O Futuro que a Revolução de Outubro criou
Não podemos jamais ver a Revolução Russa como “mais uma revolução” no século XX. Ela é A revolução. Não há antes da Revolução Russa e depois da queda da URSS surgiu qualquer experiência verdadeiramente duradoura de poder proletário.

Valentina Tereshkova, cosmonauta soviética, primeira mulher a ir ao espaço. Imagem: WikiCommons
Por Jaqueline Tavares
Há 109 anos, em 25 de outubro no calendário juliano, até então em uso na Rússia, mas no 7 de novembro do calendário gregoriano, estourava a Revolução Russa, um levante proletário sob a liderança do Partido Bolchevique e de Vladimir Lênin que mudaria a história de todo o século XX. Hoje, mais do que nunca, é necessário lembrar a relevância e o papel dessa revolução, que tem sido difamada por mentiras e minimizada por equívocos.
O mundo no qual estourou a Revolução Russa traz muitas semelhanças com o que habitamos. À época, assim como hoje, o capitalismo dominava o globo e avançava em seu período imperialista, com o conflito entre burguesias se escalando em direção à guerra total. Se hoje o mesmo se expressa em conflitos ainda localizados – na Ucrânia, no Oriente Médio e em regiões da África – em 1914, os trabalhadores do mundo viram estourar uma Guerra Mundial.
A posição dos bolcheviques, liderados por Lênin e principais agentes da Revolução de Outubro, era de recusa total ao conflito, pois entendiam que essa era uma guerra que só interessava à burguesia, que enriquecia e disputava territórios e recursos enquanto os trabalhadores morriam no front. O lema dos bolcheviques, “pão, paz e terra”, defendia o combate à fome, a retirada da guerra e a mudança da propriedade de terra em um país de latifúndios de origem feudal, foi a palavra-guia que permitiu, somada à ação política constante dos bolcheviques juntos aos trabalhadores, que os proletários tomassem o poder em 1917.
A Revolução Russa é um episódio complexo e fundamental da luta dos trabalhadores. Nosso esforço é, então, retomar o seu papel, seu legado e sua relevância, que têm sido minimizados e ocultados. O primeiro aspecto desse legado são as próprias transformações que ocorreram na União Soviética. A antiga Rússia czarista, que possuía um dos mais autoritários regimes, um altíssimo grau de desigualdade e um atraso tecnológico considerável quando comparado a outros países da Europa; passou por um dos maiores crescimentos econômicos da história, por uma redução brutal da desigualdade e por um avanço tecnológico que a levou ao espaço, que só ocorreu a partir da tomada do poder político pelos proletários liderados pelo partido bolchevique.
As dificuldades foram muitas: a Guerra Civil na década de 1920, os conflitos internos e expurgos nos anos 1930, o massacre conduzido pelos nazistas durante a guerra nos anos 1940. Ainda assim, a União Soviética chegou aos anos 1950 não apenas como uma potência, mas tendo conquistado direitos e condições de vida para os trabalhadores que só se espalhariam pelas sociedades capitalistas décadas depois.
A taxa de alfabetização saltou de 28,4% em 1897, durante o regime czarista, para 99% nos anos 1970. O acesso à saúde também cresceu; garantida como direito gratuito e universal, passou-se de 1,8 médicos para cada 10 mil habitantes em 1913 para 32,7 em 1975, um processo ligado também à expansão da educação e da formação de profissionais qualificados visando os interesses da população.
Outro setor em que a URSS foi pioneira foi no avanço dos direitos das mulheres. Já nos decretos de dezembro de 1917 e no Código da Família de 1918, o novo poder assegurou o casamento civil, o divórcio, a igualdade jurídica entre homens e mulheres e o fim da autoridade do marido sobre a esposa. O aborto foi legalizado já em 1920, proibido na década seguinte e legalizado novamente ao fim da guerra, nos anos 1950. Ainda que não possamos falar de uma igualdade absoluta, o avanço na conquista de direitos, na igualdade formal e no acesso a oportunidades foi muito maior do que em qualquer outro país na mesma época. A título de exemplo, na União Soviética, em 1963, 29% dos trabalhadores da engenharia (até hoje, uma área dominada por homens) eram mulheres; nos Estados Unidos, no mesmo período, menos de 2% dos engenheiros eram mulheres.
O legado bolchevique não se limita à URSS. No rastro da Revolução de Outubro, a humanidade viu uma série de revoluções na Europa e, nas décadas seguintes, em todo o globo, algumas reprimidas, algumas bem-sucedidas. Todas as grandes revoluções do século XX – a Chinesa, a Coreana, a Cubana, os levantes anticoloniais na África – foram fortemente influenciadas pela Revolução Russa.
Apesar das diferenças que podem ter surgido entre cada um desses levantes e a política bolchevique, é inegável que o período inaugurado pela Revolução Russa abriu a janela histórica que permitiu a construção dessas revoluções. Desde a prestação de ajuda direta da URSS aos revolucionários - o que é particularmente claro no caso cubano – até o sentido moral que uma revolução proletária bem sucedida trazia para os trabalhadores de todo o mundo, não podemos jamais ver a Revolução Russa como mais uma revolução no século XX. Ela é A revolução.
Nem antes da Revolução Russa e nem depois da queda da URSS surgiu qualquer experiência verdadeiramente duradoura de poder proletário. Com o fim da experiência soviética, as experiências socialistas previamente existentes começam a se degenerar e ceder à lógica do capital - primeiro a China, nos anos 1980, e agora Cuba, com os crescentes processos de privatização, fruto da constante pressão dos Estados Unidos sobre a ilha, como demonstra reportagem do Jornal O Futuro de agosto.
O impacto da URSS foi geral nas disputas políticas mesmo no mundo capitalista. Motivado, influenciado e fortalecido pela presença de regimes socialistas pelo mundo, o movimento operário se manteve ativo. A década de 1960 foi particularmente marcada por lutas por direitos civis, movimentos de estudantes, mulheres e trabalhadores de maneira geral. O “medo vermelho” pressionava as burguesias de todo o globo; em alguns lugares, isso levou à conquista de direitos; em outros, a repressão burguesa aos trabalhadores culminou na ascensão de regimes fortemente autoritários e repressivos, como no caso da América Latina, da Coreia do Sul e do Japão. Toda a história do século XX foi impactada pelo outubro de 1917 na Rússia.
Com o fim da URSS, o que tem ocorrido são diversas tentativas de apagar e distorcer essa história. Setores mais reacionários da burguesia fazem de tudo para ocultar os enormes avanços conquistados pela União Soviética, ao mesmo tempo que espalham mentiras tentando colocar o regime como o mais violento da história, comparando-o ao nazismo. À esquerda, narrativas aparentemente progressistas distorcem e minimizam o papel dessa revolução. Alguns fazem coro às narrativas de “totalitarismo” na URSS. Outros colocam-na em como mais uma revolução. Há aqueles que ainda a consideram importante, mas desconhecem ou distorcem os princípios que permitiram sua construção.
O que precisamos lembrar, neste outubro, é que muitos dos direitos que temos hoje como garantidos são legado do Futuro que a Revolução Russa gerou. Outra importante lição é que se queremos retomar a luta iniciada pelos operários em 1917, reconquistar o que perdemos e avançar ainda mais a posição dos proletários do mundo, só podemos fazê-lo compreendendo, realmente, sobre quais bases essa revolução aconteceu.