Altman, Prashad e todos os homens do aiatolá
Sob a desculpa de “dar voz ao outro lado”, “contrapondo a mídia imperialista”, se reivindicam representantes do “Sul Global” quando são, na verdade, porta-vozes e mesmo entusiastas do discurso oficialista desses países.

Imagem da bandeira do Irã retratando, ao fundo, o aiatolá Mojtaba Khamenei. Em primeiro plano, da esquerda para a direita: Hugo Albuquerque, Vijay Prashad e Breno Altman. Reprodução/Fotos: Bandeiras Online; @IraninHyderabad via X; @hugoalbuquerque via Bluesky; The Walter Rodney Foundation; Opera Mundi. Composição: Jornal O Futuro.
“A era das guerras nacionais passou. Esta é uma guerra imperialista, e a tarefa dos socialistas é transformar a guerra ‘nacional’ em uma guerra civil.”
-V. I. Lenin, “O proletariado e a guerra”, 1914.
Por Leonardo Vinhó
Nos últimos dias foi divulgada uma carta assinada por Angela Davis, Rashid Khalidi, Mumia Abu-Jamal, Judith Butler, entre outras figuras marxistas ou do campo progressista, em solidariedade aos presos políticos do Irã, que “por um lado, enfrentam a dominação da República Islâmica; do outro, as forças imperialistas às quais essa República afirma se opor”. Antes de sequer ser propriamente apreciado ou mesmo traduzido, porém, o texto foi suplantado por uma grita das figuras do campismo, como o jornalista e fundador do portal Opera Mundi Breno Altman, o publisher da revista Jacobin Brasil e editor da Autonomia Literária Hugo Albuquerque e, internacionalmente, o historiador e diretor executivo do Instituto Tricontinental Vijay Prashad, na tentativa de interditar o seu alcance.
Ávidos em blindar a monarquia iraniana de qualquer crítica, se apressaram em publicar vídeos e textos contra a carta e seus autores, arrebanhando atrás de si uma horda de ataques contra os chamados “identitários”, como o homem cis branco Michael Löwy, e “estadunidenses antes de tudo”, como o historiador indiano Jairus Banaji, o jornalista egípcio Hossam el-Hamalawy ou o escritor sírio Yassin al-Haj Saleh. Independentemente do desenvolvimento da história, com alguns signatários retraindo suas assinaturas e dizendo que o conteúdo foi alterado antes da publicação, as posições defendidas tanto na carta quanto pelos kautskistas do nosso tempo precisam de um contraponto proletário urgente.
Duas formas de um mesmo erro
Embora a carta acerte ao rejeitar “a falsa dicotomia entre imperialismo e antiimperialismo vazio” (fundamento político que define o campismo atual), a posição expressa pode e deve ser criticada pelo seu conteúdo, em última instância, liberal. Embora seja verdade que o Irã se trate de um “sistema que afirma se contrapor ao sistema imperial enquanto usa a mesma lógica de dominação e sistemas de encarceramento, tortura e execução”, a carta erra ao propor que imperialismo se define por essa lógica. Tratam-se tão somente de dois fatos concomitantes com um mesmo denominador comum. Imperialismo se define, ao menos nos termos leninistas, como o desenvolvimento do capitalismo em que se conformam monopólios industriais e bancários, bem como a fusão destes em um capital financeiro. Os demais fenômenos são manifestações, isto é, consequências dessa nova fase e meios que esse capital encontra, em cada uma das quadras históricas, para realizar as suas novas necessidades de exportação e reprodução (incluídas aqui as guerras). Atribuir a lógica de dominação a uma “ideologia de exclusão” é mistificar o problema e confundir as causas com as suas justificativas ideológicas. É preciso esclarecer as motivações fazendo a denúncia dos interesses de classe que mantém a repressão iraniana de pé, que suprimem as manifestações operárias no interesse da manutenção da dominação das classes burguesas no poder.
