O desenvolvimento da luta eleitoral em 2026 e os rumos que o PCBR aponta

O Comitê Central (CC) do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) se reuniu no domingo, dia 26 de julho, para avaliar o desenvolvimento das forças em disputa nas eleições burguesas em 2026. O presente artigo visa a disparar uma discussão de atualização de nossa tática eleitoral, desenvolvida e apresentada ao público em dezembro de 2025. 

8 de Agosto de 2026 às 16h00
Fotografia histórica em preto e branco mostra uma sessão da Duma no Palácio Táuride, com dezenas de deputados sentados em fileiras semicirculares enquanto um parlamentar discursa diante da assembleia.

Discurso de um deputado da Quarta Duma durante uma sessão no Palácio Táuride, São Petersburgo. Fonte: Site oficial da Duma Estatal da Federação Russa, History of the State Duma.

Fotografia preservada no Arquivo Central Estatal de Documentos Fotográficos e Cinematográficos de São Petersburgo (ЦГАКФФД СПб).

As eleições burguesas em 2026 têm desenvolvido de maneira ainda mais acirrada as tendências principais já expressas pelo PCBR desde o XVII Congresso, exigindo dos comunistas um constante refino de sua tática. Por um lado, a extrema-direita, fragmentada mas com destaque para a candidatura de Flávio Bolsonaro, segue sua agenda de agitação demagógica, militarista e antipopular, apoiando-se em um projeto de espoliação e saqueamento do fundo público por oligarquias e milícias locais, cúpula militar e setores parasitários, que resulta em ataques frontais aos trabalhadores como o fim dos direitos trabalhistas, o fechamento do regime democrático burguês para uma versão autocrática e um anticomunismo prático e retórico.  Por outro lado, a “Frente Ampla” de conciliação de classes representada pela candidatura de Lula, que apesar de restabelecer investimentos mínimos em alguns serviços públicos e garantir o funcionamento das instituições democrático-burguesas, expressam interesses contrários aos trabalhadores e mantém o país ancorado nas amarras do arrocho fiscal e da submissão ao capital financeiro. Apesar de expressarem diferentes formas de gestão do Estado, com impactos e métodos distintos para manterem a exploração do trabalho, ambas somente oferecem ilusão para a classe trabalhadora brasileira. Ambas concordam no essencial: para garantir o capitalismo em nosso país é necessário privatizações, redução de direitos trabalhistas e previdenciários. Mesmo que o façam de maneiras distintas, seja pela destruição das condições de reprodução da vida via barbárie e predação, seja pela irrigação de lucros aos monopolistas e ao capital financeiro pela mão do Estado com uma cara “progressista”, ambas só oferecem aos trabalhadores as migalhas que caem da mesa dos grandes capitalistas.

Não consideramos que o enfrentamento da extrema-direita se dará por meio da construção de alianças com parcelas da burguesia, expressas hoje na frente ampla. Em primeiro lugar, porque a derrota das novas expressões do fascismo não ocorrerá nas urnas. Independentemente da vitória eleitoral, tais grupos mantêm seu crescimento devido à crise do sistema iniciada em 2008, e seu impacto nas taxas de desemprego, na perda de direitos da classe trabalhadora e nas demais respostas das classes  dominantes para manter sua exploração — a exemplo da transferência de capitais para regiões periféricas e dos deslocamentos de imigrantes para países centrais. Em segundo lugar, porque, conforme apontado, o apoio aos partidos social-democratas e liberais aprofunda o capitalismo no Brasil e suas contradições.

