limites dessa aliança. Uma greve, uma mobilização contra cortes ou a rejeição a uma medida do governo passam, então, a ser julgadas também pelo risco de “enfraquecer o governo” ou “favorecer a direita”. O que parecia uma concessão restrita ao momento eleitoral pode se transformar em um limite à ação independente da classe. 

Aos comunistas cabe enfrentar esse problema sem confundir independência com isolamento: compromissos pontuais e lutas comuns com outras forças podem ser necessários, desde que ampliem a capacidade dos trabalhadores de agir por conta própria. No terreno eleitoral, isso exige avaliar tanto as posições e a trajetória de uma candidatura quanto o projeto político para o qual ela procura mobilizar sua base. O voto não resume a luta de classes nem significa concordância com cada medida futura, mas a campanha que o organiza ajuda a definir quais interesses serão apresentados como prioritários e quais alternativas serão reconhecidas como possíveis. Por isso, o apoio à candidatura Lula não pode ser tratado como um detalhe sem consequências para a independência de uma candidatura que diz representar a classe trabalhadora.

É preciso perguntar a cada projeto e a cada candidatura se sua intervenção ajuda os trabalhadores a enfrentar a conciliação ou renova a expectativa de que seus interesses poderão prevalecer dentro dela. A demarcação comunista se justifica por essa necessidade: construir organização e consciência para que os trabalhadores possam sustentar suas reivindicações contra qualquer governo, reconhecer os limites das alternativas burguesas e constituir uma força política com objetivos próprios.  

Dessa forma, o PCBR promoveu em todo o país o apoio às candidaturas do campo revolucionário que preservaram sua independência diante dessas pressões, buscando fortalecer a capacidade dos trabalhadores de se organizar e lutar por seus próprios interesses, contra qualquer governo. Na disputa pela presidência da República, apoiamos Hertz Dias, candidato do PSTU, cuja campanha utiliza o espaço eleitoral para apresentar uma alternativa socialista, em oposição ao governo de conciliação de classes e à tática de Frente Ampla. Embora existam divergências programáticas com o PCBR, avaliamos que sua candidatura foi a que melhor articulou as reivindicações imediatas dos trabalhadores ao horizonte estratégico do socialismo, oferecendo uma base política para esse apoio. 

Assim, diante da fragmentação das forças revolucionárias no Brasil — cuja desunião eleitoral é apenas uma expressão —,  o PCBR valoriza tanto as candidaturas que apoiará quanto as demais candidaturas revolucionárias do PSTU, da UP, do PCB e de setores minoritários do PSOL que mantiveram sua independência diante da Frente Ampla. Defendemos a construção de uma Frente Anticapitalista e Anti-imperialista que ultrapasse as eleições e unifique na luta socialista os movimentos operários e populares que enfrentam a dominação burguesa no campo e na cidade. 

Esperamos que os apoios construídos nacionalmente com o PSTU e, nos estados, com as demais forças da esquerda revolucionária contribuam para essa frente política permanente. Sua construção deve envolver também organizações e candidaturas com as quais não firmamos apoio eleitoral, reunindo forças revolucionárias, com ou sem legenda, para dar maior unidade às lutas anticapitalistas em todo o Brasil.