Em última instância, o texto falha em fazê-lo e cai numa abordagem “democratista” da realidade iraniana, que fala em um “autoritarismo” abstrato sem se perguntar aos interesses de qual classe essa autoridade serve. O que é especialmente decepcionante vindo de marxistas históricos como Banaji e Davis, que deveriam ter claro que “uma revolução é a coisa mais autoritária que existe; é o ato através do qual uma parte da população impõe sua vontade à outra parte por meio de fuzis, baionetas e canhões, meios autoritários como poucos”. Ao, como dizem, se comprometer com um projeto de “anti-autoritarismo” sem conteúdo de classe, semeiam apenas ilusões liberais no seio da classe trabalhadora ao reforçar, ainda que indiretamente, o pressuposto dicotômico entre autoritarismo e democracia, fundamento ideológico da política externa estadunidense para justificar suas agressões. Neste aspecto, é inegável a acusação dos campistas de que essa posição, em última instância, ajuda a angariar apoio ideológico entre trabalhadores da justificativa estadunidense.
Contudo, é importante que aqueles que gritam “linha auxiliar do imperialismo!” aos assinantes da carta atentem-se de que a esquerda campista pode e deve ser acusada do mesmo erro. Ao suprimir, igual e deliberadamente, qualquer análise de classes em nome do famigerado “não é o momento”, ou dizer que o Irã e a guerra atual seriam “antiimperialistas”, também semeiam a mesma confusão ideológica e afastam o proletariado dos seus interesses de classe. Terceirizam suas tarefas da luta antiimperialista para um país que jamais vai realizá-las e atuam, na prática, como linha auxiliar de um governo burguês, de uma monarquia religiosa cujo objetivo estratégico de sua política externa desde 1979 é “exportar a ‘revolução’”, traduzido no apoio a outras organizações xiitas na região.
Uma coisa deve ficar muito clara aos dois lados: não existe país capitalista “antiimperialista”. Se entendemos o imperialismo como etapa superior de desenvolvimento do próprio capitalismo, das forças produtivas e do padrão de reprodução do capital em escala global, não existe a menor seriedade em afirmar a existência de qualquer Estado capitalista cujas classes dominantes burguesas sejam contrárias à própria lógica do capital, à consequência do seu próprio processo de acumulação e centralização, à conformação de monopólios, etc. Para sermos justos na análise, é preciso reconhecer que não é nisto que acreditam os campistas, pois há muito já abriram mão do conceito leninista em favor de uma definição vulgar que os permita defender todo e qualquer tipo de regime, desde que algum dia a burguesia daquele país decida se alinhar ao bloco das nações descontentes com sua posição na cadeia imperialista.
No melhor cenário, ainda assim estaríamos diante de uma ingenuidade tal que propõe seriamente a possibilidade de girarmos a roda da história para trás, de apoio a um conjunto de burguesias bondosas que desejem trazer uma nova era de livre comércio e concorrência no mercado mundial. Como isso seria possível e se manteria não é claro, afinal os mestres da realpolitik também serão os primeiros a nos lembrar que não existe espaço vazio na política. Na eventual queda apenas de uma potência hegemônica sem que ela ocorra por via de revoluções proletárias, ou seja, mantendo inatacadas as relações sociais capitalistas, o que ocorre é tão somente uma redistribuição de capital entre os Estados e uma reorganização do bloco no poder. Outro país tomaria a frente do sistema para viabilizar novos ciclos de reprodução do capital, como foi o caso da derrocada da hegemonia inglesa e a passagem à hegemonia estadunidense. Por isso as divergências entre países capitalistas não podem ser seriamente caracterizadas como conflitos antiimperialistas, mas tão somente interimperialistas, já que o princípio básico da existência de dois blocos em disputa pelo poder, aberta ou velada, não é que os dois estejam em pé de igualdade, mas sim que um esteja de fato exercendo sua dominação enquanto o outro apenas almeje este posto.
No pior cenário, trata-se da defesa desavergonhada da política externa oportunista de se alinhar com o bloco dos BRICS e demais países em antagonismo com os Estados Unidos e a Europa. Da mesma forma que os campistas são habilidosos em apontar como a posição liberal da carta favorece os EUA e o sionismo ao ajudar a criar base de apoio ideológico às intervenções em favor da “democracia” no Irã, é preciso honestidade para reconhecer que na prática também agem como correia de transmissão das burguesias e dos governos de Rússia, Irã, China, Brasil, Venezuela, da Síria durante o governo Assad, etc. Se os autores da carta estariam tão “viciado[s] na inconsciência da hipernormalização dos regimes (...) imperialistas a ponto de fazer desaparecer a relação entre opressores e oprimidos”, é preciso honestidade para reconhecer que fazem o mesmo com a relação entre opressores e oprimidos em regimes burgueses antagonistas ao imperialismo. O próprio editor da Jacobin Brasil enfatiza que a agressão imperialista e sionista admitidamente mantém operativos de espionagem dentro do Irã e, somado ao fortalecimento de “setores mais conservadores ao frustrar saídas diplomáticas” para a guerra, isto estimula a paranoia dentro do país persa e aumenta o número de prisões de quaisquer críticos. Ora, como podem estes senhores falar algo assim e ainda crer que a melhor forma de mitigar a questão é angariar apoio incondicional e irrestrito ao governo?