No seio da “esquerda”, as respostas às pressões para enquadramento à ordem burguesa são distintas. Por um lado, vemos o PSOL de conjunto prestando apoio à Frente Ampla, ainda que com nuances por parte de algumas correntes. Os setores reformistas, majoritários no partido, reafirmaram sua adesão inconteste à conciliação de classes e ao governo burguês; já os setores socialistas do PSOL, destacam-se não por sua oposição anticapitalista por princípio à social-democracia, mas por defenderem a tática de que a Frente Ampla seria um “freio de contenção” ao fascismo. A ala esquerda desse “campo”, aderindo à iniciativa da Bancada da Esquerda Radical, busca responder à submissão acrítica ao petismo com uma plataforma focada em reformas estruturais e na disputa do orçamento público que, apesar de suas boas intenções, estrutura um programa etapista, ou seja, mais planejamento estatal, reorientação da política de juros do Banco Central e uso de mecanismos como a Nova Indústria Brasil com contrapartidas sociais. Essa agenda, num cenário de terra arrasada, pode soar como um alento para setores da vanguarda, mas encontra seu limite ao confiar que o Estado burguês possa ser convertido em indutor do bem-estar social redistribuindo o fundo público para burguesias industriais. Deixar para segundo plano, mesmo que momentaneamente, a ruptura e a reorganização socialista do Estado - em uma solução etapista -, acaba por reeditar, intencionalmente ou não, a ilusão de que é possível gerir as contradições do capital a favor do trabalho, alimentando o próprio sistema que nos explora. 

No outro lado do espectro, vemos a incapacidade da esquerda revolucionária em unificar-se sob um programa comum de medidas classistas e sob uma única candidatura no terreno das eleições majoritárias. PSTU, UP e PCB, cada qual a seu modo, abandonaram a tarefa de constituir seriamente uma discussão programática e tática em comum no terreno eleitoral, que poderia ser um verdadeiro polo para a disputa das massas de trabalhadores para uma alternativa socialista. Nós mesmos, enquanto PCBR, também não tivemos a capacidade política e a força de agitação necessárias para ser a ponta de lança da superação dessa dispersão. Essa falha coletiva dos revolucionários acabou por cobrar um preço alto ao privar a classe trabalhadora de enxergar uma alternativa socialista coesa frente ao avanço da extrema-direita e às ilusões da conciliação.

O CC do PCBR tem autocriticado as posições que definiu nas eleições de 2024. A falta de apontamentos unificados e fronteiras de classe melhor definidas, combinada com a falta de candidatos do próprio Partido, nos levou a uma multiplicidade de apoios que, não raramente, seguiam critérios programáticos bastante débeis. O erro na seleção dos apoios estava na transposição mecânica da dinâmica de criação de unidade para as lutas de massas em geral para as lutas eleitorais em particular – um desvio impressionista, baseado em uma leitura espontaneísta e pouco científica do que seria a unidade sob um programa proletário para eleições, ainda por cima municipais, que tendem ainda mais à fragmentação e ao localismo, dois dos principais inimigos da unidade da classe trabalhadora.

Assim, quando elencamos nossa tática para o atual ano, buscamos superar essa debilidade apontando que o rumo deveria ser a unificação de todas as organizações revolucionárias sob candidaturas unificadas – construindo um programa que contasse com medidas programáticas convergentes com os interesses do proletariado e apontassem um projeto de país e de poder para a classe trabalhadora. No âmbito de outras candidaturas proporcionais, estivemos dispostos por princípio a prestar nosso apoio a candidaturas que i) não compõem o atual governo burguês; ii) são completamente independentes da burguesia; iii) defendem a revolução socialista no Brasil.

Paralelamente, apresentamos um camarada ao pleito eleitoral que pudesse ser a nossa voz na construção desse polo alternativo, em oposição frontal à extrema-direita e à conciliação de classes, e que apresentasse nosso Programa Socialista para a Revolução Brasileira. O camarada Jones Manoel, que estaria à frente dessa tarefa, infelizmente rompeu com a tática eleitoral, o Programa e a estratégia do Partido, o que nos deixou impossibilitados de avançar por esse terreno.

Com as mudanças ocorridas, no cenário como um todo – a impossibilidade de apresentação de nosso Programa por meio de uma candidatura própria e a indisposição dos partidos revolucionários com registro eleitoral (UP, PCB, PSTU) em construir essa unidade –, é preciso redebater a tática dos comunistas.

