Estados Unidos da América avançam sobre o petróleo venezuelano
Anunciados em agosto e setembro, os negócios encontram no governo de Delcy Rodríguez (PSUV) um interlocutor disposto a confundir os interesses do imperialismo estadunidense com um suposto desenvolvimento nacional venezuelano

Protesto em frente ao Consulado Americano em Brasília, 5 de janeiro de 2026. Foto: Jornal O Futuro
Desde a operação militar que retirou Nicolás Maduro do poder, em janeiro de 2026, os Estados Unidos da América atuam diretamente na reorganização política e econômica da Venezuela. Em 28 de agosto, o presidente Donald Trump anunciou um acordo que assegura aos Estados Unidos controle majoritário sobre ativos associados a mais de 65 bilhões de barris de reservas venezuelanas. Dias depois, a multinacional estadunidense Chevron divulgou planos de investir mais de US$ 7 bilhões para ampliar a produção de suas empresas no país.
Os acordos combinam interesses empresariais e instrumentos do Estado estadunidense. Segundo informações da Casa Branca reportadas pela EFE, o negócio com a North American Blue Energy Partners (NABEP), dirigida pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt, prevê participação do Departamento de Defesa dos EUA na empresa controladora e veto sobre nomeações para seu conselho de administração. Já os contratos das empresas mistas da Chevron com a estatal PDVSA foram adaptados à legislação de hidrocarbonetos reformada em janeiro de 2026, convertendo a nova correlação de forças em influência sobre decisões empresariais e garantias para os investimentos estadunidenses.
Esses acontecimentos fazem parte do esforço dos EUA para reforçar sua posição na América Latina diante da concorrência com outras potências imperialistas, especialmente a China. Nas últimas décadas, empresas e bancos chineses ampliaram seus vínculos comerciais, financeiros e energéticos com países da região. Na Venezuela, essa presença se desenvolveu por meio de empréstimos e compras de petróleo, ligando parte das receitas e dos compromissos externos do país às relações com Pequim. Ampliar a influência sobre a indústria petrolífera venezuelana permite aos EUA disputar esses vínculos econômicos e estratégicos, assim como as decisões sobre investimento e comercialização. A concorrência envolve o poder de diferentes capitais, chineses ou estadunidenses, sobre a economia do país. Assim, a própria presença chinesa também se orienta por seus próprios interesses de acumulação de capital, e não oferece, por si, uma saída para a dependência venezuelana.
A disputa em torno da indústria petrolífera envolve toda a estrutura necessária à produção e à circulação do petróleo: terminais, oleodutos, refinarias, armazenamento e fornecimento de energia. O alcance regional dessa política dos EUA aparece também no Panamá, onde o Pentágono associou, no ano passado, a ampliação da cooperação militar à contenção da influência chinesa e ao acesso de embarcações estadunidenses ao canal. Com instrumentos distintos em cada país, os EUA procuram reforçar sua capacidade de assegurar recursos e circulação para seus capitais, ao mesmo tempo que restringem o espaço dos concorrentes que buscam o topo da pirâmide do sistema imperialista internacional.
Em 2 de setembro, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, recebeu o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, durante a assinatura de acordos com Chevron, Eni e outras empresas estrangeiras. Rodríguez afirmou esperar que o acordo firmado entre a Venezuela e os EUA também beneficiasse o povo estadunidense. Wright declarou que a energia seria o “catalisador” da transformação venezuelana e manifestou a intenção de estender o modelo ao continente.
Observa-se que o governo venezuelano passou a apresentar os acordos com a potência que atacou o país como caminho para sua recuperação. Trata-se de um governo que, em sua história, buscou construir sua legitimidade popular em torno da soberania e da oposição ao imperialismo, mesmo que de maneira limitada. A pressão do imperialismo estadunidense pesa sobre essas decisões, mas sua implementação também depende de escolhas do governo venezuelano. Ao adaptar contratos e oferecer novas garantias às empresas, a direção do PSUV organiza internamente as condições dessa aproximação. A participação de um empresário venezuelano à frente da NABEP mostra, ainda, que há capitais locais inseridos nos negócios. Forma-se uma articulação na qual Washington amplia sua influência, empresas obtêm oportunidades de exploração e a direção governante apresenta a entrada de investimentos como fundamento de sua continuidade política. A recuperação econômica passa a ser vinculada às condições exigidas pelos agentes que pretendem se apropriar de seus resultados.
É contra essa articulação que se colocam as denúncias do Partido Comunista da Venezuela (PCV). Em sua análise sobre o acordo de 28 de agosto, o PCV relaciona as concessões da cúpula do PSUV à busca de sua sobrevivência política em um momento de crise generalizada. Questiona a pouca transparência das negociações e denuncia condições favoráveis às transnacionais enquanto os trabalhadores enfrentam deterioração dos salários e dos serviços públicos. Sua crítica alcança tanto a pressão estadunidense quanto as decisões internas que permitem transformar essa pressão em novos privilégios para o capital.
O PCV vincula o enfrentamento dessa política à defesa dos direitos democráticos do povo venezuelano, à participação popular nas decisões sobre os recursos nacionais e à restituição da ordem constitucional. Propõe, nesse sentido, uma ampla unidade popular e anti-imperialista. A denúncia procura disputar o significado da soberania: o governo a apresenta como preservada pelos acordos com os Estados Unidos e os representantes do grande capital, enquanto os comunistas questionam quem pode decidir sobre o patrimônio nacional e a quais interesses ele está sendo submetido.
A promessa do governo venezuelano de ampliar a produção petrolífera não resolve o conflito sobre o destino da riqueza produzida. As condições oferecidas às empresas, a participação estatal nas receitas e a capacidade dos trabalhadores de defender salários, serviços públicos e direitos determinam quem se beneficia dessa suposta recuperação econômica. Por isso, a defesa da soberania exige enfrentar também as relações internas que subordinam as necessidades populares aos negócios do capital e à preservação dos grupos no poder.
A declaração internacional subscrita pelo PCBR ainda em setembro de 2025 combina a rejeição à intervenção estadunidense com a defesa das liberdades democráticas e da luta independente dos trabalhadores venezuelanos. Os acordos atuais mostram a importância dessa combinação: a oposição à agressão externa dos EUA não exige apoiar as concessões da direção do PSUV, e a crítica ao governo não abre qualquer espaço para legitimar a tutela estadunidense. Para os trabalhadores latino-americanos, a experiência venezuelana mostra como o imperialismo se sustenta também nos interesses das classes dominantes dos próprios países dependentes e nas decisões do Estado que os assegura. Romper essa dependência exige a organização independente da classe trabalhadora para disputar o poder e colocar a riqueza produzida sob seu controle, vinculando a luta pela soberania à transformação socialista da sociedade.