A Copa das BETs: entre a Globo e a CazéTV, vence a indústria das apostas

Casas de apostas representam um dos segmentos mais lucrativos do mercado publicitário, oferecendo contratos milionários às emissoras, plataformas digitais e produtores de conteúdo

27 de Julho de 2026 às 16h00

Propaganda de casa de apostas em transmissão oficial da CazéTV durante o jogo do Brasil e Marrocos. Reprodução: Youtube/CazéTV (minutagem: 10:10).

Por Gabriel Xavier

A Copa do Mundo de 2026 trouxe novamente o problema da invasão das transmissões esportivas pela publicidade das casas de apostas. Em praticamente todos os jogos, o espectador é bombardeado por anúncios, inserções comerciais, patrocínios de programas, sugestões de apostas em tempo real e comentários que estimulam continuamente a participação nas plataformas de BETs. O espetáculo esportivo passou a ser uma vitrine permanente para um dos setores mais lucrativos e controversos do capitalismo contemporâneo.

A ênfase no problema ganhou mais força após a abertura de investigações sobre a CazéTV, acusada de promover publicidade abusiva ao incorporar sugestões de apostas, comentários sobre probabilidades de ganho e promoção comercial constante durante as transmissões dos jogos. A repercussão levou o governo federal a anunciar medidas para restringir esse tipo de propaganda, incluindo novas regras para anúncios e para a atuação dos próprios narradores e comentaristas.A própria ascensão da CazéTV foi frequentemente apresentada como uma ruptura com o modelo tradicional das grandes emissoras, apoiando-se em uma linguagem mais informal e em uma relação aparentemente mais espontânea com seu público. No entanto, essa diferença de estilo não representa uma diferença de interesses. A forma de comunicar pode ser diferente da televisão tradicional, porém a lógica que orienta o negócio permanece essencialmente a mesma. Enquanto empresa privada, a CazéTV está sujeita às mesmas pressões econômicas que orientam qualquer outro grupo de mídia, como ampliar a audiência, atrair patrocinadores e elevar sua rentabilidade.

A TV Globo, que durante décadas exerceu posição praticamente monopolista nas transmissões do futebol brasileiro, também veiculou publicidade de casas de apostas e firmou contratos milionários com empresas do setor. A diferença é que, diante do crescimento de um concorrente capaz de disputar audiência e receitas publicitárias, o problema das BETs passou a receber maior destaque justamente quando atingiu a nova plataforma digital. Isso não significa que as investigações sejam ilegítimas, mas revela que interesses econômicos concorrentes também influenciam a forma como o debate público é conduzido. 

Portanto, para os grupos de mídia mais tradicionais, não se trata de um mero problema ético, mas de eliminação de competidores. O consumidor aparece no discurso apenas enquanto argumento conveniente, não como verdadeira preocupação central. Quando as apostas geram receitas crescentes para todos os agentes envolvidos, pouco se discutia sobre seus impactos sociais. A questão ganhou urgência apenas quando a concorrência entre plataformas passou a alterar o equilíbrio do mercado.

Entretanto, concentrar toda a discussão na rivalidade entre Globo e CazéTV obscurece a questão principal. O problema das BETs não nasce da conduta isolada de uma empresa ou da personalidade de um influenciador. Ele decorre da própria lógica de mercantilização que caracteriza o capitalismo contemporâneo.

As casas de apostas comercializam uma promessa cuidadosamente construída, a possibilidade de enriquecimento rápido por meio do acaso. A publicidade procura transformar chances improváveis em oportunidades aparentemente irresistíveis, recorrendo a influenciadores, narradores esportivos e campanhas emocionalmente elaboradas para estimular apostas sucessivas. Não por acaso, um estudo da Brasil de Fato sobre as transmissões da Copa mostrou que 61% das apostas promovidas ao público resultaram em perdas para os apostadores, confirmando que o modelo de negócios depende estruturalmente de que a imensa maioria dos consumidores perca dinheiro ao longo do tempo.

Assim como qualquer outra mercadoria, o entretenimento também é organizado segundo critérios de rentabilidade. O esporte de alto rendimento, especialmente um evento da dimensão da Copa do Mundo, deixa de ser apenas um espetáculo esportivo para converter-se em um espaço privilegiado de lucro, no qual cada minuto de transmissão, cada intervalo e cada interação com o público possuem um valor comercial. Nesse contexto, as casas de apostas representam um dos segmentos mais lucrativos do mercado publicitário, oferecendo contratos milionários às emissoras, plataformas digitais e produtores de conteúdo.

Se determinados formatos de propaganda, como sugestões de apostas ao longo da partida, comentários sobre probabilidades ou inserções publicitárias integradas à própria narração, aumentam a arrecadação dessas empresas, existe um incentivo econômico permanente para sua expansão. É precisamente essa dinâmica concorrencial que explica por que a presença das BETs se tornou tão intensa nas transmissões esportivas dos últimos anos, é a consequência lógica de um mercado em que a busca incessante pelo lucro orienta as decisões empresariais.

As iniciativas recentemente anunciadas pelo governo para restringir parte dessa publicidade, embora reconheçam que a propaganda das BETs produz riscos concretos à grande massa de trabalhadores, ainda permanecem tímidas e insuficientes diante da escala do problema. Limitar anúncios em determinados horários, estabelecer regras para a atuação de narradores e influenciadores ou exigir mensagens de advertência são medidas que podem reduzir alguns dos excessos mais evidentes, mas dificilmente alteram a dinâmica econômica que sustenta a expansão das apostas esportivas. Enquanto as empresas continuarem autorizadas a explorar comercialmente um modelo de negócio baseado na ampliação constante do número de apostadores e do volume de apostas realizadas, a publicidade encontrará novos meios de atingir o público.

Além disso, as consequências sociais desse mercado recaem de maneira desproporcional sobre a classe trabalhadora. Em um cenário de elevado endividamento das famílias, a promessa de ganhos rápidos torna-se especialmente sedutora para aqueles que enfrentam dificuldades materiais. Não são raros os casos de trabalhadores que comprometem economias acumuladas ao longo de anos de trabalho, contraem dívidas ou utilizam recursos destinados ao consumo básico na expectativa de recuperar perdas anteriores.

Trata-se de uma lógica que se alimenta precisamente da vulnerabilidade econômica de milhões de pessoas. Nesse sentido, uma política verdadeiramente eficaz não pode limitar-se à regulamentação da propaganda, mas deve enfrentar também os mecanismos econômicos que permitem às casas de apostas transformar a insegurança financeira da população em uma fonte permanente de lucro.