Em primeiro lugar, acreditamos que o ponto central dessas eleições é combater a falseada polarização entre extrema-direita e Frente Ampla, elevada à disputa central por determinados setores. Compreendemos essa polarização como produto do avançar da crise capitalista internacional e do esgotamento da direita democrática tradicional brasileira que faz com que, na aparência, a Frente Ampla seja o único escudo viável contra a extrema direita, mas, em sua essência, a médio prazo, prepare o terreno para o próprio retorno desta mesma extrema-direita. Aqui, não vemos qualquer espaço para semear ilusões: o apoio, explícito ou implícito, a Lula não se justifica de nenhuma forma, nem por este suposto “combate à extrema-direita”, nem por uma incapacidade dos revolucionários de se unificarem. Toda e qualquer concessão à Frente Ampla no primeiro turno, em que, mesmo não estando unificados, há alternativas eleitorais socialistas, é abandonar as fileiras da luta de classes para as fileiras da conciliação de classes. O nosso papel é, portanto, pensar como as atuais candidaturas socialistas existentes, mesmo que fragmentadas, possam ser usadas como momento de agitação e organização da vanguarda, criticando profundamente os limites da institucionalidade burguesa e construindo as condições para que a classe trabalhadora deixe de ser refém do “menos pior”.

Temos, assim, três candidaturas em questão, e apresentamos nossa avaliação sobre elas.

A candidatura de Samara Martins, pela UP, tem sido sem dúvidas a mais bem sucedida do ponto de vista de massas, por um trabalho comunicacional importante. Concordamos em geral com os temas apresentados pelos companheiros da UP. Entendemos que é uma campanha que defende abertamente a sociedade socialista, o que vemos positivamente. No entanto, entendemos que falta um debate mais concreto na candidatura. A propaganda do socialismo está correta, mas aos companheiros da UP tem faltado apresentar suas visões sobre o atual governo de conciliação de classes nessa campanha, nem por que motivo se negaram a batalhar por uma candidatura unificada, em um cenário de necessária unidade entre os revolucionários.

A candidatura de Hertz Dias, pelo PSTU, tem apresentado um programa com pautas proletárias corretas, criticando tanto a Frente Ampla, quanto à extrema-direita e, apesar de nossas divergências com os companheiros em inúmeras questões internacionais, não as têm apresentado na atual campanha ou em seu manifesto. Porém, ponderamos ainda mais duramente com o PSTU do que com os demais em torno da irresponsabilidade para com a unidade dos revolucionários: quando, ainda no ano passado, lançamos nossa proposição, os companheiros tinham as melhores condições em apresentar uma proposta unitária que pudesse unificar as legendas e, consequentemente, a esquerda revolucionária para a tática eleitoral. Não apenas não o fizeram, como abriram mão abertamente disso, ao negar agitar e pressionar as bases do PCB e da UP para que essa unificação pudesse ocorrer sob um programa unitário.

A candidatura de Edmilson Costa, pelo PCB, tem sido a mais fraca das três. Inicialmente, lançaram um manifesto da pré-candidatura que defendia uma “Revolução Democrática” como o rumo apresentado pelo partido às eleições. A correção, sem explicações, deu origem a um texto muito mais conciso, em que elencam medidas que tomariam se fossem governo. Não nos parece que a caracterização esteja também correta, porque não há condições de vitória e nem é parte das posições comunistas a participação em governos no capitalismo. A confusão também aparece em medidas ligadas à auditoria da dívida pública, à reforma agrária e em uma visão utópica sobre o internacionalismo, além de, como a UP, não abordarem concretamente as condições dessa campanha e o cenário eleitoral em si, se negando a criticar abertamente o governo Lula.