Sob a desculpa de “dar voz ao outro lado”, “contrapondo a mídia imperialista”, se reivindicam representantes do “Sul Global” quando são, na verdade, porta-vozes e mesmo entusiastas do discurso oficialista desses países. Convido-lhes a ler este outro texto de Prashad. Percebam como a mentira do apoio “momentâneo” e devido exclusivamente “ao contexto” da guerra se desfaz rapidamente e nosso representante extraoficial do Irã vibra com a possibilidade do país "definir a agenda, decidir quais armas, bases e alianças são desestabilizadoras, controlar as vias navegáveis pelas quais passa a riqueza da região". Não existe, nem no rebaixamento teórico ao liberalismo da carta e nem na posição dos oportunistas, o menor desejo visível de romper com a estrutura do sistema de Estados nacionais construída pelo capitalismo nascente. Apenas a torcida de que o Irã e seus demais aliados capitalistas passem ao papel de novas lideranças hegemônicas desse sistema e a esperança de que os novos senhores sejam mais benevolentes.
Os primeiros a falar em uma “falsa simetria” entre dois países em guerra, em relações desiguais, em hierarquias de poder e dominação, contraditoriamente minimizam com eufemismos ou “se esquecem” de aplicar essa mesma lógica entre classes, entre dominantes e dominados de um mesmo Estado. Propositadamente borram as divisões de classes, e o caráter de classe dos Estados que defendem, lançando mão até mesmo de comparações esdrúxulas com a União Soviética, Vietnã e Cuba. Tudo para arregimentar apoio e defender, nas bases, a política externa desse bloco de nações capitalistas, que ambicionam se reposicionar com uma nova divisão do trabalho a partir do vácuo deixado por um eventual declínio estadunidense. É preciso ter claro que o oportunismo campista de hoje é uma ideologia das burguesias ascendentes no sistema internacional, representadas e defendidas por seus Estados-nações e justificada por seu conjunto de ideólogos; nunca do proletariado revolucionário ou qualquer um que esteja ao seu lado.
Afinal, dizem eles, “não existe terceira via”, e, no que depender do seu continuado apoio a alternativas burguesas e supressão das posições proletárias, jamais permitirão que exista. O que esse oportunismo faz na verdade é sufocar e esconder a posição revolucionária dentro dos países que defendem para exaltar uma posição nacionalista que só beneficia e fortalece a classe dominante. Quando a carta fala nas execuções em massa de milhares de pessoas em 1988 no Irã, por exemplo, também é de comunistas iranianos que se está tratando, o próprio Prashad o reconhece em seu texto — ainda que apenas para, logo em seguida, relativizar com o eufemismo “repressão” e justificar chacinas contra revolucionários em troca de um “compromisso firme com a Palestina”. O Partido Tudeh, com todos os problemas e divergências de linha, históricos e atuais, segue na ilegalidade até hoje, com seu Comitê Central vivendo no exílio. Quando foi a última vez que os oportunistas deram voz a ele ou a outro partido revolucionário (e não os partidos linhas auxiliares do social-liberalismo de cada nação), ou defenderam o fim de sua ilegalidade? Para os arautos do campismo, trata-se somente de um sacrifício necessário no altar do “bem maior” de uma luta “antiimperialista”.
