Conflitos agrários na AMACRO estariam ligados a famílias bilionárias do Sudeste brasileiro
Casos recentes em Rondônia e no Amazonas, que terminaram com assassinatos de cinco pessoas, teriam ligação com famílias da alta elite de São Paulo e Minas Gerais

A expansão do latifúndio e do agronegócio na região da AMACRO — área de integração entre Amazonas, Acre e Rondônia — tem sido acompanhada por uma escalada da violência no campo. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazônia/Reprodução/PortalAmazônia (https://portalamazonia.com/meio-ambiente/municipios-amacro-agropecuaria/)
A história da AMACRO — área de integração entre Amazonas, Acre e Rondônia — é marcada por um modelo de ocupação baseado na concentração fundiária, no avanço da fronteira agropecuária e em sucessivos conflitos pela posse da terra. Desde as políticas de colonização da Amazônia nas décadas de 1970 e 1980, a expansão do latifúndio e do agronegócio foi acompanhada pelo deslocamento de comunidades tradicionais, pela grilagem de terras públicas e pelo aumento da violência contra trabalhadores rurais.
Décadas depois, esse cenário continua produzindo mortes, despejos e denúncias de violações de direitos humanos. Casos recentes mostram que famílias empresariais milionárias do Sudeste brasileiro estariam no centro de conflitos fundiários que resultaram em assassinatos de camponeses que lutam pelo direito à terra, revelando como o poder econômico continua exercendo influência sobre disputas fundiárias em uma das regiões mais conflituosas da Amazônia.
Na região rural do distrito de Tabajara, que pertence a Machadinho d’Oeste, município de Rondônia localizado a 297km da capital Porto Velho, dois irmãos, Alex e Alessandro, foram assassinados durante uma operação de despejo que aconteceu em novembro de 2025 em decorrência de processos judiciais movidos pelo espólio do empresário paulista João Carlos Di Genio, fundador do Grupo Di Genio, responsável pela rede de ensino Objetivo e pela Universidade Paulista (UNIP), para obter o usucapião (direito de propriedade de um bem ou móvel) de terras públicas onde haviam três acampamentos com mais de 400 famílias.
Já em Boca do Acre divisa com Lábrea, no Amazonas, uma investigação policial apura a possível participação de integrantes da família Coelho Diniz, a maior acionista do Grupo Pão de Açúcar, como mandantes de uma chacina ocorrida em abril deste ano que terminou com a morte de três pessoas, entre elas, um adolescente de 14 anos.
O caso envolvendo o Grupo Di Genio
Segundo relatório do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Agrários (DEMCA), órgão vinculado ao MDA, o conflito envolvendo áreas reivindicadas pelo espólio de João Carlos Di Genio, falecido em 2022, passou a ser monitorado em outubro de 2023, após denúncias de violência contra famílias acampadas na zona rural de Machadinho d'Oeste.
Ainda naquele ano, a Comissão Pastoral da Terra (CPT-RO) comunicou ao governo federal o assassinato da liderança camponesa José Carlos dos Santos, morto a tiros em Theobroma. Sua esposa também foi baleada durante o ataque.
Nos meses seguintes, representantes do MDA receberam sucessivos relatos de intimidações praticadas contra moradores dos acampamentos Ipê, Harpa e 1º de Maio.
Um dos documentos encaminhados ao governo federal afirma que seguranças privados contratados pelo fazendeiro responsável pela área teriam destruído moradias, plantações de subsistência e pertences das famílias, além de invadir residências e realizar ameaças.
O relatório também registra denúncias de que pistoleiros conhecidos na região como "guaxebas", acompanhados por policiais militares, teriam participado de incursões nos acampamentos para intimidar os trabalhadores rurais.
Fotos anexadas ao processo mostram homens armados, alguns encapuzados, identificados como integrantes da empresa de segurança privada Proteção Máxima. Nas imagens, aparecem também motosserras, o que levou o DEMCA a levantar a hipótese de que crimes ambientais atribuídos posteriormente aos moradores dos acampamentos poderiam, na verdade, estar sendo praticados por esses grupos.
Ao longo de 2025, o Ministério do Desenvolvimento Agrário encaminhou diversos ofícios ao Judiciário de Rondônia, ao Tribunal de Justiça, à Secretaria de Segurança Pública e ao Comando-Geral da Polícia Militar solicitando informações e alertando para o agravamento da situação.
De acordo com o relatório, nenhuma dessas comunicações recebeu resposta O documento também afirma que juízes responsáveis pelos processos de reintegração de posse entenderam que não havia conflito agrário coletivo, deixando de encaminhar os casos à Comissão Permanente de Conflitos Fundiários do Tribunal de Justiça de Rondônia, procedimento previsto para situações dessa natureza.
Entre os dias 17 e 20 de novembro de 2025, foi realizada uma ampla operação de reintegração de posse que retirou aproximadamente 440 famílias dos acampamentos Ipê, Harpa e 1º de Maio, localizados no distrito de Tabajara.
