Menos oportunidades para quem trabalha: redução da EJA no Paraná amplia desafio da escolarização de jovens e adultos

Oferta da Educação de Jovens e Adultos (EJA) encolheu significativamente durante a gestão Ratinho Jr. (PSD), enquanto milhões de paranaenses seguem sem concluir a educação básica

31 de Julho de 2026 às 20h00
Sala de aula com professora e estudantes do EJA, adultos e idosos

Fonte: Autarquia Municipal de Educação da Prefeitura de Apucarana

Por João Oliveira

A Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade destinada a garantir o direito à escolarização de pessoas que interromperam os estudos ao longo da vida, atravessa um período de forte retração no Paraná. Dados do Censo Escolar mostram que, desde o início da gestão Ratinho Jr. (PSD), a oferta da modalidade diminuiu de forma expressiva, reduzindo o acesso de trabalhadores, desempregados, donas de casa, pessoas idosas e outros segmentos da população paranaense que buscam concluir o ensino fundamental ou médio.

Os números mais recentes revelam a dimensão desse cenário. Em 2019, no primeiro ano de mandato da atual gestão estadual, todas as redes de ensino do Paraná somavam 172.185 matrículas na EJA. Em 2025, esse total caiu para 75.543 matrículas, uma redução superior a 56%. A maior parte dessa queda ocorreu na rede estadual, que passou de 125.881 para 35.827 estudantes matriculados no mesmo período, uma retração de 71,5%.

Os dados contrastam com a realidade educacional do estado. Segundo o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 4 milhões de paranaenses com 18 anos ou mais ainda não concluíram a educação básica. Desse contingente, aproximadamente 2,7 milhões não terminaram sequer o ensino fundamental, enquanto outros 1,3 milhão concluíram essa etapa, mas não chegaram ao ensino médio. 

Na prática, isso significa que a rede de EJA atende apenas uma pequena parcela da população potencialmente beneficiária da modalidade. 

Ao contrário do ensino regular, cuja redução de matrículas está relacionada à diminuição da população em idade escolar, a demanda da EJA permanece elevada, conforme podemos observar a partir dos dados apresentados acima. 

O envelhecimento da população e as mudanças demográficas reduziram o número de crianças e adolescentes matriculados nas escolas paranaenses, mas o contingente de jovens e adultos com baixa escolaridade continua expressivo, representando aproximadamente um terço da população do estado. Muitos deixaram a escola precocemente para ingressar no mercado de trabalho, enfrentar dificuldades econômicas ou assumir responsabilidades familiares. 

Para esse público, a EJA representa uma das principais portas de retorno ao sistema educacional. Neste cenário, a redução da oferta tende a dificultar esse retorno justamente para trabalhadoras e trabalhadores que dependem do ensino noturno ou de modelos flexíveis de organização escolar. 

Inclusive, a diminuição da EJA ocorreu paralelamente à redução das matrículas no ensino noturno da rede estadual. 

Entre 2019 e 2025, o número de estudantes matriculados no período noturno caiu de mais de 210 mil para cerca de 83 mil, segundo dados do Censo Escolar. O noturno atende principalmente jovens trabalhadores e adultos que conciliam emprego e estudo. 

A combinação entre menos turmas noturnas e menor oferta de EJA tem sido um fator que dificulta o acesso à escolarização para parte significativa da população trabalhadora no Paraná. 

Os dados também evidenciam a distância entre a necessidade existente e a capacidade atual de atendimento. 

Considerando os mais de 4 milhões de jovens e adultos sem conclusão da educação básica identificados pelo IBGE, as cerca de 75 mil matrículas registradas na EJA em 2025 correspondem a menos de 2% do público potencial da modalidade. Esse percentual demonstra que a EJA permanece distante de atender toda a demanda existente no estado.

Embora nem todos os jovens e adultos sem escolarização desejem retornar imediatamente à escola, a existência de uma ampla rede pública é condição necessária para que esse direito possa ser efetivamente exercido. 

Nos últimos anos, o governo Ratinho Jr. priorizou iniciativas como a ampliação do modelo de escolas cívico-militares, a expansão gradual do ensino em tempo integral, alterações na organização curricular e mudanças administrativas na rede pública, além da tentativa de privatização das instituições de ensino através do programa Parceiro da Escola, que transferiu a administração e organização do ambiente das escolas públicas para empresas privadas. Essas prioridades, inclusive, foram acompanhadas pela diminuição dos investimentos destinados à modalidade voltada às trabalhadoras e aos trabalhadores paranaenses. 

A Constituição Federal de 1988 estabelece que o Estado deve assegurar o acesso gratuito à educação básica também para aquelas e aqueles que não tiveram a oportunidade de estudar na idade adequada. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) reforça essa obrigação ao determinar a oferta de oportunidades educacionais apropriadas às características da população jovem e adulta.

Nesse contexto, a EJA não constitui uma política complementar, mas uma modalidade integrante da educação básica brasileira. 

Em um estado onde quase metade da população adulta ainda não concluiu o ensino médio, a manutenção e a expansão dessa política pública permanecem como um dos principais desafios para a redução das desigualdades educacionais e para a ampliação das oportunidades de formação da classe trabalhadora.