Esvaziamento do 11 de agosto demonstra descolamento das lutas nas bases
No dia do estudante, as principais entidades estudantis do país abandonaram as mobilizações nas bases para sequestrar a data comemorativa para o palanque eleitoral.

Mesmo em cenário de desmobilização nacional pelo campo governista, estudantes da UFC levantaram pautas locais e o fim da escala 6x1 no dia do estudante. Foto: Jornal O Futuro
Por Bianca Mondeja, diretora de políticas educacionais da UNE
Este 11 de agosto, data histórica da luta dos estudantes, escancarou as contradições do movimento estudantil brasileiro. Sob o mote convocado pela União Nacional dos Estudantes “Bolsonaro nunca mais! Por soberania, educação e fim da escala 6x1!”, as ruas esvaziadas revelaram o descolamento das principais entidades estudantis, sob direção política do campo democrático popular, das lutas construídas nas bases.
No primeiro semestre de 2026, eclodiram mobilizações nas universidades de todo o país. Apesar da centralidade em São Paulo, onde os DCEs das três estaduais protagonizaram greve estudantil, mobilizações despontaram em todas as regiões: na UFU, contra a falta de segurança no campus; na UFRJ e na UFRGS, por melhores condições de alimentação; na UFAC, em greve contra a precarização do transporte.
Apesar das particularidades, esses processos expressam uma dinâmica comum com o avanço das políticas de austeridade aprofundando as contradições entre condições de permanência, redução orçamentária e avanço do capital privado. Nas federais, isso se expressa na fragilidade decorrente do Arcabouço Fiscal. Para cumprir suas regras e acalmar os banqueiros, o governo federal congelou R$ 17,9 bilhões do orçamento nacional. Desse total, o MEC teve R$ 1,6 bilhão travado de imediato — dinheiro que deveria ir para manutenção básica. Um estudo do Senado aponta ainda um rombo de R$ 13,8 bilhões para custear água, luz, bolsas e serviços terceirizados até o fim do ano. Nas estaduais, a austeridade também se expressa em cortes e contingenciamentos, sob a lógica da “sustentabilidade econômica”.
Enquanto as universidades públicas amargam esses cortes, as grandes empresas avançam sobre o ensino superior. Abrem-se portas ao capital privado por meio da entrega de serviços essenciais — limpeza, segurança, restaurantes — a terceirizadas que superexploram trabalhadores; do controle de pesquisas via Fundações de Apoio, que usam laboratórios públicos para gerar patentes e lucros particulares; e da entrada de bancos e corporações na gestão de fundos patrimoniais. Quem paga são os estudantes com bolsas esmagadas pela inflação, moradias sucateadas, filas quilométricas nos restaurantes por falta de funcionários e insumos.
Ainda assim, essas lutas demonstraram que, apesar do refluxo, há disposição de luta e enfrentamento aos ataques à educação. Nesse sentido, a posição da UJC foi apontar a necessidade de unificar nacionalmente essas lutas sob a bandeira que as une: o combate à austeridade. Uma jornada nacional, com o 11 de Agosto como pontapé, seria capaz de elevar os processos locais a um novo patamar de enfrentamento direto a esse projeto.
No entanto, a posição adotada pelo campo vinculado ao governo nas principais entidades foi abandonar qualquer perspectiva de unificação e colocar o movimento à reboque da agenda eleitoral. Essa diferença se expressou também no mote escolhido, que recuou diante das contradições reais do movimento estudantil. “Bolsonaro nunca mais”, sem apresentar uma estratégia de combate à extrema-direita para além da derrota eleitoral de uma de suas expressões; “por soberania”, sem apontar quais interesses econômicos e políticos subordinam o país; e “por educação”, sem enfrentar a política de austeridade que restringe o orçamento das universidades.
Ainda há um caminho a percorrer, sobretudo pelas organizações de juventude que se opõem a esse projeto que deixa para depois — ou para nunca — a luta contra a austeridade, para organizar efetivamente os estudantes e apresentar uma alternativa. É um erro propor que os estudantes deixem de criticar o governo federal só porque estamos em período eleitoral, como fez o Movimento Juntos (PSOL). É um erro concentrar manifestações apenas com entidades próximas a uma força política, sem dialogar com o conjunto do movimento, como fez o Correnteza, da Unidade Popular. Construir uma resposta unificada demanda disputar o conteúdo e o sentido da luta de cada estudante, em cada universidade, generalizando as lutas locais em uma jornada nacional de enfrentamento à austeridade, construindo bases sólidas para disputar uma outra forma de educação e de sociedade.