Turquia, Arábia Saudita e Paquistão firmam pacto militar na disputa imperialista
O Acordo de Meca une Turquia, Arábia Saudita e Paquistão na cooperação militar e na disputa de suas burguesias por mercados e zonas de influência

O presidente turco Recep Erdogan (esquerda), o príncipe da Arábia Saudita Mohammed bin Salman (centro) e o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif (direita) durante encontro em Meca, Arábia Saudita. Foto/Reprodução: Turkish Presidency Press Office via AFP.
No início de agosto deste ano, os governos do Paquistão, da Turquia e da Arábia Saudita assinaram o “Acordo de Defesa Conjunta de Meca”. Embora o documento não tenha sido divulgado integralmente, uma declaração oficial informa que o tratado possui três pontos principais: uma cláusula de defesa mútua, ou seja, um ataque a um dos membros, teoricamente, seria respondido pelos demais; sua institucionalização por meio da criação do Comitê Estratégico de Política e Defesa, presidido por um secretariado rotativo; e, de acordo com uma nota do comitê emitida após sua primeira reunião, cooperação em exercícios militares conjuntos e na indústria de defesa, com desenvolvimento e produção de tecnologias bélicas compartilhadas.
Apelidado pela mídia de “Otan islâmica/muçulmana”, o acordo foi avaliado por alguns analistas, a princípio, como uma ação para pressionar o Irã, por serem três países de maioria sunita (enquanto o Irã é uma monarquia xiita), dois deles fronteiriços (Turquia e Paquistão). Mais urgentemente, temia-se também que isso pudesse escalar a guerra entre Estados Unidos e Irã para um conflito regional, uma vez que o país persa estava atacando bases estadunidenses em países da Península Arábica, como a Arábia Saudita, além de apoiar os guerrilheiros houthis, uma milícia xiita do Iêmen em guerra contra o governo local e o reino saudita.
Passados pouco mais de dois meses da assinatura, no entanto, o acordo ainda não foi invocado por nenhuma das partes, mesmo com o território da Arábia Saudita já tendo sido alvo de novos ataques tanto iranianos quanto houthis. Isso porque, apesar do que está previsto no texto, historicamente tratados de defesa mútua não são cumpridos por todos os países signatários de maneira imediata. Da invasão nazista à Polônia em 1939, quando França e Inglaterra não cumpriram seus compromissos assinados respectivamente na década anterior e naquele mesmo ano, à guerra das Malvinas em 1982, quando a ditadura empresarial-militar argentina invocou apoio dos demais países latino-americanos membros do TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca) sem sucesso, acordos desta natureza costumam servir de pretexto, mas a decisão de ir ou não à guerra é uma escolha política das classes dominantes capitalistas com base na avaliação dos seus interesses. Nas palavras de Sajjad Haider Khan, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, “quando chegar o momento, agiremos conforme o acordo”.
Já a cooperação para novas tecnologias bélicas, bem como seu emprego nas reconfigurações das zonas de influência através dos conflitos locais, parece ser o principal desdobramento do acordo nos próximos anos. Há alguns anos a Turquia vem investindo na construção naval bélica, tanto por meio das empresas estatais ASFAT e ASELSAN quanto assinando contratos massivos com os principais estaleiros privados do país. Neste período, tanto as empresas estatais quanto privadas vêm fechando cada vez mais contratos para a exportação de navios de guerra para outros países. Assim, o novo acordo pode acelerar o processo de concentração de capitais e monopolização desse setor da burguesia turca por meio do acesso a novos mercados e novas tecnologias.
A Arábia Saudita, com um orçamento de defesa para 2026 de 64 bilhões de dólares, entre os dez maiores do mundo, é historicamente um grande importador de equipamentos militares e cujo projeto para ampliar sua marinha se dá por meio da busca por investimentos estrangeiros e da compra de embarcações de outros países. Já o orçamento do Paquistão, embora mais modesto, vem crescendo em contratos com a Turquia anualmente, com 35% de aumento de 2024 para 2025, e com a meta de chegar a US$ 5 bilhões no futuro. O acesso à tecnologia nuclear paquistanesa, por outro lado, é uma forma de o reino saudita contornar a exigência de normalização de relações com Israel, condição imposta pelo governo dos Estados Unidos como contrapartida para o acesso à tecnologia estadunidense.
Alguns analistas tratam a questão como uma reorganização regional em dois blocos distintos. De um lado, a aliança entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia, agora fortalecida por um acordo, e de outro uma frente informal composta por Israel, Índia e Emirados Árabes Unidos. Isto porque os Emirados vêm se distanciando da Arábia Saudita; há também rivalidades entre Paquistão e Índia, incluindo um breve conflito armado no ano passado; e entre Turquia e Israel, alimentada a partir da ideologia da política externa turca de se colocar como potência representante dos interesses islâmicos e da Ásia Ocidental, inclusa a causa palestina.
Embora esta conformação de fato se desenhe na política regional, é importante destacar que esses dois blocos possuem forte alinhamento com os governos da Europa e dos Estados Unidos. Tanto Israel e os Emirados Árabes como a Arábia Saudita são aliados estratégicos dos EUA, que recentemente aprovou a venda de 48 caças F-35 ao governo saudita, também cobiçados pela Turquia e a despeito dos protestos israelenses pela perda da exclusividade tecnológica na região. Já a Turquia, além de ter disputado o mesmo acordo dos F-35, é integrante da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e tem um dos maiores exércitos entre os países-membros da aliança.
A despeito da aquisição de tecnologia russa e das relações voláteis com Moscou, a Turquia alçou duas vitórias recentes contra a Rússia ao financiar a invasão da região armênia de Artsaque pelo Azerbaijão e ao apoiar o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), que derrubou o ex-presidente sírio Bashar al-Assad e tomou o poder. Já o Paquistão, apesar da aliança estratégica com a China, também mantém boas relações com os Estados Unidos e é considerado um aliado não-membro da OTAN. E a Índia, apesar do alinhamento geral ao bloco dos BRICS, possui uma enorme rivalidade com a China, o que a levou a se tornar parceira estratégica dos Estados Unidos e de Israel na região, tanto na área comercial quanto de defesa.
Enquanto não é chegado o “momento certo” de uma guerra interimperialista, conforme aludiu o chanceler paquistanês, é difícil determinar a configuração final dos blocos em disputa. Isso vale especialmente quando se tratam de divisões regionais entre aliados dos governos imperialistas dominantes. Até lá, parece certo apenas que as burguesias desses dois grupos disputarão entre si zonas de influência e toda sorte de rotas comerciais, matérias-primas, recursos estratégicos e até países inteiros, buscando acumular cada vez mais capital colocando-os sob a hegemonia de seus próprios interesses.
Em outras palavras, as classes dominantes locais buscam se preparar para a guerra imperialista que desponta no horizonte aderindo a projetos expansionistas e à corrida armamentista. A tarefa dos comunistas é erigir uma incansável luta teórica e prática contra posições que fazem uma defesa abstrata de alinhamento aos países 'do Sul Global' contra o 'Norte Global', uma linha baseada em análises geopolíticas que destaca os interesses de Estados burgueses e que nubla os interesses de classe nessa disputa interimperialista. O interesse do proletariado não pode ser outro senão denunciar o expansionismo e o belicismo de suas classes dominantes, que visam centralizar capital e disputar posições na cadeia imperialista à custa de suas vidas. Somente a revolução proletária pode pôr fim definitivo à concorrência imperialista que leva sempre a novas guerras.