Da precariedade ao incentivo privado: UEL demole centros acadêmicos e os substitui por contêineres

Após demolir centros acadêmicos, a Universidade Estadual de Londrina instalou contêineres para abrigar estudantes, enquanto amplia a presença de iniciativas financiadas pela iniciativa privada.

10 de Agosto de 2026 às 15h00
Estrutura de madeira parcialmente demolida, com paredes e janelas desmontadas e destroços espalhados pelo chão. Na fachada, uma placa identifica o Centro Acadêmico Saburo Morimoto, do curso de Engenharia Civil.

Demolição dos centros acadêmicos. Foto/Reprodução: O Perobal - UEL.

Por Alyn Batarce

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A Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, hoje reconhecida como a maior universidade estadual da região Sul, passa por mudanças significativas em seu funcionamento, tanto nas áreas orçamentária e administrativa quanto nos campos didático e científico. O Paraná, Estado que rege essa universidade, apresenta hoje um conjunto de medidas, principalmente orçamentárias, que caracterizam a educação paranaense como um dos setores mais afetados pelas Políticas de Austeridade. Na prática, uma situação que esclarece a recorrência dessas medidas na realidade e funcionamento da universidade são as atuais condições das Universidades Estaduais, como a UEL. 

Nessa Universidade, a gestão e administração da reitoria é marcada por uma intensa complicação: por um lado, uma limitação advinda do ataque direto à autonomia universitária, por outro, a perda de autonomia em concomitância com a precarização da capacidade orçamentária da própria. Ou seja, medidas de privatização intensa dos serviços universitários e as condições jurídicas que não só incentivam a relação privada mas obrigam as universidades a recorrerem a empresas para garantir a continuidade de seus serviços, ainda precarizados, diante de abruptos cortes, como com os serviços de cuidado e assistência estudantil. 

Dessa forma, não somente a Universidade é precarizada, mas todos os seus serviços e sua própria estrutura física. Hoje, imersa na incapacidade de administrar a organização e orçamento da universidade perante as condições impostas pela Lei Geral das Universidades (LGU), a UEL se torna refém de empresas e do próprio mercado civil e de contratação de serviços (terceirização). Diante disso, os gastos não são mais definidos de acordo com as necessidades do campus e do corpo estudantil ou de servidores, e sim aos interesses do próprio estado, gerido atualmente por Ratinho Jr. (PSD), que o caracteriza como o Estado do Agro, apontando para onde estão indo, de fato, os investimentos públicos. 

Porém, além disso, devemos considerar o papel que os servidores, professores e a própria reitoria universitária vem tendo nesse processo. Ao não se manifestarem contra as medidas de precarização e corte na educação, as reitorias e os funcionários da UEL, sob sindicatos ineficazes, majoritariamente indiferentes a mobilização e que conciliam a luta aos interesses da burguesia, abrem portas para a intensificação dessas situações na instituição, uma vez que aceitam e procuram se “adaptar” e conciliar os conflitos da melhor forma as condições impostas. Assim o cenário está posto, uma universidade que para conseguir resolver problemas físicos e de infraestrutura, procura sempre o acordo privado, seja na contratação de serviços, seja na promoção de alocação dos próprios estudantes e trabalhadores, como é o caso. 

Nos últimos anos - principalmente após 2021 com a aprovação da LGU, diante de um aumento na precariedade das condições estruturais do campus, a universidade observar com calma e sem qualquer intenção de intervenção, a desestruturação dos espaços físicos de Centros Acadêmicos e de convívio estudantil, como até mesmo salas de aula. E encontramos Centros Acadêmicos pegando fogo ao tentar utilizar microondas, ventiladores adquiridos com vaquinha estudantil queimando após semanas de uso, teto furado, quebrado, paredes rachadas, tomadas sem funcionar, e ainda um DCE sem espaço físico, somente com uma sala nas condições citadas acima, fruto de uma ocupação estudantil. 

Assim, a saúde e a integridade física dos estudantes encontram-se totalmente comprometidas. Mas qual foi, então, a solução encontrada pela universidade?

Desde 2022, já foram realizadas mais de duas contratações de empresas para a fabricação e instalação dos contêineres. Nesse processo, ocorreu, inclusive, um "golpe" na primeira contratação, que resultou na perda de um grande volume de recursos públicos, sem que houvesse muitas explicações. Ainda assim, a universidade manteve a proposta de substituir os atuais espaços físicos por contêineres de apenas 7 metros quadrados, que deverão ser divididos por dois cursos, cada um com, no mínimo, 150 estudantes — número estimado pelo movimento estudantil local.

A medida demonstra sua inviabilidade e seu papel central no agravamento das condições de permanência, convivência e organização dos estudantes. Trata-se de uma solução mais cara do que a reforma dos centros acadêmicos, mas que colocaria os estudantes em verdadeiras "latas de sardinha", sem ventilação e estrutura adequadas, além de promover a quase completa eliminação dos espaços de acolhimento e organização do movimento estudantil.

No último dia 18 se iniciou a demolição dos Centros Acadêmicos de Ciências Agrárias e Tecnologia e Urbanismo, onde as condições eram similares a todo o campus, mas se torna, como sempre, definitiva “área modelo” de “desenvolvimento” para a UEL. Nesse momento, o movimento estudantil, iludido com a ocupação desorganizada de espaços ociosos e desorganizado com sua entidade geral (DCE) quase que inativa, se prepara para um momento de reorganização, que exige a retomada dos trabalhos de um movimento estudantil combativo e conectado com a base estudantil, no combate a uma administração conciliatória e pelo fim das Políticas de Austeridade e precarização da educação e das condições de vida da juventude e das classes trabalhadoras.