O oportunismo campista ontem e hoje
É importante destacar que nada disso é novo. Em 1914, numa comparação infinitamente mais honesta com a nossa realidade e com a classe dominante iraniana, diversos social-democratas alemães, franceses, ingleses, etc. também se agarravam nas desculpas esfarrapadas de “seu país é quem começou esta guerra, só estamos nos defendendo”, em negar o caráter imperialista já adquirido pela Alemanha e em afirmar que “derrotar o imperialismo inglês deve ser nossa prioridade”. Tudo para passar a defender a continuidade da guerra ao lado de suas burguesias nacionais. Como os oportunistas de hoje, defenderam a paz temporária com suas classes dominantes, as políticas da “União Sagrada” (Union sacrée) na França e a “Paz do Castelo” (Burgfrieden) na Alemanha. Enquanto isso, Lênin e Rosa Luxemburgo, cujos nomes os campistas tanto arrotam, em nenhum momento deixaram de defender que a solução consistia em agitar com toda a força pela revolução, em fazer da guerra interimperialista uma guerra de classes dentro de todos os países beligerantes; que apenas a revolução proletária era a resposta adequada e realista à guerra, uma vez que as disputas interimperialistas levariam a novas guerras indefinidamente. E para que não haja ilusões, também foram chamados de sectários, utópicos, irrelevantes e descolados da realidade, compondo uma minoria de esquerda mesmo dentro do movimento que reuniu os poucos social-democratas opositores à guerra.
Claro que, frente a essas acusações, os campistas dirão que o apoio ao “inimigo do meu inimigo” supostamente ajudaria a “criar condições” para a derrubada do capitalismo. Que melhores condições podem existir senão tomar parte nas lutas de classe em favor do proletariado, agitar desde já pela revolução e ajudar a difundir a consciência revolucionária? Ainda mais se entendemos que o imperialismo a ser combatido é o estágio atual do capitalismo, e não a política externa belicista de um país particularmente vil. Lembremos o quão danosa foi a política de alimentar corvos apoiando o Estado nacional alemão em 1914, e como isso resultou na social-democracia ocupando ministérios no governo e lutando contra a revolução alemã de 1918.
Talvez repitam uma vez mais que a suposta importância de apoiar o Irã, em última análise, residiria no seu apoio à causa palestina. Essa narrativa foi muito alardeada em 2024, quando Israel e Irã trocaram uma série de mísseis e muito se comemorou afirmando tratar-se da entrada do Irã em uma guerra “em defesa da Palestina”, ainda que com um ano de atraso após o início da atual etapa do genocídio em Gaza. Passados dois anos, é importante que tenhamos consequência do que se propaga e se prestem contas a respeito dessa narrativa. Em primeiro lugar, o Irã atacou após bombardeios terem matado os líderes do Hamas e do Hezbollah (uma organização xiita libanesa, não palestina), bem como vários altos funcionários de seu consulado em Damasco, na Síria. Logo, a “guerra em defesa da Palestina” se limitou a duas saraivadas de mísseis pontuais, em julho e outubro, como retaliações unicamente quando o próprio governo e/ou seus aliados se tornaram alvo, nunca motivada pelo princípio de luta contra o sionismo e pelo fim do genocídio.
Se o ímpeto em apoiar a causa palestina é assim tão grande, e se juram de pés juntos que apoiam a classe trabalhadora e a revolução, por que não vemos o mesmo empenho em divulgar textos e declarações de organizações revolucionárias palestinas? Aqui não se pode dizer que “não existe alternativa”, pois elas existem, como o Partido Comunista Palestino. É nítido que o discurso da falta de alternativas é uma mentira fabricada para justificar a escolha política deliberada de emprestar apoio ao governo iraniano. No limite, trata-se apenas de uma volta extra antes de cairmos no mesmo etapismo: primeiro haveria que se derrubar o sionismo, quiçá todo o imperialismo estadunidense, para que o povo palestino possa conformar uma sociedade capitalista estável e desenvolvida. Só então, num futuro longínquo — e contando com a sorte de não surgir uma extrema-direita palestina disputando as eleições que precise ser eternamente derrotada nas urnas —, poderemos enfim sequer cogitar a hipótese do socialismo. O oportunismo de ontem e de hoje guardam pouquíssimas diferenças, e a lição que nos ensinam é sempre a mesma: para eles a revolução proletária seria sempre para amanhã, nunca hoje. Haveria sempre uma etapa anterior a cumprir, um bicho-papão a derrotar, para que as condições supostamente fiquem “mais fáceis”. E os que discordam, colocando a revolução na ordem do dia, devem ser suprimidos.
