Financiamento e pressão política dos Estados Unidos marcaram a disputa eleitoral do Brasil

Subida do tom do governo Trump e o apoio do braço tecnológico do Vale do Silício lançaram luz sobre as tentativas de interferência estrangeira nas eleições brasileiras

2 de Novembro de 2026 às 0h00

Foto: Divulgação no Instagram de Flávio Bolsonaro

Por Eduardo Machado

Em 1º de outubro, Donald Trump afirmou acompanhar “muito de perto” a eleição brasileira. A declaração ocorreu em meio ao estreitamento de relações com Flávio Bolsonaro (PL), que, em março, apresentou o Brasil como solução para o acesso dos EUA às terras raras. Em carta de junho, o secretário de Estado Marco Rubio também registrou a oferta de Flávio de colocar uma equipe de transição à disposição de Washington caso fosse eleito.

No início do mesmo mês, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à Polícia Federal (PF) que apurasse uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. A solicitação ocorreu após o jornal britânico The Guardian revelar a concessão de US$ 1 milhão pelo Departamento de Estado ao projeto “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”, voltado a apoiar organizações contrárias à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). A PF, entretanto, não instaurou inquérito e arquivou o pedido, alegando, à época, a falta de indícios mínimos de ilícito ou de interferência eleitoral.

Entretanto, passado o período eleitoral e com o acúmulo de novas denúncias sobre manipulação algorítmica e de um suposto esquema de financiamento estrangeiro, através da Rockbridge Network – ligada ao Partido Republicano dos EUA –, ambos em favor da campanha de Flávio Bolsonaro, o Ministro do STF Flávio Dino determinou, em 27 de outubro, que a Polícia Federal abra um inquérito de investigação sobre diversos casos apontados. A manipulação envolve plataformas como Facebook, Whatsapp e Instagram, da Meta, e o X, enquanto a investigação do financiamento estrangeiro envolve também dois empresários brasileiros, Tallis Gomes e Pedro Sang, associados ao grupo conservador estadunidense associado ao Partido Republicano.

Os interesses econômicos dos Estados Unidos nas movimentações de pressão política aparecem em empreendimentos como o Projeto Caldeira, da australiana Meteoric Resources, no sul de Minas Gerais. Um memorando de 2024 com a canadense Ucore prevê o fornecimento futuro de pelo menos 3 mil toneladas anuais de terras raras para processamento nos EUA. A cadeia em negociação inclui a fabricante de ímãs Vulcan Elements, investida pelo fundo 1789 Capital, do qual Donald Trump Jr. é sócio. Essas articulações expressam a disputa entre capitais monopolistas, dos EUA e da China, por matérias-primas, mercados e oportunidades de investimento. A pressão de Washington sobre o Brasil integra essa concorrência, na qual os Estados atuam para assegurar as condições de expansão da atuação de seus grandes grupos econômicos.

Outros episódios repercutiram antes do primeiro turno. A Ascensus Global anunciou uma vaga de instrutor de português brasileiro para treinar militares e funcionários do governo estadunidense. Em 2 de outubro, os EUA suspenderam serviços consulares presenciais, alegando preocupações de segurança, e o FBI seguia monitorando ameaças às instalações estadunidenses; a Austrália, citando as orientações estadunidenses, também comunicou o fechamento de sua embaixada naquele dia.

As denúncias de manipulação contra plataformas digitais 

Após o primeiro turno, mais de 100 organizações e especialistas de 25 países divulgaram uma carta denunciando violações das regras eleitorais por empresas de tecnologia. O documento citou anúncios financiados por contas estrangeiras, recomendações de candidatos por inteligência artificial e imagens falsas sem identificação de uso de IA.

Um levantamento do NetLab, laboratório da UFRJ, citado na carta, analisou 2.326 anúncios relacionados ao processo eleitoral nas plataformas da Meta. Nessa amostra, 68,1% atacavam instituições ou levantavam suspeitas sobre a condução das eleições.

Em 16 de outubro, a Folha revelou mensagens internas da Meta que registravam restrições ao impulsionamento de publicações de Lula e recomendações do perfil de Flávio no Instagram e de seu canal no WhatsApp. A empresa atribuiu os episódios a falhas técnicas e negou favorecimento político.

O controle privado dessas plataformas permite que decisões empresariais sobre circulação e alcance de informações afetem o debate político e a capacidade de disputa da classe trabalhadora. As denúncias colocam em discussão o poder desses grupos sobre os meios pelos quais milhões de trabalhadores se informam e se organizam. 

A aproximação de Flávio (e sua família) com Washington ofereceu aos interesses estadunidenses um aliado na disputa pelo governo brasileiro. Essa relação encontra apoio em setores da burguesia brasileira associados ao capital estrangeiro, particularmente, o capital estadunidense. Por isso, a defesa dos recursos naturais, dos direitos e das liberdades de organização exige enfrentar também os interesses capitalistas que sustentam essa subordinação dentro do país.

Os trabalhadores podem e devem atuar ao lado de outros setores contra a ingerência estrangeira e a extrema-direita, desde que levantando alto a bandeira de sua independência política, o que nesse momento significa construir uma oposição ao governo Lula, precisamente por ser um governo que administra os interesses dos capitalistas brasileiros. Para os comunistas, cada luta deve ampliar essa capacidade de ação independente e fortalecer a construção de um partido revolucionário: uma organização capaz de unir os enfrentamentos cotidianos à luta pelo poder político dos trabalhadores e pela transformação socialista da sociedade.