Expansão Cultural da Samambaia: o trabalho de quem produz cultura na periferia

Festival reúne artistas do Distrito Federal, fortalece a produção cultural local e debate a precarização de quem trabalha com arte e cultura.

20 de Outubro de 2026 às 0h00

Atax no Grafitti. Foto: Gabriela Pires

Por Luciano Rocha

Desde 2024, o Festival Expansão Cultural ocupa a Expansão de Samambaia Norte com música, exposições, DJs e outras manifestações artísticas. Em sua terceira edição, realizada em 22 de agosto no Salão Comunitário de Samambaia Norte, o festival contou, pela primeira vez, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).

Samambaia ainda está distante do circuito cultural do DF, relegando aos agentes culturais locais a tarefa de criar espaços que ampliem o acesso da comunidade às manifestações artísticas. O festival também evidencia uma questão que costuma ficar em segundo plano quando se fala do setor: quem são os trabalhadores que produzem tudo isso e em que condições trabalham?

Durante o festival, artistas denunciaram a precariedade da infraestrutura, do transporte e das condições para produzir. Como afirma o cantor e compositor Vitex:

“A gente tá precisando de muita coisa. Hoje a gente teve apoio do FAC, mas muitas vezes isso aqui aconteceu sem qualquer apoio. O que está sendo visto hoje não é visto todo dia, e quando as luzes se apagam nem todo mundo sabe o que acontece nas ruas da Samambaia.”

A fala evidencia um problema que vai muito além do financiamento de um evento. Para grande parte dos artistas independentes, produzir ainda não garante a própria subsistência. É preciso vender a força de trabalho em outras atividades, muitas vezes marcadas pela informalidade, para pagar as contas e, inclusive, financiar a própria produção artística.

Os produtores do evento, Sujo e Layla Marinho, conhecem bem essa realidade. Entre entregas, panfletagens e serviços em buffets, também organizam eventos, divulgam atividades e elaboram projetos. O acúmulo de jornadas gera uma sobrecarga que atinge especialmente as mulheres e reproduz desigualdades que atravessam o conjunto da classe trabalhadora.

A discussão, portanto, não pode se limitar ao acesso do público: o artista é um trabalhador que precisa de renda, tempo, transporte, equipamentos e espaço para produzir. Sem essas condições, a atividade cultural é empurrada para a informalidade e precisa ser conciliada com outras jornadas de trabalho.

Isa Marques no palco. Foto: Gabriela Pires

A cultura, enquanto parte da formação dos valores de uma sociedade, não está separada das relações sociais que a produzem. É, portanto, um terreno de intensa disputa. Manifestações construídas de forma independente, especialmente nas periferias, tendem a expressar experiências concretas de quem vive e trabalha nesses territórios, desvelando as contradições do capitalismo. Por isso, o capital busca tanto sufocar essas manifestações quanto cooptá-las, transformando-as em mercadoria inofensiva. A independência de classe para criar também depende, portanto, das condições materiais para que os próprios trabalhadores possam produzir.

O Expansão Cultural mostra que a periferia não apenas consome a produção hegemônica, mas produz e organiza sua própria cena com muita qualidade. Porém, quando as luzes do festival se apagam, permanecem os artistas, produtores e trabalhadores que precisarão voltar aos seus outros empregos. Produzir cultura precisa ser um trabalho do qual se viva.