As nossas tarefas
O campismo é possivelmente a posição política mais insidiosa dos nossos tempos, precisamente por tentar nos desarmar política e ideologicamente para as lutas de classe. Tendo emplacado sua definição vulgar e anti-leninista de imperialismo/antiimperialismo e uma reencenação farsesca de Guerra Fria, goza hoje de tamanha hegemonia que suas fronteiras são quase indistinguíveis dos limites da própria esquerda. Com isso, faz parecer que toda oposição só pode advir do campo da direita, do lobby sionista, do partido Democrata, do identitarismo, etc. É preciso romper o quanto antes com essa posição oportunista e iniciar um combate que demarque novas fronteiras a partir de uma linha proletária na política internacional, que recoloque em primeiro plano a solidariedade entre classes, e não entre Estados burgueses; que busque superar o próprio sistema imperialista a partir de revoluções socialistas em vez de reformá-lo substituindo o hegemon; que busque romper com a lógica personalista e caricatural de antagonizar o “imperialismo estadunidense” com supostos mocinhos da política internacional.
A consolidação de praticamente todo o globo em Estados nacionais burgueses, com o fim das guerras de libertação nacional na segunda metade do século XX, não deve deixar qualquer dúvida ou resquício de etapismo. Não vivemos mais um período de colônias e metrópoles. São raros, embora emblemáticos, os casos em que um movimento nacional burguês talvez ainda possa desempenhar algum caráter “progressivo”, principalmente porque até mesmo nestes países a transição para um sistema de relações de produção capitalistas já está há muito completa. Vivemos hoje numa mesma estrutura imperialista, ocupando diferentes posições, e perpassada por diversas etapas produtivas de um punhado de empresas monopolísticas, bem como fluxos de exportação de capital que a gerenciam, afluindo do grupo de países imperialistas para extração de mais-valor dos países dependentes em aliança com suas burguesias locais. Em menor grau, esse capital também deriva das “potências médias”, países subimperialistas que, embora dependentes, atingiram a condição monopolística em alguns setores (como as famigeradas “campeãs nacionais” brasileiras) e passam a exportar capital, extrair matérias-primas e explorar a força de trabalho em países puramente dependentes, buscando influenciar na sua política.
O Irã de hoje não é mais o pobre país feudal do início dos anos 1900. Trata-se de um país cuja participação do setor manufatureiro (isto é, contabilizadas as indústrias de transformação e produção de mercadorias manufaturadas, e excluindo-se os setores de extração de matérias-primas e energia) no seu Produto Interno Bruto (PIB) orbita solidamente os 16% desde 1991, tendo ultrapassado a casa dos 20% desde 2020. A título de comparação, a última vez que o Brasil atingiu mais de 20% desse mesmo índice foi em 1994, e hoje gira em torno de 12%. Isto é um indicativo de sua consolidada posição enquanto país de composição orgânica de capital média dentro da estrutura de acumulação mundial. Qualquer empreendimento de tornar essa guerra um interesse “do Irã”, tentando colocar o proletariado à reboque das classes dominantes em “união nacional”, como pretende Prashad, não pode senão arrancar risadas: o que interessa ao proletariado daquele país, enquanto classe, “se o Irã deve permitir o comércio por suas águas territoriais sem impedimentos”? Voltamos a um rebaixamento tal que autoproclamados defensores da revolução agora propõem como a questão mais importante da esquerda que uma paz democrática se instale e os fluxos de comércio mundial sejam normalizados, precisamente como em 1914?
Para estes senhores a grande vitória estratégica das classes trabalhadoras iranianas seria que sua burguesia volte a lucrar como antes da guerra, porventura até mais, em maior posição de dominação regional! Pois as notícias sobre o lucro das burguesias afetadas pelo conflito certamente os deixarão radiantes. Segundo dados da Oxfam, “41 bilionários do setor energético dos países do G7 (Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido) aumentaram sua riqueza em 23,5 bilhões de dólares desde o início da guerra”. A empresa saudita Aramco já lucrou sozinha 25%, ou 32,5 bilhões de dólares a mais do que no período anterior. As expectativas de lucro extra para as chinesas PetroChina e CNOOC juntas somam 25 bilhões, e da Companhia Nacional de Petróleo Iraniana (NIOC) é por volta de 8 bilhões de dólares a mais. As principais empresas de produção armamentista, como RTX, Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, BAE Systems, L3Harris e Honeywell, por sua vez, partilharam entre si o aumento de 500 bilhões de dólares no orçamento de defesa aprovado pelo governo estadunidense após participarem de reuniões na Casa Branca. Com a volatilidade do mercado financeiro, os seis principais bancos de investimentos americanos — JPMorgan Chase, Bank of America, Citigroup, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Wells Fargo — lucraram uma média de 13,44% a mais nos três primeiros meses do ano na comparação com o mesmo período de 2025. Dados do London Stock Exchange Group mostram aumentos ainda mais vertiginosos nos meses seguintes. Eis os verdadeiros vencedores da guerra. Enquanto as marionetes do aiatolá comemoram uma suposta derrota do imperialismo com uma recolocação do Irã na posição de potência regional dominante, mistificando a realidade, o imperialismo no seu real sentido enquanto etapa superior de desenvolvimento do capitalismo segue se fortalecendo nos setores altamente monopolizados.