Segundo os relatos reunidos pelo MDA, barracos foram destruídos, plantações de milho e mandioca foram arrasadas e animais domésticos ficaram abandonados após a ação policial.
O episódio também ficou marcado pela morte dos irmãos Alex e Alessandro, trabalhadores rurais que, segundo familiares e testemunhas ouvidas pelo ministério, desenvolviam um projeto de produção de mel.
A Polícia Militar sustentou que ambos reagiram à operação utilizando uma “garrucha”. Entretanto, essa versão é contestada pelos moradores dos acampamentos, que afirmam que a arma apresentada pela polícia estava em uma condição “imprestável” e que os irmãos jamais enfrentariam o forte aparato empregado na ação, incluindo helicóptero, veículo blindado e dezenas de policiais.
Outro ponto destacado pelo documento é a presença, no comboio da operação, de diversos veículos descaracterizados, levantando suspeitas sobre possível participação de fazendeiros, seguranças privados ou pistoleiros durante o cumprimento da ordem judicial.
Poucos dias após a operação, uma missão do Governo Federal retornou a Tabajara para ouvir moradores sobre as denúncias de violência.
Conforme o relatório, o encontro foi interrompido pela chegada de oficiais de Justiça acompanhados por dezenas de policiais militares fortemente armados.
Segundo o MDA, idosos, mulheres, crianças, gestantes e pessoas com deficiência permaneceram cercados durante horas dentro da associação comunitária onde ocorria a reunião.
De acordo com o coordenador-geral de Planejamento Estratégico do DEMCA, Diego Diehl, que estava no local, a preocupação era de que a operação servisse para identificar lideranças comunitárias e repassar informações a pistoleiros que atuariam na região.
Na avaliação do ministério, houve tentativa de impedir ou dificultar os trabalhos da missão federal, além de violação ao direito constitucional de reunião e de livre locomoção.
O caso envolvendo a família Coelho Diniz
Há pelo menos oito anos, camponeses que lutam pelo direito à terra na região de Lábrea e Boca do Acre convivem com ameaças, expulsões e assassinatos em meio aos conflitos agrários envolvendo propriedades atribuídas à família Coelho Diniz. Durante esse período, moradores de diversas comunidades afirmam que vivem sob um clima permanente de medo, o que impediu muitas vítimas e testemunhas de denunciarem publicamente a violência.
A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 19 de junho de 2026 representa um marco nesse histórico de denúncias: é a primeira vez que uma investigação jornalística da imprensa burguesa revelou depoimentos de suspeitos que apontam integrantes da família Coelho Diniz como mandantes de uma chacina ocorrida em Lábrea, trazendo à tona uma realidade denunciada há anos por trabalhadores rurais da região.
Antes disso, as denúncias eram encaminhadas principalmente ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal. Segundo relatos de camponeses e a Comissão Pastoral da Terra, diversas investigações não conseguiram identificar ou responsabilizar os autores intelectuais da violência. As comunidades de Bom Lugar, Ramal do PA Monte e Ramal do 52 estão entre as áreas que acumulam denúncias de ameaças, expulsões e homicídios relacionados às disputas pela terra.
Um camponês, que terá sua identidade preservada por razões de segurança, relata que, em 2018, foi expulso de sua propriedade, no Ramal do 52, por homens armados que atuavam como jagunços, acompanhados por policiais militares. "Eles chegaram dizendo que a terra era deles, mas eu nunca tinha ouvido falar nesse nome. Eu vivia ali desde 2014", acrescenta. Segundo o trabalhador, eles retiraram as 25 famílias que lá habitavam por meio de uma liminar judicial expedida na época.
As vítimas mais recentes dessa escalada de violência foram Josias Albuquerque de Oliveira, de 45 anos, Antonio Renato Vieira de Souza, de 32 anos, e Arthur Henrique, adolescente de 14 anos, mortos em uma emboscada no dia 25 de abril de 2026, no Ramal que liga o assentamento P.A. monte, nas proximidades da BR-317, divisa entre Lábrea e Boca do Acre. Uma quarta pessoa sobreviveu ao ataque.
De acordo com depoimentos prestados à Polícia Militar e posteriormente à Polícia Civil, obtidos pela Folha de S.Paulo, um dos autores confessou a participação na chacina e afirmou que o crime teria sido cometido "a mando do patrão", identificando Moisés Diniz, filho do empresário Alex Sandro Coelho Diniz, como mandante. Posteriormente, durante audiência de custódia, o acusado alterou sua versão e alegou ter sido pressionado durante o interrogatório.
A polícia declarou que a investigação segue em andamento. Mas os camponeses alegam forte influência dos latifundiários nos órgãos de segurança de Lábrea e Boca do Acre, que inviabilizam uma profunda investigação.