Dessa maneira, não consideramos que nenhuma das candidaturas tenha um diferencial em particular que possa ajudar na construção da unidade entre os revolucionários. O voto em qualquer uma delas é igualmente válido e expressa o sentimento de uma vanguarda expandida, que já rompeu com as ilusões na Frente Ampla e está disposta a cerrar fileiras contra um possível sexto governo burguês social-liberal do PT. Para além disso, precisamos usar o momento eleitoral para fortalecer a agitação e propaganda comunista, podendo até mesmo organizar debates com tais candidaturas, veicular a nossa posição e o nosso programa pelo Jornal o Futuro em cada local de trabalho, moradia e estudo. Podemos transformar estes espaços, que os nossos companheiros revolucionários com certeza estarão, mesmo que desunidos, em um local privilegiado para elevar a consciência da classe, tensionar os limites da democracia burguesa e construir a organização proletária para além das urnas.

No âmbito das eleições parlamentares, entendemos que também nossos apoios serão parciais e críticos, pelos motivos elencados. Destaca-se, é óbvio, o peso de massas da Bancada da Esquerda Radical, que — mesmo composta por alguns lutadores que usam o palanque parlamentar como instrumento de denúncia das mazelas do capital — acabam por se orientar  para ser a “consciência à esquerda” dos que apoiarão a Frente Ampla, seja por sua própria filiação partidária, como Renato Freitas, seja por diversos constrangimentos dos demais por serem parte do PSOL, um partido que também compõe o governo de Frente Ampla.

Entendemos, ainda assim, que o discurso e o posicionamento “radical” possa ter respaldo na massa dos trabalhadores e que, certamente, serão os candidatos mais combativos do campo que apoia Lula. Não ajudam, é claro, na conformação de uma unidade dos revolucionários, nem em sua base programática, nem pelos partidos pelos quais se lançam candidatos. Mas podem, pelos já demonstrados limites, fazer uma parte da classe trabalhadora que já está farta da política burguesa verificar, na prática, os limites de posições como essa, se eleitos. Não nos opomos a esses setores da classe e entendemos de onde vem suas angústias e de que maneira essas candidaturas, respondendo parcialmente a suas angústias, podem fazer avançar sua consciência até certo ponto.

Não é no terreno eleitoral que as mudanças necessárias para o nosso país serão produzidas. Apesar disso, em nossa atual quadra histórica, o terreno eleitoral pode ser uma trincheira de agitação e denúncia, por ser um momento em que milhões de trabalhadores discutem diretamente os rumos do país e buscam respostas para suas necessidades imediatas. Cabe a qualquer comunista, de norte a sul do país, transformar esse momento para ressoar as lutas do proletariado e dirimir qualquer ilusão de que o Estado burguês possa ser humanizado por dentro ou de que a via eleitoral seja o fim em si mesma, um campo privilegiado das lutas. A Revolução Socialista virá pela organização da classe trabalhadora e da capacidade dos comunistas de, através de um trabalho paciente, disciplinado e constante, organizar-se como destacamento de vanguarda e dirigir a classe trabalhadora.

Com base em todos esses elementos, o CC do PCBR insta aos trabalhadores e à militância comunista a se engajarem nos debates sobre as definições eleitorais que precisamos tomar para as eleições de 2026, compreendendo qual o papel dos comunistas em erguer o seu Programa e construir a agitação revolucionária no momento eleitoral. Nosso Partido organizará durante o mês de agosto diversas reuniões, desde as bases até a direção, para podermos chegar nas decisões que expressem os interesses do proletariado em luta e dar as bases para as nossas ações. Sem uma candidatura do PCBR, está claro que não teremos candidaturas comprometidas com o nosso Programa e com os rumos que apontamos para as lutas de classes, o que não é empecilho para demonstrarmos como o programa revolucionário é capaz de organizar a luta contra a austeridade fiscal, contra o desemprego, contra a violência policial e contra a destruição dos serviços públicos. Na luta parlamentar é preciso ter ainda mais cuidado e firmeza para que não confundamos o papel de um tribuno revolucionário com um iludido no papel da democracia burguesa. Não devemos tergiversar que a atuação na arena parlamentar configura-se somente como uma das táticas de luta para impulsionamento da organização independente da classe trabalhadora submetida à estratégia revolucionária.