O Irã não é uma vítima que só desejava sua modernização capitalista e foi brutalmente solapada pelos Estados Unidos. Trata-se, isto sim, de um dos países intermediários nessa cadeia, cuja burguesia no poder desde o golpe de 1979 tomou a decisão política de se alinhar com um novo bloco capitalista que lhe viabilize uma melhor posição na divisão internacional do trabalho e melhores níveis de acumulação de capital. Ao que parece, alguns intelectuais ditos de esquerda decidiram trabalhar de graça na divulgação da propaganda oficialista desses capitalistas, na busca por um mundo ideal em que essas burguesias possam se aliar livremente sem impedimentos. Da mesma maneira que, na política doméstica, estes senhores insistem na centralidade de eleger um governo social-liberal sem nunca tratar da derrubada da dominação burguesa, também na política externa tentam nos convencer dos benefícios que uma mudança no bloco de países capitalistas hegemônicos traria, sem nunca tratar da derrubada do sistema imperialista como um todo.
Por tudo isto a situação atual se aproxima muito mais das condições europeias que levaram ao conflito de 1914 do que as ridículas comparações anteriores, uma vez que todos os envolvidos partilham das condições de pleno desenvolvimento do capitalismo enquanto estrutura global de produção, com governos burgueses dirigidos por interesses dessas classes, em que um bloco está disposto a vitimar seus trabalhadores em guerras que os alçarão à hegemonia do sistema, e o outro fará o mesmo sacrifício para manter sua dominação. O proletariado do Irã não tem nada que ver com essa escolha, pois sua posição diz respeito somente aos seus interesses de classe, e esses são os da tomada do poder.
Portanto, é evidente que a principal tarefa da vanguarda revolucionária estadunidense deve ser travar a luta mais ferrenha contra sua burguesia e agitar incessantemente pela revolução proletária, denunciando as guerras no exterior que vitimam trabalhadores em todo o mundo em nome do enriquecimento dos setores energético, bancário, industrial-militar e adjacentes, e buscando colocar fim à substituição de hegemons do sistema a partir da luta comunista e do internacionalismo proletário. Igualmente, a tarefa dos revolucionários iranianos é conquistar a independência de classe do proletariado iraniano e agitar incessantemente pela revolução; denunciar a hipocrisia do discurso “antiimperialista” de conveniência, que surge apenas quando os interesses de suas classes dominantes são desafiados; denunciar sua burguesia enquanto a classe que impediu a revolução em 1979, que segue explorando trabalhadores com condições de vida cada vez piores e segue criminalizando a atuação dos revolucionários até hoje. O proletariado iraniano, uma vez tomado o poder em suas mãos, é a única classe do país capaz de levar à termo uma luta antiimperialista consequente, ou seja, anticapitalista, bem como apoiar a luta revolucionária do proletariado palestino e nos demais países vizinhos, pois é o seu princípio e seu interesse objetivo de classe pôr fim ao sistema capitalista, sem condicionar isto a ganhos privados.
Finalmente, a tarefa do PCBR, bem como demais organizações revolucionárias do mundo é tomar parte ativa no Movimento Comunista Internacional; se empenhar em reconstruí-lo em sólidas bases teóricas e estratégicas marxista-leninistas; dar combate incessante ao oportunismo, rompendo as ilusões com supostas burguesias “antiimperialistas” e os erros táticos que nos coloquem à reboque das burguesias locais; apoiar umas às outras com a visibilidade que não nos será concedida pelos “defensores” do “Sul Global” e recompor a solidariedade de classes para superar o sistema de Estados nacionais; e reafirmar a urgência de organizar o proletariado enquanto força política independente e agitar pela revolução socialista.